Author(s): Esteves, Alexandra
Date: 2024
Origin: Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
The relationships between human beings and animals have varied over time, to which, among many other fators, the progress of humanity, scientific and technological development, cultural diversity and the way in which animals have been considered have contributed. In contemporary times, a more “humanist” conception of the animal has been consolidated, far from the Cartesian vision, according to which animals were nothing more than machines devoid of sentience. The growing concern for animal welfare, which can already be seen in 19th century societies and at the beginning of the 20th century, was reflected not only on a relational level, but also in the emergence of animal protection societies, in the reporting of violence and abuse committed against them and even in debates about the treatment due to them. However, the close relationship between humans and animals is not free from risks for both, particularly from a health point of view. Thus, zoonoses become the subject of discussion and the animal, as a potential transmitter of diseases, becomes a cause for concern. In this reflection, we essentially intend to address a zoonosis that became known as “parrot fever”, which shocked societies at the end of the 19th century and the beginning of the 20th century. The practice of domesticating parrots developed in contemporary times, especially after the French Revolution, which stimulated the trade in these birds, free from any inspection mechanisms, which was, in fact, at the origin of that epidemic. We will therefore contextualize and analyze the evolution of the domestication process of birds and other animals, referring, in particular, to the case of Portugal and the existing perceptions in Portuguese society about animals and their relationship with human beings. To this end, we used enacted legislation, the medical press and generalist periodicals, the newspaper of the Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa, O Zoophilo, as well as dissertations by Portuguese doctors.
Les relations entre les êtres humains et les animaux ont varié au fil du temps, auxquelles ont contribué, entre autres facteurs, le progrès de l’humanité, le développement scientifique et technologique, la diversité culturelle et la manière dont les animaux ont été considérés. À l’époque contemporaine, s’est consolidée une conception plus « humaniste » de l’animal, loin de la vision cartésienne selon laquelle les animaux n’étaient que des machines dénuées de sensibilité. Le souci croissant du bien-être animal, déjà visible dans les sociétés du XIXe et du début du XIXe siècle, s›est traduit non seulement sur le plan relationnel, mais aussi par l›émergence de sociétés de protection des animaux, par la dénonciation des violences et des abus commis à leur encontre et même dans les débats sur le traitement qui leur est dû. Cependant, la relation étroite entre l’homme et l’animal n’est pas exempte de risques pour l’un et l’autre, notamment d’un point de vue sanitaire. Ainsi, les zoonoses deviennent un sujet de discussion et l’animal, en tant que transmetteur potentiel de maladies, devient un sujet d’inquiétude. Dans cette réflexion, nous entendons essentiellement nous attaquer à une zoonose connue sous le nom de « fièvre du perroquet », qui a choqué les sociétés de la fin du XIXe siècle et du début du XXe siècle. La pratique de la domestication des perroquets s’est développée à l’époque contemporaine, notamment après la Révolution française, qui a stimulé le commerce de ces oiseaux, affranchi de tout mécanisme de contrôle, ce qui fut d’ailleurs à l’origine de cette épidémie. Nous contextualiserons et analyserons donc l’évolution du processus de domestication des oiseaux et d’autres animaux, en nous référant notamment au cas du Portugal et aux perceptions existantes dans la société portugaise sur les animaux et leur relation avec les êtres humains. Pour cela, nous avons utilisé la législation en vigueur, la presse médicale et les périodiques généralistes, le journal de la Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa, O Zoophilo, ainsi que les thèses de médecins portugais. Le concept One Health démontre la pertinence de la santé animale pour la santé et le bien-être humains. D’où la nécessité de réfléchir sur l’historicité de la relation entre les êtres humains et les animaux, qui s’est intensifiée à l’époque contemporaine, en tenant compte de ses implications.
As relações entre os seres humanos e os animais têm variado ao longo do tempo, para o que têm contribuído, entre muitos outros fatores, o progresso da humanidade, o desenvolvimento científico e tecnológico, a diversidade cultural e a forma como o animal tem sido considerado. Na contemporaneidade, consolidou-se uma conceção mais “humanista” do animal, afastada da visão cartesiana, segundo a qual os animais não passavam de máquinas desprovidas de senciência. A crescente preocupação com o bem-estar animal, que se já se observa nas sociedades oitocentistas e primonovecentistas, refletiu-se não só no plano relacional, mas também no surgimento das sociedades protetoras dos animais, na denúncia de violências e abusos sobre eles cometidos e até em debates sobre o tratamento que lhes é devido. Todavia, a relação de proximidade entre o ser humano e o animal não está isenta de riscos para ambos, designadamente sob o ponto de vista sanitário. Assim, as zoonoses passam a ser objeto de discussão e o animal, por ser um potencial transmissor de doenças, torna-se motivo de preocupação. Nesta reflexão pretendemos, essencialmente, abordar uma zoonose que ficou conhecida como “a febre dos papagaios”, que colocou em sobressalto as sociedades dos finais do século XIX e dos inícios do século XX. A prática de domesticar papagaios desenvolveu-se na contemporaneidade, sobretudo depois da Revolução Francesa, o que estimulou o comércio dessas aves, livre de quaisquer mecanismos de fiscalização, que terá estado, aliás, na origem daquela epidemia. Faremos, assim, a contextualização e a análise da evolução do processo de domesticação das aves e de outros animais, aludindo, em particular, ao caso de Portugal e às perceções existentes na sociedade portuguesa sobre os animais e a sua relação com os seres humanos. Para o efeito, recorremos à legislação pro-mulgada, à imprensa médica e aos periódicos generalistas, ao jornal da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa, O Zoophilo, bem como a dissertações de médicos portugueses. O conceito de Uma só saúde demonstra a relevância da saúde animal para a saúde e o bem-estar humanos. Daí a necessidade de refletir sobre a historicidade da relação entre seres humanos e animais, que se intensificou na contemporaneidade, tendo em consideração as suas implicações.