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Eles Morreram, Elas Não: Um estudo sobre a viuvez feminina

Author(s): Brás, Ana Rita Oliveira

Date: 2026

Persistent ID: https://hdl.handle.net/10316/123808

Origin: Estudo Geral - Universidade de Coimbra

Subject(s): Conjugalidade; Mulheres; Narrativas biográficas; Trajetórias de vida; Viuvez; Biographical narratives; Conjugality; Life trajectories; Widowhood; Women


Description

In Portugal, the demographic prevalence of widowhood among women aged over 65 underscores the extent to which conjugal loss constitutes a markedly feminised experience. Despite the growing and increasingly significant representation of older people within the portuguese demographic structure, and given the clear analytical relevance of examining their lived experiences, both later life and widowhood remain insufficiently addressed within sociology. In the case of widowhood, academic production is particularly limited, remaining largely peripheral within sociological research. Existing research derives predominantly from fields such as social psychology and gerontology, which have been primarily focused on identifying and interpreting the emotional and psychological repercussions of widowhood. Beyond these contributions, little is known about the broader and deeper social meanings and implications of being widowed in Portugal. The limited scope of scientific knowledge on widowhood has contributed to perpetuating a culturally embedded and socially reproduced assumption that widowhood – especially among older women – entails a decline in well-being, inevitably giving rise to vulnerability and deprivation. This oversimplified understanding remains firmly embedded in homogenised social representations of what it means to be a widow, an older woman, and an older widow. Even in a broader thematic and geographical frame, the existing body of widowhood studies remains limited in scope: it focuses primarily on the immediate period following the spouse’s death and on the short-term effects of bereavement within the process of loss adjustment.By connecting conjugal loss to the broader experiences and contexts that shape widows’ life trajectories – while expanding a more detailed examination of both the specificities of their social worlds and those of Portuguese society – this study seeks to address the gaps and limitations outlined above. It further makes a direct contribution to the incorporation of widows’ perspectives – voiced in their own narratives – into the body academic knowledge on widowhood. A biographical lens provides the analytical framework necessary for the understanding of how historical context, social organisation, socio-economic position, social networks, and value orientations shape their ways of living, meaning-making, and orientation towards life, not only after the death of their husbands but throughout their broader life trajectories. Through in-depth interviews, it was possible to reconstruct the life trajectories of 33 widows and to analytically map, across multiple layers, the continuities and discontinuities that shape their experiences. This study is analytically grounded in these women’s narratives.The analysis of the narratives revealed that widowhood is not a homogeneous experience; neither is it defined solely by loneliness, unhappiness, and deprivation, nor do the changes it triggers necessarily lead to decline. Instead, in widows’ own understanding, widowhood is commonly perceived and valued as an experience that improved their life circumstances and ways of living. Their narratives reveal how widowhood operates as a transformative life experience, being simultaneously shaped by biographical continuity and rupture. Throughout these accounts, age and gender emerge as key conditions structuring the ways and meanings through which experiences of widowhood are transformed. This study reinforces the importance of recognising the presence of gender inequalities within the dynamics of social reproduction, the sexual division of care and housework by highlighting their profound imprint on these women’s life trajectories. It also underscores the inadequacy of uniform perspectives when aiming to capture and describe women’s concrete lived experiences.

Em Portugal, o peso demográfico da viuvez na população feminina com mais de 65 anos atesta que a perda conjugal é uma experiência feminizada. Apesar do crescente e significativo peso da população idosa na estrutura demográfica portuguesa e da clara pertinência do estudo das suas experiências, tanto a velhice, como a viuvez, continuam a estar deficitariamente representadas na análise sociológica. No caso da viuvez, a produção científica é particularmente escassa, e residual no domínio da sociologia. A investigação existente advém sobretudo de áreas como a psicologia social e a gerontologia, cujos trabalhos se têm dedicado essencialmente à identificação e à compreensão dos impactos emocionais e psicológicos da viuvez. Além destas análises, pouco se sabe sobre o que significa ser viúva/o em Portugal. A ausência de conhecimento científico sobre a viuvez tem contribuído para a consolidação da ideia culturalmente enraizada e socialmente reproduzida de que a viuvez representa – sobretudo no caso das mulheres mais velhas – uma quebra no bem-estar, que leva necessariamente a condições de vulnerabilidade e privação. É uma visão redutora que persiste, baseada em representações sociais homogéneas do que é ser uma mulher viúva, do que é ser uma mulher velha, do que é ser uma mulher velha e viúva. No contexto geográfico mais alargado, o corpo dos estudos sobre a viuvez não está isento de limitações: dedica-se sobretudo aos primeiros tempos após a morte do cônjuge e aos efeitos imediatos da morte no processo de elaboração da perda. Ao articular a viuvez com outras experiências e contextos que atravessam as biografias das mulheres – aprofundando, simultaneamente, as particularidades dos seus contextos de existência e as da sociedade portuguesa –, esta análise procura ultrapassar as lacunas e as limitações acima referidas. Além disso, constitui-se como um contributo direto para que a perspetiva das mulheres viúvas seja adicionada, e especificamente através das suas palavras, ao repertório do conhecimento sobre a viuvez. A lente biográfica permite compreender como o contexto histórico, a organização social, a posição socioeconómica que as mulheres ocupam, as suas redes de relações sociais, familiares e de solidariedade, assim como os seus esquemas valorativos, moldam a forma como vivem e encaram a vida, não só após a morte dos maridos, ao longo dos seus percursos biográficos. Através da realização de entrevistas em profundidade com carácter de histórias de vida, foi possível reconstituir as trajetórias de vida de 33 mulheres viúvas e identificar, articulando diferentes temporalidades, as continuidades e as ruturas que marcam e/ou atravessam as suas experiências. As narrativas destas mulheres são o eixo analítico central da tese.A análise dos relatos permitiu constatar que a viuvez não é uma experiência homogénea, tão pouco definida pela solidão, infelicidade e privação, e as alterações que desencadeia não conduzem necessariamente a um declínio. Pelo contrário, na perceção das mulheres viúvas, a viuvez é predominantemente reconhecida e valorizada como uma experiência que melhorou as condições de vida e o modo de viver. As narrativas evidenciam como a viuvez é uma experiência de vida transformadora, composta simultaneamente pela continuidade e pela rutura biográfica. Nelas, o género e a idade emergem como condições fundamentais nos modos e nos sentidos em que as experiências de viuvez se transformam. Este estudo reitera a importância do reconhecimento da presença de desequilíbrios e desigualdades de género nos processos de reprodução social, de divisão sexual do trabalho, de distribuição do trabalho doméstico e do cuidado, revelando como essas dinâmicas marcam significativamente as trajetórias de vida das mulheres. Atesta a inadequação de leituras lineares para captar e retratar a experiência concreta das mulheres.

Document Type Doctoral thesis
Language Portuguese
Contributor(s) Estudo Geral; Correia, Sílvia Margarida Violante Portugal
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