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A problemática do sujeito à luz da teoria de Jacques Lacan

Author(s): Pereirinha, José Filipe Duarte cv logo 1

Date: 2009

Persistent ID: http://hdl.handle.net/1822/9754

Origin: RepositóriUM - Universidade do Minho


Description
Tese de doutoramento em Filosofia Moderna e Contemporânea Propomos, com a nossa investigação, uma abordagem da problemática do sujeito à luz da teoria de Jacques Lacan. O tema do sujeito está hoje, aparentemente, desacredi-tado. Com efeito, se o triunfo do capitalismo e da ciência produziu novos impasses, sin-tomas e modalidades de gozo, não parece ter gerado – nem ter capacidade de gerar – um novo sujeito, mesmo se contribuiu para a emergência de novas formas de subjectividade e subjectivação ligadas a tais modalidades de gozo. Por outro lado, o velho sujeito fundador, uno e autónomo, foi entretanto desqua-lificado por toda uma série de críticas e desconstruções. A ciência avança por si própria sem necessidade de uma fundamentação subjectiva (contrariamente ao que pensavam Descartes, Kant ou mesmo Husserl) e o gozo consumista, instigado pelo capitalismo, empurra a modernidade para o seu próprio estertor, pós ou hipermoderno (Lipovetsky). Um dos paradoxos ligados a semelhante estado de coisas, na era da globalização, é que, ao mesmo tempo que predomina um discurso promotor do elo e coesão entre as pessoas, os povos e as instituições, assiste-se cada vez mais, de forma imparável e sistemática, à destruição maciça dos velhos laços sociais, com toda a série de novos sintomas e impas-ses que uma tal situação tende a gerar, tanto a nível individual como colectivo. Neste contexto, que significado pode ter hoje a promoção psicanalítica do termo sujeito, levada a cabo em particular por Lacan desde o início do seu ensino? Antes de mais, importa distinguir o sujeito da psicanálise relativamente ao Eu da filosofia ou da psicologia tradicionais. A subversão lacaniana do sujeito implica um apagamento, um esvaziamento, um eclipse - à maneira de um “quadrado negro sobre fundo branco” (Malevitch) - de toda a “subjectividade” vulgar, filosñfica ou psicolñgica. É nessa justa medida que ele pode equivaler, paradoxalmente, segundo Lacan, ao “sujeito da ciência”: um sujeito sem qualidades (Musil), vazio de todo o conteúdo substancial, psicológico ou metafísico, apenas suportado pelos significantes que o representam e dividem irre-mediavelmente. Porém, ao contrário da ciência, que se afirma como um conhecimento sem sujei-to (Popper), Lacan estabelece como finalidade do seu ensino formar psicanalistas à altu-ra da função do sujeito. É este sujeito singular, falado e falante, que é convidado, numa época como a nossa, dominada por estranhos imperativos, a bem dizer o seu modo sin-tomático de gozo, para que uma nova forma de subjectivação do sintoma possa advir. Eis onde a problemática do sujeito confina e se revela devedora de uma ética da psicanálise. Avec notre recherche, nous nous proposons d‟aborder la problématique du sujet à la lumière de la théorie de Jacques Lacan. Le thème du sujet est de nos jours, appara-ment, discrédité. Si le triomphe du capitalisme et de la science a produit de nouvelles impasses, symptômes et modalités de jouissance, il ne semble pas avoir été capable de engendrer – voire même de ne pas avoir cette capacité – un nouveau sujet, même si cela a contribué à l‟émergence de nouvelles formes de subjectivité et subjectivation liées à de telles modalités de jouissance. D‟un autre côté, et dans ces entrefaits, le vieux sujet fondateur, un et autonome, a été disqualifié par toute une série de critiques et de déconstructions. La science avance de son propre chef sans le besoin d‟un fondement subjectif (contrairement à ce que pen-saient Descartes, Kant et même Husserl) et la jouissance de consommation, incitée par le capitalisme, pousse la modernité vers son propre râle, post ou hypermoderne (Lipo-vetsky). Un des paradoxes liés à cet état de choses, à l‟époque de la globalisation, c‟est que, en même temps que prédomine un discours instigateur du lien et de la cohésion entre les personnes, les peuples et les institutions, nous assistons de plus en plus, de façon imparable et systématique, à la destruction massive des vieux liens sociaux, avec toute la série de nouveaux symptômes et impasses qu‟une telle situation tend à engen-drer, aussi bien à un niveau individuel que collectif. Dans ce contexte et de nos jours, que peut bien vouloir dire la promotion psy-chanalytique du terme de sujet, en particulier celle menée par Lacan depuis le début de son enseignement? Avant toute chose, il importe de distinguer le sujet de la psychana-lyse par rapport au Moi de la philosophie ou de la psychologie traditionnels. La subver-sion lacanienne du sujet implique un effacement, un vidage, une éclipse – à la façon d‟un « carré noir sur fond blanc » (Malevitch) – de toute « subjectivité » vulgaire, philo-sophique ou psychologique. C‟est dans cette juste mesure qu‟il peut être l‟équivalent, paradoxalement et selon Lacan, du « sujet de la science » : un sujet sans qualités (Mu-sil), vide de tout contenu substantiel, psychologique ou métaphysique, supporté seule-ment par les signifiants qui le représentent et le divisent irrémédiablement. Néanmoins, au contraire de la science qui s‟affirme comme une connaissance sans sujet (Popper), Lacan établis comme finalité de son enseignement former des psy-chanalystes à la hauteur de la fonction du sujet. C‟est ce sujet singulier, parlé et parlant, qui est invité à une époque comme la nôtre, dominée par d‟étranges impératifs, à bien dire son mode symptômatique de jouissance, pour qu‟une nouvelle forme de subjectiva-tion du symptôme puisse surgir. Voilá où la problématique du sujet confine et se révèle débitrice d‟une étique de la psychanalyse.
Document Type Doctoral Thesis
Language Portuguese
Advisor(s) Rocha, Acílio da Silva Estanqueiro
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