Autor(es): Simões, Jorge ; Jardim, Sara
Data: 2023
Origem: Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
Autor(es): Simões, Jorge ; Jardim, Sara
Data: 2023
Origem: Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
Over the last few decades, the role of the State and, in particular, the functions of the Government have undergone signifi- cant changes, with successive constraints on its decision-making power as new players emerged. The situation, susceptible to changing the classic understanding of statehood, is transversal to most western democracies. Although it constitutes a response to the social and economic transformations that have occurred, it has been hardly accompanied by the evolution of public ad- ministration models. The competence of the Executive as the highest body of public administration remains, however, within its exclusive sphere, including the responsibility for implementing the values that govern public management. The tension between maximizing efficiency and defending transparency comprises a challenge becoming more complex with the expan- sion of the web of relationships between the different protagonists in public decision. We seek to analyse the emergence of this shared sovereignty in Portugal, recognizing five key moments, framed by broader geographic reforms, with both supranational and international scope. The European Union, the privatization process, the independent regulatory authorities, the Court of Auditors, as well as civil society are the key players. The erosion of the conventional idea of autonomy associated with the com- plexity of current governance will be presented, seeking to demonstrate that the transfer of political responsibility must be accompanied by the protection of tools that ensure social representation in public decision-making, and the accomplishment of social justice and equity, every so often incompatible with the diversity of legitimate interests and expectations of citizens. The transparency of decision-making processes, the value of information and collaboration, both institutionally and with citizens, are the guiding principles for overcoming the obstacles that require a new approach to the exercise of public power.
Au cours des dernières décennies, le rôle de l'État et, en particulier, les fonctions du gouvernement ont connu des change- ments importants, avec des contraintes successives sur son pouvoir de décision au fur et à mesure de l'émergence de nouveaux acteurs. La situation, susceptible de modifier la conception classique de l'État, est transversale à la plupart des démocraties occidentales. Bien qu'elle constitue une réponse aux transformations sociales et économiques qui se sont produits, elle n’a que modérément été accompagnée par l'évolution des modèles d'administration publique. La compétence de l'exécutif en tant qu'organisme suprême de l'administration publique reste dans sa sphère exclusive, y compris la responsabilité d’exécuter les valeurs qui régissent la gestion publique. La tension entre maximisation de l'efficacité et défense de la transparence constitue un enjeu de plus en plus complexe avec l'élargissement du tissu des relations entre les différents protagonistes de la décision publique. Nous cherchons à analyser l'émergence de cette souveraineté partagée au Portugal, en reconnaissant cinq moments clés, encadrés par des réformes géographiques plus larges, avec une portée à la fois supranationale et internationale. L'Union européenne, le processus de privatisation, les autorités de régulation indépendantes, la Cour des comptes, ainsi que la société civile en sont les principaux acteurs. L'érosion de l'idée conventionnelle d'autonomie associée à la complexité de la gouver- nance actuelle sera présentée, en cherchant à démontrer que le transfert de responsabilité politique doit s'accompagner de la protection des outils qui assurent la représentation sociale dans la décision publique, et de la réalisation de la justice sociale et l'équité, parfois incompatibles avec la diversité des intérêts légitimes et des attentes des citoyens. La transparence des processus de décision, la valeur de l'information et la collaboration, tant institutionnelle qu'avec les citoyens, sont principes directeurs pour surmonter les obstacles qui réclament une nouvelle approche à l'exercice de la puissance publique.
Ao longo das últimas décadas o papel do Estado e, em particular, as funções do governo têm sofrido significativas alterações, com sucessivos constrangimentos do seu poder decisório à medida que emergiam novos intervenientes. O fenómeno, capaz de alterar o entendimento clássico de estatalidade, é transversal à maioria das democracias ocidentais e embora constitua uma resposta às transformações sociais e económicas ocorridas, tem sido dificilmente acompanhado pela evolução dos modelos de administração pública. Mantém-se, todavia, na esfera exclusiva do Executivo o exercício de poderes na qualidade de órgão superior da admi- nistração pública, abrangendo a responsabilidade pela concretização dos valores que presidem à gestão pública. A tensão entre a maximização da eficiência e a defesa da transparência constitui um desafio tanto ou mais complexo quanto mais densa se torna a teia de relações entre os diversos protagonistas da decisão pública. Procuramos analisar a emergência da partilha de soberania, distinguindo cinco momentos-chave em Portugal, enquadrados por fenómenos reformistas de geografia mais ampla, quer supra- nacional, quer internacional. A União Europeia, o processo de privatizações, a regulação, o controlo financeiro e o Tribunal de Contas, bem como a sociedade civil constituem os intervenientes em destaque. A erosão da ideia clássica de autonomia associada à complexidade da governação atual será retratada, procurando-se demonstrar que a transferência da responsabilidade política deve ser acompanhada da proteção das ferramentas que asseguram a representatividade social na decisão pública e que promovam a justiça social e a equidade, nem sempre compatíveis com a diversidade de legítimos interesses e expectativas dos cidadãos. A transparência dos processos de decisão, a relevância da informação e a colaboração, institucional e com os cidadãos, constituem fios condutores para superação dos obstáculos que exigem uma nova abordagem ao exercício do poder público.