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Representações sobre os Indíginas no Cinema Brasileiro nos Anos 70

Author(s): Cavalcanti, Senyra Martins

Date: 2026

Persistent ID: https://hdl.handle.net/10316/123615

Origin: Estudo Geral - Universidade de Coimbra

Subject(s): Movies; Civil-Military Dictatorship; Indigenous; Nacionalism; Representation; Cinema; Ditadura Civil-Militar; Indígenas; Nacionalismo; Representação


Description

A investigação sobre as representações dos indígenas no cinema brasileiro da década de 1970, em especial sobre as obras que tematizaram os povos indígenas realizadas por não indígena tem como núcleo da pesquisa o filme Anchieta, José do Brasil (1977), de Paulo César Saraceni. O contexto da análise abrange o período de intensificação das disputas sobre memória e identidade nacional, quando o aparato de políticas culturais e censura buscavam orientar os sentidos históricos e, ao mesmo tempo, temos o cinema de autor e os grupos de resistência intelectual buscando experimentar caminhos para tensionar tais enquadramentos. Nessa perspectiva, a escolha de Anchieta como personagem fílmico não pode ser compreendida de modo pouco crítico: falar sobre o missionário jesuíta do século XVI, canonizado em 1980, é falar inevitavelmente sobre as populações indígenas que ele buscou converter e controlar, e sobre as ambivalências que se acumulam em torno de sua figura. O filme de Saraceni, nesse sentido, revela-se campo privilegiado para compreender como o cinema dos anos 1970 lidou com as ambiguidades da história colonial e das representações sobre os indígenas. A análise evidenciou a complexidade de forças que atravessaram a realização de Anchieta, José do Brasil. Por um lado, havia expectativas externas — do Estado autoritário e da própria Igreja Católica — de que o filme produzisse uma imagem celebratória do missionário, condizente com os projetos de canonização em curso e com a narrativa de conciliação entre projeto colonial e populações nativas que tanto interessava ao regime militar nos anos 1970. Por outro lado, o projeto autoral de Saraceni, buscava afirmar uma visão pessoal, um “seu Anchieta”, que não fosse mera reprodução de ideologias oficiais, mas, ao mesmo tempo teve que dialogar com elas. A tensão resultante resulta em uma obra fílmica atravessada por contradições, na qual Anchieta aparece, simultaneamente, como fisicamente fragilizado, devotado, determinado em sua missão evangelizadora, mas em conflito interior; mediador histórico entre indígenas e colonos em um processo que implicou, necessariamente, a subalternização dos povos indígenas. O estudo fundamentou-se em ampla investigação fílmica e documental. Foram analisadas as sequências do filme de Saraceni em diferentes níveis — narrativo, estético e discursivo —, identificando padrões de representação, metáforas visuais e silêncios. Esse exame articulou-se ao cotejo de bibliografia especializada em história cultural, articulação história e cinema, e teoria pós-colonial. A metodologia adotada enfatizou a necessidade de distinção entre a posição do espectador comum e a do analista, propondo uma imersão sistemática na obra, seguida da seleção de sequências e do cruzamento entre análise interna do filme e leitura contextualizada das teorias críticas. Considera-se, igualmente, a relevância do debate contemporâneo sobre representação, cultura e colonialidade, uma vez que autores como Edward Said, Homi Bhabha e Gayatri Spivak problematizam a permanência de estruturas coloniais de silenciamento, mesmo em contextos de produção cultural aparentemente progressista. A hipótese fundamental que orientou esta pesquisa é que, embora Saraceni buscasse realizar um “Anchieta” próprio, distinto daquele desejado pela Igreja ou patrocinado pelo regime militar, sua obra se viu presa às estruturas discursivas de subalternização dos indígenas que passam pelo enaltecimento da figura controversa de um padre catequizador. A representação cinematográfica, ainda que marcada por momentos de tensão e ambiguidade, reproduziu mecanismos de apagamento e instrumentalização que acompanham a longa duração das imagens coloniais sobre os indígenas. Ao mesmo tempo, contudo, é precisamente nessas contradições que reside a potência do filme: ao recusar uma visão heroica do padre missionário nomeado Apóstolo do Brasil e Patrono Celeste do Brasil, Saraceni introduziu problematizações que desestabilizaram a narrativa oficial e permitiram conhecer: um Anchieta hesitante e em conflito interior sobre a sua missão; um processo colonial com cosmovisões em conflito; e, a persistência de sujeitos indígenas, ainda que muitas vezes silenciados. A análise permite concluir que Anchieta, José do Brasil não pode ser compreendido como mero produto cultural alinhado ao regime, tampouco como obra plenamente emancipada das pressões institucionais. O filme se situa em um espaço intermediário, no qual a criação artística de Saraceni se choca com os limites históricos e ideológicos de sua época, e com os seus próprios limites enquanto sujeito do seu tempo. Anchieta ilumina tanto a permanência de um imaginário colonial quanto a emergência de tensões que, nas décadas seguintes, abririam caminho para experiências de um cinema indígena com realizadores indígenas e para outras formas de autorrepresentação.

The investigation on the representations of Indigenous peoples in Brazilian cinema of the 1970s, especially regarding works that addressed Indigenous themes produced by non-Indigenous filmmakers, has as its core the film Anchieta, José do Brasil (1977), directed by Paulo César Saraceni. The context of the analysis encompasses the period of intensification of disputes over memory and national identity, when cultural policies and censorship apparatus sought to guide historical meanings and, at the same time, authorial cinema and groups of intellectual resistance sought to experiment with paths to challenge such frameworks. In this perspective, the choice of Anchieta as a filmic character cannot be understood uncritically: to speak of the sixteenth-century Jesuit missionary, canonized in 1980, is inevitably to speak of the Indigenous populations he sought to convert and control, and of the ambivalences that accumulate around his figure. Saraceni’s film, in this sense, reveals itself as a privileged field for understanding how the cinema of the 1970s dealt with the ambiguities of colonial history and of representations of Indigenous peoples. The analysis revealed the complexity of forces that traversed the making of Anchieta, José do Brasil. On the one hand, there were external expectations — from the authoritarian State and from the Catholic Church itself — that the film would produce a celebratory image of the missionary, consistent with the ongoing canonization projects and with the narrative of reconciliation between the colonial project and native populations, which so greatly interested the military regime of the 1970s. On the other hand, Saraceni’s authorial project sought to affirm a personal vision, his “own Anchieta,” not a mere reproduction of official ideologies, yet still compelled to dialogue with them. The resulting tension produces a filmic work traversed by contradictions, in which Anchieta appears simultaneously as physically frail, devoted, determined in his evangelizing mission, yet internally conflicted; a historical mediator between Indigenous peoples and colonists in a process that necessarily entailed the subalternization of Indigenous peoples. The study was grounded in a wide-ranging filmic and documentary investigation. Saraceni’s film sequences were analyzed at different levels — narrative, aesthetic, and discursive — identifying representational patterns, visual metaphors, and silences. This examination was articulated with specialized bibliography in cultural history, the relationship between history and cinema, and postcolonial theory. The methodology adopted emphasized the need to distinguish between the position of the common spectator and that of the analyst, proposing a systematic immersion in the work, followed by the selection of sequences and the cross-referencing between the film’s internal analysis and a contextualized reading of critical theories. The contemporary debate on representation, culture, and coloniality was also considered relevant, since authors such as Edward Said, Homi Bhabha, and Gayatri Spivak problematize the persistence of colonial structures of silencing, even in contexts of apparently progressive cultural production. The fundamental hypothesis that guided this research is that, although Saraceni sought to create his “own Anchieta,” distinct from that desired by the Church or sponsored by the military regime, his work remained bound by discursive structures of Indigenous subalternization that pass through the exaltation of the controversial figure of a catechizing priest. Cinematic representation, even if marked by moments of tension and ambiguity, reproduced mechanisms of erasure and instrumentalization that accompany the long duration of colonial images of Indigenous peoples. At the same time, however, it is precisely in these contradictions that the potency of the film resides: by refusing a heroic vision of the missionary priest named Apostle of Brazil and Celestial Patron of Brazil, Saraceni introduced problematizations that destabilized the official narrative and allowed the audience to perceive: an Anchieta hesitant and internally conflicted about his mission; a colonial process with conflicting worldviews; and the persistence of Indigenous subjects, even when often silenced. The analysis allows us to conclude that Anchieta, José do Brasil cannot be understood as a mere cultural product aligned with the regime, nor as a work fully emancipated from institutional pressures. The film situates itself in an intermediate space, in which Saraceni’s artistic creation collides with the historical and ideological limits of his time, and with his own limits as a subject of his era. Anchieta illuminates both the persistence of a colonial imaginary and the emergence of tensions that, in subsequent decades, would pave the way for the experiences of an Indigenous cinema with Indigenous filmmakers and for other forms of self-representation.

Document Type Doctoral thesis
Language Portuguese
Contributor(s) Estudo Geral; Nunes, João Paulo Cabral de Almeida Avelãs; Eugênio, Marcos Francisco Napolitano de; Branco, Sérgio Emanuel Dias
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