Author(s):
Sobral, Mónica Alexandra Correia
Date: 2026
Persistent ID: https://hdl.handle.net/10316/123644
Origin: Estudo Geral - Universidade de Coimbra
Subject(s): neuroplasticidade; cognição; matrescência; período perinatal; saúde mental perinatal; neuroplasticity; cognition; matrescence; perinatal mental health; perinatal period
Description
Background: Matrescence, or the transition to motherhood, is accompanied by profound biological, psychological, and social changes. Although research on perinatal mental health and cognition has traditionally emphasized vulnerability, deficits, and psychopathology, emerging evidence suggests that this period may also involve gains and adaptation. However, the nature of these changes, their relationship to affective symptoms, and their implications for cognitive functioning remain poorly understood. This dissertation adopts a developmental and systems-level perspective on the maternal brain and cognitive adaptation, exploring how psychological well-being, cognition, and neural function interact across the perinatal period. Specifically, we investigated (1) associations between psychological well-being and cognition during pregnancy up to one year postpartum; (2) longitudinal neurocognitive trajectories across pregnancy; and (3) the neural correlates of maladaptation in perinatal depression relative to non-perinatal depression. Methods: This dissertation integrated two systematic reviews and meta-analyses with a prospective longitudinal empirical study. Study I reviewed the associations between perinatal depressive and anxiety symptoms and cognitive functioning (memory, attention, and cognitive flexibility), including both objective performance and subjective cognitive complaints. Study II followed a cohort of 24 healthy pregnant women across gestation and 18 never-pregnant controls, assessing executive and socioemotional processing alongside task-related functional connectivity using high-density functional near-infrared spectroscopy of prefrontal and temporoparietal regions. Cognitive domains included sustained attention, spatial working memory, cognitive flexibility, and emotional processing (recognition and bias), enabling the characterization of both behavioural performance and large-scale network dynamics across gestation. Participants also provided information on their mood, anxiety, stress, fatigue, and sleep quality. Study III synthesized neuroimaging evidence on perinatal depression and compared its structural, functional, and metabolic neural correlates with those of non-perinatal female major depressive disorder. Results: Depressive and anxiety symptoms were robustly associated with subjective memory complaints, whereas relationships with objective cognitive performance were largely inconsistent, with only limited evidence in autobiographical memory. In the longitudinal study, well-being (depressive and anxiety symptoms, perceived stress, sleep quality) showed trimester- and domain-specific associations with behavioural performance, especially with cognitive flexibility and socioemotional processing performance. We found trimester- and task-specific reorganization of functional connectivity within and between frontoparietal/executive control and default mode networks. Cognitive performance was preserved or subtly enhanced in sustained attention, cognitive flexibility, and spatial working memory (efficiency and response speed). Individual variability was substantial. Finally, perinatal depression showed substantial overlap with neural circuits implicated in female non-perinatal depression, alongside evidence for reproductive-stage-specific modulation, particularly in limbic and default mode network regions. Conclusions: Together, these findings support emerging models conceptualizing the transition to motherhood as a period of adaptive neurocognitive reorganization rather than generalized cognitive decline. Pregnancy-related brain changes may reflect flexible recalibration of large-scale networks to meet heightened and complex cognitive, emotional, and environmental demands. While affective symptoms may interact with these processes and, in some individuals, contribute to vulnerability, they do not appear to uniformly impair cognition. Instead, pregnancy emerges as a sensitive window of neural plasticity during which individual differences in affective state, educational background, and contextual demands can shape trajectories of adaptation. In this context, perinatal depression is best understood not as a distinct disorder nor as a simple extension of non-perinatal major depression, but as a condition arising from the interaction between shared depressive neurobiology and the unique hormonal, psychological, and social context of the perinatal period. Overall, these findings emphasize that pregnancy represents a period of heightened neurobiological plasticity, conferring both opportunity for adaptation and vulnerability, and highlight the need for longitudinal, multimodal approaches to identify pathways of resilience and risk across the transition to motherhood.
Introdução: Matrescência ou a transição para a maternidade é acompanhada por profundas alterações biológicas, psicológicas e sociais. Embora a investigação em saúde mental e cognição no período perinatal tenha tradicionalmente enfatizado a vulnerabilidade, os défices e a psicopatologia, evidência emergente sugere que este período pode também envolver ganhos e adaptação. Contudo, a natureza destas mudanças, a sua relação com os sintomas afetivos e as suas implicações para o funcionamento cognitivo permanecem insuficientemente compreendidas. Esta dissertação adota uma perspetiva desenvolvimental e sistémica sobre o cérebro materno e a adaptação cognitiva, explorando a forma como o bem-estar psicológico, a cognição e a função neuronal interagem ao longo do período perinatal. Especificamente, investigámos: (1) as associações entre o bem-estar psicológico e a cognição desde a gravidez até um ano pós-parto; (2) as trajetórias longitudinais de funcionamento neurocognitivo ao longo da gravidez; e (3) os correlatos neuronais da maladaptação na depressão perinatal, em comparação com a depressão não perinatal. Métodos: Esta dissertação integrou dois estudos de revisão sistemática e meta-análise e um estudo empírico longitudinal prospetivo. O Estudo I analisou as associações entre sintomas depressivos e de ansiedade no período perinatal e o funcionamento cognitivo (memória, atenção e flexibilidade cognitiva), incluindo o desempenho objetivo e as queixas cognitivas subjetivas. O Estudo II acompanhou uma coorte de 24 mulheres grávidas saudáveis ao longo da gestação e 18 mulheres nunca grávidas, avaliando cognição executiva e socioemocional, bem como a conectividade funcional associada à tarefa através de espectroscopia funcional por infravermelho próximo de alta densidade, focada em regiões pré-frontais e temporoparietais. Os domínios cognitivos avaliados incluíram atenção sustentada, memória de trabalho espacial, flexibilidade cognitiva e processamento emocional (reconhecimento e viés), permitindo caracterizar simultaneamente o desempenho comportamental e a dinâmica de redes cerebrais ao longo da gestação. As participantes forneceram ainda informação sobre humor, ansiedade, stress, fadiga e qualidade do sono. O Estudo III sintetizou a evidência de neuroimagem sobre a depressão perinatal e comparou os seus correlatos neuronais estruturais, funcionais e metabólicos com os da perturbação depressiva major não perinatal em mulheres. Resultados: Os sintomas depressivos e ansiosos associaram-se de forma robusta a queixas subjetivas de memória, enquanto as relações com o desempenho cognitivo objetivo foram inconsistentes, com evidência limitada na memória autobiográfica. No estudo longitudinal, o bem-estar (sintomas depressivos e de ansiedade, stress percebido e qualidade do sono) apresentou associações específicas por trimestre e por domínio com o desempenho comportamental, particularmente na flexibilidade cognitiva e processamento socioemocional. Observamos uma reorganização da conectividade funcional, dependente do trimestre e da tarefa, envolvendo redes cerebrais frontoparietais/controlo executivo e default mode. O desempenho cognitivo manteve-se estável ou apresentou melhorias subtis na atenção sustentada, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho espacial (eficiência e rapidez na resposta). Simultaneamente, verificou-se uma elevada variabilidade individual. Por fim, a depressão perinatal apresentou uma sobreposição substancial com os circuitos neuronais implicados na depressão major não perinatal em mulheres, assim como evidência de modulação específica do período reprodutivo, particularmente em regiões límbicas e da rede cerebral default mode. Conclusão: Em conjunto, estes resultados suportam uma conceptualização da transição para a maternidade como um período de reorganização neurocognitiva adaptativa, em vez de um declínio cognitivo generalizado. As alterações cerebrais observadas durante a gravidez parecem refletir uma reorganização funcional de redes de larga escala em resposta a exigências cognitivas, emocionais e contextuais acrescidas. Embora os sintomas afetivos possam interagir com estes processos e, em alguns casos, aumentar a vulnerabilidade, não aparentam induzir um compromisso cognitivo generalizado. Pelo contrário, a gravidez emerge como uma janela sensível de plasticidade neuronal, na qual diferenças individuais no estado afetivo, no nível educacional e no contexto psicossocial modelam trajetórias de adaptação. Neste enquadramento, a depressão perinatal é melhor compreendida não como uma entidade distinta nem como uma simples extensão da depressão major, mas como uma condição resultante da interação entre vulnerabilidade depressiva partilhada e as exigências hormonais, psicológicas e sociais específicas do período perinatal. Estes resultados reforçam a importância de abordagens longitudinais e multimodais para compreender os mecanismos de risco e resiliência ao longo da transição para a maternidade.