Author(s): Andrade, Marcos de Freitas Silva ; Freitas, Ana Paula
Date: 2026
Origin: Vista Revista de Cultura Visual
Subject(s): Varia
Author(s): Andrade, Marcos de Freitas Silva ; Freitas, Ana Paula
Date: 2026
Origin: Vista Revista de Cultura Visual
Subject(s): Varia
O presente trabalho conduz um debate acerca de como as linguagens visuais e as práticas de projeto se configuram como ferramentas de resistência epistémica frente à hegemonia eurocêntrica, propondo uma ruptura com o pensamento continental e linear da modernidade. Adotando o pensamento em arquipélagos, oriundo das filosofias afrodiaspóricas, o estudo defende a multiplicidade, a subjetividade e o pluriverso como alternativas críticas fundamentais. A fundamentação teórica ancora-se no debate sobre as três dimensões da colonialidade (do poder, do saber e do ser), mobilizando o pensamento de intelectuais do Sul Global, como Aníbal Quijano, Bispo dos Santos e Ailton Krenak, para legitimar os conceitos de “decolonialidade” e “contracolonialidade”. A partir desta perspetiva, a interculturalidade e a confluência surgem como autênticas formas de resistência ontológica que resgatam saberes subalternizados e restabelecem uma relação ecológica e integrada com a natureza. No âmbito da cultura visual, opera-se uma reconstituição da aesthesis, mediada pela microestética de Katya Mandoki e pela conversão semiótica de Paes Loureiro, demonstrando que a expressão estética emana diretamente de vivências cotidianas e de mitopoéticas que atravessam o próprio território. Sob esta premissa, empreende-se uma análise iconográfica das produções de três artistas contemporâneos: Harmonia Rosales, que subverte o cânone renascentista ao centralizar divindades negras; Mael Anhangá, que ilustra a simbiose mística entre o ser caboclo e a bacia amazónica; e Daiara Tukano, que recorre a grafismos e cosmologias ancestrais para afirmar a soberania da Terra. Conclui-se que estas manifestações visuais convergem para o chamado “design das bordas” e para as visualidades multilaterais. Ao rejeitar a pretensa neutralidade e a universalidade dos padrões industriais modernos, o artigo redefine o papel do designer como um nômade epistémico, capaz de transitar por fronteiras interdisciplinares e geográficas para converter a iconografia em símbolos políticos de reexistência, abrindo caminhos inéditos de legitimação para o saber/ser/fazer de comunidades originárias e afrodiaspóricas.
This article explores how visual languages and design practices serve as tools of epistemic resistance to Eurocentric hegemony, proposing a rupture with the continental and linear thinking of modernity. Drawing upon archipelagic thinking, rooted in Afro-diasporic philosophies, the study advocates multiplicity, subjectivity, and the pluriverse as fundamental critical alternatives. The theoretical framework is grounded in the debate over the three dimensions of coloniality — power, knowledge, and being — and draws on the work of Global South intellectuals such as Aníbal Quijano, Bispo dos Santos, and Ailton Krenak to substantiate the concepts of “decoloniality” and “counter-coloniality”. From this perspective, interculturality and confluence emerge as genuine forms of ontological resistance that recover subalternised knowledges and re-establish an integrated ecological relationship with nature. Within the field of visual culture, the article reconstructs aesthesis, mediated through Katya Mandoki’s micro-aesthetics and Paes Loureiro’s semiotic conversion, demonstrating that aesthetic expression arises directly from everyday lived experience and from mythopoetics embedded within the territory itself. On this basis, the article undertakes an iconographic analysis of the work of three contemporary artists: Harmonia Rosales, who subverts the Renaissance canon by placing Black deities at its centre; Mael Anhangá, who depicts the mystical symbiosis between the caboclo identity and the Amazon basin; and Daiara Tukano, who draws upon ancestral graphic traditions and cosmologies to affirm the sovereignty of the Earth. It is concluded that these visual manifestations converge towards the so-called “design of the margins” and towards multilateral visualities. By rejecting the purported neutrality and universality of modern industrial standards, the article redefines the role of the designer as an epistemic nomad, capable of traversing interdisciplinary and geographical boundaries to transform iconography into political symbols of re-existence, thereby opening unprecedented pathways for legitimising the knowing/being/doing of Indigenous and Afro-diasporic communities.