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Por um plano sem plano: Cinema e Patrimónios Mbya-Guarani

Author(s): Fernandes, Rodrigo Lacerda

Date: 2019

Persistent ID: http://hdl.handle.net/10362/63266

Origin: Repositório Institucional da UNL

Subject(s): Cinema indígena; Património indígena; Mbya-Guarani; Indigenous cinema; Indigenous heritage; Domínio/Área Científica::Ciências Sociais::Outras Ciências Sociais; Domínio/Área Científica::Ciências Sociais::Outras Ciências Sociais; Domínio/Área Científica::Ciências Sociais::Outras Ciências Sociais


Description

A tese analisa as relações entre cinema e património no contexto específico dos povos indígenas no Brasil. A primeira parte examina o desenvolvimento do cinema indígena produzido em colaboração com o projeto Vídeo nas Aldeias (VNA), que foi criado no Brasil em 1986 com o objetivo de apoiar a luta dos povos autóctones no fortalecimento das suas culturas e identidades através do recurso ao audiovisual. A segunda parte da tese centra-se no estudo de caso da cinematografia Mbya-Guarani realizada em parceria com o VNA. Esta produção teve início com a implementação do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) junto dos Mbya-Guarani que vendiam artesanato nas ruínas das Missões Jesuítico-Guarani, em São Miguel das Missões (RS). Estas estruturas tinham sido previamente classificadas como património a nível do Estado de Rio Grande do Sul (1922), do Estado-nação (1938) e da Humanidade, pela UNESCO (1983). O primeiro filme Mbya-Guarani revelou que, para este povo, as ruínas são um património dissonante e um palco de violência colonial no passado e no presente. O aprofundamento do estudo do IPHAN e da realização filmográfica Mbya-Guarani tornaram evidentes que as categorias de património e de cinema podem ser reequacionadas através da ontologia, cosmologia e gnoseologia deste povo. Assim, no seguimento de diversos autores, advogo que a categoria de património deve ser expandida e compreendida como a curadoria dos elementos que os Mbya-Guarani consideram importante preservar do passado no presente com o intuito de construir o futuro. Tendo em conta este enquadramento, proponho que uma possível categoria nativa de património se baseie nos seguintes princípios metafísicos interdependentes: 1) construção de corpos alegres, bons e belos; 2) potencialização da comunidade Guarani; 3) manutenção/reconstrução constante do cosmo através de práticas e circulação de conhecimentos que interligam humanos e extra-humanos. Em paralelo, argumento que a produção cinematográfica encontra ressonâncias e fricções com o que um dos cineastas denomina de espiritualidade, isto é, com os vetores que estabelecem o bem-viver e as práticas estético-éticas de convivialidade, comensalidade e corporalidade que permitem transcender a condição de tekoaxy (imperfeito, perecível) e alcançar o estado de maturidade corporal (aguyje) na Yvy Mara ẽy (a morada celeste imperecível). O processo iniciado pelo IPHAN culminou em 2014 com o registo dos remanescentes no “Livro dos Lugares – Patrimônio Cultural Imaterial” enquanto “Tava, Lugar de Referência para o Povo Guarani”. A tese conclui com uma crítica a este processo patrimonial, que reduz a potencialidade política da categoria de património à estetização da cultura e à domesticação da memória, e propõe, em alternativa, uma cosmopolítica de equívocos controlados que, através de conexões parciais, desenvolva o comum do mundo comum que urge construir, perante as ameaças sociais e ambientais prementes na atualidade.

This thesis analyzes the relationship between cinema and heritage in the specific context of indigenous peoples in Brazil. The first part examines the development of indigenous cinema produced in collaboration with the project Video in the Villages (VNA), which was created in Brazil in 1986 to support the struggles of indigenous peoples in strengthening their cultures and identities through audiovisual production. The second part of the thesis focuses on the case study of the Mbya-Guarani cinematography, produced in partnership with VNA. This production began with the implementation of the National Program of Intangible Heritage by the National Historical and Artistic Heritage Institute (IPHAN), with the Mbya-Guarani who sold handicraft at the ruins of the Jesuit-Guarani Missions in São Miguel das Missões (RS). These structures had previously been classified as heritage sites by the state of Rio Grande do Sul (1922) and the nation-state (1938), and as World Heritage site by UNESCO (1983). The first Mbya-Guarani film revealed that, for this people, the ruins are a dissonant heritage and the setting for colonial violence, both in the past as well as the present. The deepening of the study by IPHAN, and of the Mbya-Guarani cinematography, have shown that the categories of heritage and film can be reimagined through the ontology, cosmology and gnoseology of this people. Thus, in agreement with several authors, I advocate for the category of heritage to be expanded and understood as the curation of the elements from the past that the Mbya-Guarani consider important for preserving in the present, in order to build the future. In view of this framework, I propose that a possible native category of heritage be based on the following interdependent metaphysical principles: 1) the construction of cheerful, good and beautiful bodies; 2) the strengthening of the Guarani community; and 3) the maintenance/reconstruction of the cosmos through practices and circulation of knowledge that interconnect humans and extrahumans. Concurrently, I argue that film production finds resonances and frictions with what one of the filmmakers calls spirituality, that is, with the vectors that promote the good-living and the aesthetic-ethical practices of conviviality, commensality and the corporality that enable them to overcome the condition of tekoaxy (imperfect, perishable), in order to reach the state of bodily maturity (aguyje) in the Yvy Mara ẽy (the imperishable heavenly abode). The process initiated by IPHAN culminated in 2014 with the recording of the remnants in the “Book of Places - Intangible Cultural Heritage” as “Tava, Place of Reference for the Guarani People”. The thesis concludes with a critique of this patrimonial process that reduces the political potentiality of the heritage category to an aesthetization of culture and a domestication of memory and proposes, alternatively, a cosmopolitics of controlled equivocation that, through partial connections, develops the common of the common world that urgently needs to be built, given today’s pressing social and environmental threats of today.

Document Type Doctoral thesis
Language Portuguese
Advisor(s) Leal, João; Athias, Renato
Contributor(s) Fernandes, Rodrigo Lacerda
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