Autor(es):
Soares, Lizandra Maria de Aguiar Zanon ; Bastos Borges, Júlia ; Iwama, Allan Yu ; de Almeida Gallo, Edmundo ; Araújo de Paula, Luciana ; Morgado, Fernando ; Pereira Alves, Maria de Fátima ; Guedes Vidal, Diogo ; Tomás Rosa, Maria do Rosário ; dos Santos, Claudia Regina ; Luza Eyzaguirre, Indira Angela ; de Sousa, Esley Lima ; Ramos Filho, Eraldo da Silva ; Souza Santos, Iedo ; Teixeira, Simonne ; de Freitas, Rodrigo Rodrigues
Data: 2026
Origem: Revista Captar: Ciência e Ambiente para Todos
Assunto(s): Governança territorializada; Justiça epistêmica; Territórios costeiros e marinhos; Povos e comunidades tradicionais; Diálogo de saberes; Ciência cidadã; Sociobiodiversity; Governance; Citizen Science; Coastal and Marine Management
Descrição
The article presents the Marangatu Network as an innovative experience in coastal and marine governance, anchored in epistemic justice, data sovereignty, and popular education. Emerging from the collaboration between Traditional Peoples and Communities (TPCs), academic institutions, and civil organizations, the Network promotes critical action-research in territories across the North, Northeast, Southeast, and South of Brazil, as well as international partnerships. Its methodology combines social mapping, workshops, exchanges, and the use of digital tools (iNaturalist, KoBoToolbox) to strengthen community autonomy and integrate scientific, popular, and ancestral knowledge. Among the main outcomes is the creation of Coastal and Marine Management Polygons, biocultural territories that reshape environmental governance by recognizing traditional ways of life as legitimate references. Inspired by international experiences and aligned with OECMs (Other Effective Area-Based Conservation Measures), these polygons bring together multiple communities and institutions in polycentric decision-making arrangements. The Marangatu Network also works on critical education, political advocacy, and public policy development, proposing a participatory and intercultural model of conservation. The motto “nothing about us, without us” guides the co-production of knowledge and the territorialization of policies, strengthening socio-environmental justice and the defense of TPCs’ rights.
Neste artigo é apresentada uma iniciativa colaborativa voltada à construção de modelos de governança socioambiental mais justos e participativos em territórios costeiros e marinhos do Brasil. A proposta centra-se na Rede Marangatu, uma rede internacional de ciência cidadã que articula instituições acadêmicas, organizações sociais e Povos e Comunidades Tradicionais para promover a conservação da sociobiodiversidade e o reconhecimento dos saberes locais. O estudo parte do pressuposto de que os territórios costeiros são espaços complexos, marcados por conflitos socioambientais, pressões econômicas e desigualdades no reconhecimento de diferentes formas de conhecimento. Nesse contexto, a noção de justiça epistêmica torna-se central, pois busca corrigir a marginalização histórica dos conhecimentos tradicionais e comunitários nos processos de produção científica e nas políticas públicas. O trabalho defende que o conhecimento produzido por pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas e outras populações tradicionais deve ser reconhecido como legítimo e fundamental para a gestão sustentável dos ecossistemas marinho-costeiros. A Rede Marangatu surge como uma resposta a esses desafios ao promover um modelo de governança territorializada, baseado no diálogo entre saber científico e saber tradicional. A iniciativa reúne universidades, centros de pesquisa e movimentos sociais em diferentes regiões do Brasil e também em parceria internacional, com o objetivo de desenvolver pesquisas participativas, fortalecer redes comunitárias e influenciar políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade e à proteção dos territórios tradicionais. Entre as principais estratégias da rede destacam-se a i) Ciência cidadã e monitoramento participativo da biodiversidade, envolvendo moradores locais na coleta e interpretação de dados ambientais; ii) Cartografias sociais e mapeamentos participativos, que registram territórios, modos de vida e áreas de uso tradicional; iii) Diálogo de saberes, integrando conhecimentos acadêmicos, indígenas e comunitários; iv) Construção de políticas públicas territorializadas, adaptadas às realidades locais. Um dos conceitos inovadores apresentados é o de polígonos de gestão costeira e marinha, espaços de governança coletiva onde comunidades tradicionais assumem papel central na tomada de decisões sobre uso e conservação dos recursos naturais. Essa abordagem busca inverter a lógica tradicional de gestão ambiental, frequentemente centralizada no Estado, e reconhecer o protagonismo das comunidades que historicamente cuidam desses territórios. O trabalho também destaca que a valorização dos saberes tradicionais contribui não apenas para a conservação ambiental, mas também para a segurança alimentar, a saúde comunitária e a justiça socioambiental, fortalecendo a autonomia e a permanência das populações em seus territórios. Nesse sentido, a Rede Marangatu funciona como um espaço de articulação política, produção de conhecimento e inovação social. O estudo argumenta que a governança de territórios costeiros e marinhos deve ser construída de forma intercultural, participativa e territorialmente situada, reconhecendo a diversidade de conhecimentos e experiências. A Rede Marangatu demonstra constituir um modelo para a integração entre ciência, movimentos sociais e comunidades tradicionais pode gerar novas formas de gestão ambiental, promovendo justiça epistêmica, proteção da sociobiodiversidade e sustentabilidade dos territórios costeiros.