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Representações do Mundo Social em José Cardoso Pires

Author(s): Silva, Eunice Cabral Nunes da

Date: 1994

Persistent ID: http://hdl.handle.net/10174/10565

Origin: Repositório Científico da Universidade de Évora

Subject(s): o anjo ancorado; o delfim; balada da praia dos cães; neo-realista; realismo; heterodoxias; mundo social


Description

INTRODUÇÃO - O nosso trabalho é um estudo de inspiração sociocrítica de três romances de José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (1958), O Delfim (1968) e Balada da Praia dos Cães (1982), que procura analisar as principais representações do mundo social português contemporâneo (décadas de 50 e de 60) inscritas nos romances referidos. Ao estudarmos as representações narrativas dos três textos em causa, fomos levados a considerar que este conjunto de romances do autor forma dois ciclos romanescos. Definindo ciclo romanesco pela existência de determinados traços comuns, consideramos que o primeiro se estabelece desde os primeiros contos até ao romance D., que aparece como epílogo desse ciclo (1), e que o segundo se inicia com o romance BPC. Excluímos do nosso corpos tanto os contos do autor, anteriores ao seu primeiro romance (Os Caminheiros e outros contos, 1949 e Histórias de Amor, 1952; mais tarde seleccionados no volume Jogos de Azar, 1963) como o romance O Hóspede de Job (1963) por razões que seguidamente adiantaremos. A nossa contribuição consiste na análise das articulações que os três textos romanescos estabelecem com os contextos socioculturais, pressupostos ou referidos nos enunciados narrativos, e das correlações entre os textos romanescos e os códigos em vigor no sistema literário. Uma dessas articulações é a permitida pelo "legado neo-realista", inscrito nos dois primeiros romances e constituído por algumas regularidades irregulares em relação ao código neo-realista. Uma outra é a articulação com a "sociosfera" do existencialismo, inscrita no discurso narrativo dos dois textos referidos, como uma das manifestações de afastamento em relação ao código neo-realista. Por último, articularemos os textos narrativos com a "crise do psicológico" que é uma manifestação literária de uma outra crise de âmbito sociocultural, a do humanismo. Sempre que necessário, analisaremos também os textos ensaísticos de J.C.P. que, constituindo intertextos exoliterários, contextualizam certas estruturas semânticas e narrativas dos romances em análise. A nossa pesquisa vai sobretudo no sentido de uma sociocrítica do texto narrativo tendo em conta que as significações são produzidas pela organização textual do enunciado romanesco. Queremos, deste modo, evitar uma análise do nível denotativo e documental do texto literário que teria por objectivo ilustrar uma época. Este tipo de análise reduziria o texto literário a uma dimensão documental e puramente sociológica, anulando a autonomia relativa do discurso literário como "sistema modelizante secundário". Deste modo, consideramos que os fenómenos discursivos de um texto narrativo se configuram pelas interacções entre os sistemas literários e os sistemas sociais, constituindo formulações literárias de "discursos sociais" num determinado tempo e lugar. Pensemos no "legado neo-realista" inscrito nos dois primeiros romances em análise: uma das suas manifestações, em termos de "idiolecto" do autor, é o facto da perspectivação narrativa inscrever a conflitualidade insolúvel de vários "discursos sociais" na constituição sociocultural do espaço e das personagens que nele se movem.

Document Type Doctoral thesis
Language Portuguese
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