Author(s):
Carrilho, Daniel Filipe de Jesus
Date: 2025
Persistent ID: http://hdl.handle.net/10400.5/118578
Origin: Repositório da Universidade de Lisboa
Subject(s): Team behaviour; Performance analysis; Shared affordances; Coordinated effectivities; Ecological dynamics; Análise do desempenho; Comportamento coletivo; Affordances partilhadas; Efetividades coordenadas; Dinâmica ecológica
Description
O objetivo desta tese foi estudar o comportamento sinérgico das equipas no futebol. A partir da perspetiva da dinâmica ecológica, este trabalho oferece uma análise abrangente do comportamento coletivo, incorporado, situado e orientado para a concretização de objetivos. O ambiente do jogo é estruturado e é diretamente percetível pelos jogadores. Assim, a perceção partilhada e a ação coordenada estão fortemente acopladas, sendo a cognição coletiva uma propriedade emergente do sistema equipa-ambiente, e não um processo mental interno separado. A análise deste sistema foi operacionalizada através de variáveis eco-físicas, que captam a forma como os jogadores regulam as suas ações em função de elementos-chave do ambiente competitivo – como a bola, os adversários e a baliza – que especificam os objetivos de cada tarefa. O Capítulo dois (2) explorou propriedades identificáveis das sinergias de equipa e mediu- as através de ângulos jogador-bola-baliza, submetidos a uma análise de fase em cluster (cluster phase analysis), utilizando dados espácio-temporais. Os resultados mostraram que, através de um modelo de sincronização da equipa, foi possível captar as propriedades das sinergias de equipa e relacioná-las com objetivos do jogo. Os resultados mostraram que a sincronização da equipa é sensível a variações contextuais, demonstrando o carácter adaptativo das sinergias. Especificamente, a sincronização foi significativamente mais elevada para a equipa da casa (χ²(41) = 259.8, p < 0.001), com valores ainda mais altos (χ²(41) = 12227.0, p < 0.001) em momentos sem posse de bola. Por outro lado, quando a equipa atacante transportava a bola para zonas centrais próximas da baliza adversária, os níveis de sincronização defensiva diminuíam. Estes resultados sublinham a importância de captar o carácter orientado para o objetivo e adaptativo das sinergias, posicionando o sistema equipa-ambiente como a unidade de análise relevante durante os capítulos que se seguiram. Após a medição das propriedades sinérgicas coletivas, foi necessário aprofundar o estudo de forma a entender como a coordenação ao nível dos jogadores sustenta a funcionalidade da equipa. Com base na relação entre possibilidades de ação (affordances) e efetividades (effectivities), os dois capítulos seguintes centraram-se em analisar a forma como os viii jogadores ajustam as suas ações em coordenação com os colegas de equipa, para alcançar objetivos comuns. O Capítulo três (3) analisou a antecipação como uma habilidade incorporada e orientada para os objetivos da tarefa, utilizando correlação cruzada para medir como os defesas se coordenavam com a bola para assumir e alternar entre papéis de bloqueio. Os resultados revelaram que os defesas se moviam em coordenação antecipatória com a bola, com tempos médios de defasagem negativos de -1.02 segundos e fortes acoplamentos com a bola. Uma análise de regressão mostrou uma associação elevada (R² = .74) entre estas trocas de papéis de bloqueio e a estabilidade da coerência da equipa. Estes dados sustentam a ideia de que a sinergia da equipa, evidenciando em particular o papel da degenerescência (degeneracy), é mantida através da coordenação prospetiva com a informação ecológica do jogo – agir sobre affordances é agir sobre o futuro. O Capítulo quatro (4) centrou-se na fase ofensiva do jogo, investigando como os atacantes regulavam a intensidade e a variabilidade do movimento para agir sobre diferentes affordances do jogo. Foi encontrada uma relação inversa entre velocidade e variabilidade direcional, sendo que affordances de “Suporte” apresentaram maior variabilidade direcional (U = 118075.00, p = .015) e affordances de “Ataque” apresentaram velocidades mais elevadas (U = 163936.00, p < .001). Além disso, a capacidade dos jogadores para transitar entre affordances associou-se positivamente à capacidade de circulação de bola da equipa, explicando 37% da variância no número total de passes (F(1, 47) = 28.86, p < .001) e 48% do tempo de posse de bola em cada sequência de ataque (F(1, 47) = 42.64, p < .001). Estes resultados reforçam o papel da variabilidade funcional na regulação do movimento baseada em affordances, alertando contra prescrições generalizadas de níveis de intensidade. Guiado pela teoria da dinâmica ecológica da ação cognoscente e sustentado pelos dados empíricos dos capítulos anteriores, o Capítulo cinco (5) desta tese propôs uma reconceptualização da cognição coletiva como ação cognoscente coletiva – o acoplamento inseparável entre cognição e ação, do qual emergem as sinergias de equipa. Este capítulo defende que, através de um acoplamento direto entre perceção partilhada e ação coordenada, os jogadores detetam affordances partilhadas no ambiente do jogo, às quais ajustam as suas efetividades para atingir objetivos da equipa. Este enquadramento desafia a separação tradicional entre cognição e ação, propondo que o comportamento da equipa seja compreendido ao nível do sistema equipa-ambiente. Este capítulo também destaca as implicações desta reconceptualização para o desenho de tarefas de treino, ix defendendo a criação de contextos que promovam a afinação percetiva partilhada e a calibração coordenada do movimento, de modo a potenciar o comportamento sinérgico da equipa. No seu conjunto, estes quatro capítulos sustentam uma compreensão ecológica do comportamento coletivo, baseada no acoplamento entre as equipas e o ambiente competitivo. Esta conceptualização oferece um enquadramento teórico robusto para uma análise mais abrangente do desempenho coletivo, rejeitando métricas isoladas e propondo, em alternativa, o uso de variáveis eco-físicas que captam a variabilidade funcional e a adaptação coordenada. .
The aim of this thesis was to study team synergic behaviour in football. Guided by an ecological dynamics framework, the present work provides a comprehensive analysis of embedded, embodied and goal-directed team behaviour. The football match environment is lawfully structured and directly perceivable by players. Accordingly, shared perception and coordinated action are tightly coupled, which makes team cognition not a separate internal process but an emergent property of the team-environment system. The analysis of this system was operationalized through eco-physical variables, which capture how players regulate their actions in relation to key elements of the match environment – such as the ball, opponents and the goal – that specify the goals of a particular task. Chapter two (2) explored identifiable properties of team synergies and measured them through player-ball-goal angles that were submitted to cluster phase analysis. Results showed that through a team synchronization model, the properties of team synergies could be captured and linked to task goals. Team synchronization levels were sensitive to contextual variations, which demonstrated the adaptive nature of synergies. Specifically, synchronization was significantly higher for the home team (χ²(41) = 259.8, p < 0.001) with levels increasing (χ²(41) = 12227.0, p < 0.001) when teams were out of possession. Furthermore, when the attacking team moved the ball to central locations closer to the opposition’s goal, defensive synchronization levels dropped. These results highlighted the importance of capturing the goal-directed and adaptable nature of team synergies through eco-physical variables, establishing the team-environment system as the relevant unit of analysis in further studies. Following the measurement of team synergic properties, a deeper dive in the study of team behaviour was required to understand how player coordination supported team functionality. Based on the study of the relationship between affordances and effectivities, the next two chapters focused on how players adjusted their actions in coordination with their teammates to achieve shared goals. Chapter three (3) examined anticipation as an embodied, action-based skill, using cross-correlation analysis to measure how defenders coordinated with the ball to undertake and interchange blocking roles, so the team could maintain its coherence. Results showed that defenders moved in anticipatory coordination with the ball, showing negative median lag times of -1.02 seconds associated with strong couplings. A regression analysis revealed a high association (R² = .74) between these anticipatory role interchanges and team coherence stability. This supports the idea that a team synergy, particularly evidencing the role of team degeneracy, is maintained through prospective coordination with evolving ecological information presented by the match environment – acting on affordances is acting on the future. Chapter four (4) shifted the focus to the attacking phase of the match to investigate how players regulated their movement intensity and variability to act on different match affordances. An inverse relationship was found between speed (intensity) and directional variability, with Supporting affordances showing higher direction variability (U = 118075.00, p = .015) and Attacking affordances showing higher speed (U = 163936.00, p < .001). Furthermore, the players’ ability to transition between match affordances was positively associated with the team’s ball circulation ability, with affordance transitions explaining 37% of the variance in total passes (F(1, 47) = 28.86, p < .001) and 48% in possession length (F(1, 47) = 42.64, p < .001). These findings underscore the role of functional variability in the players’ affordance-based regulation of their effectivities and caution against generalized prescriptions of intensity targets. Guided by the ecological dynamics theory of cognizant action and supported on the empirical findings of previous chapters, Chapter five (5) proposed a reconceptualization of team cognition as team cognizant action – the inseparable coupling of cognition and action from which team synergies are expressed. This chapter argued that through a direct coupling between shared perception and coordinated action, teammates detect shared affordances in the match environment, to which they coordinate their effectivities to achieve team goals. This framework challenges the separation between cognition and action, proposing instead that team behaviour is best understood at the level of the team-environment system. This chapter ended by providing important implications for practice design, advocating for environments that promote shared perceptual attunement and coordinated movement calibration to enhance team synergic behaviour. Taken together, these four studies support an ecological understanding of team behaviour predicated on the inseparability between teams and the match environment. This conceptualization provides theoretical guidance for a more comprehensive analysis of team performance, rejecting isolated metrics and instead adoption eco-physical variables that capture functional variability and coordinated adaptation.