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À procura de Orlando di Lasso

Autor(es): Negreiros, Vasco

Data: 2022

Identificador Persistente: http://hdl.handle.net/10773/36043

Origem: RIA - Repositório Institucional da Universidade de Aveiro

Assunto(s): Orlando di Lasso; Música vocal de conjunto; Polifonia; Renascença


Descrição

Muito tem sido experimentado nas últimas décadas no sentido de redescobrir práticas interpretativas históricas da música sacra da Renascença voltada para o uso litúrgico. A conferência aqui proposta põe antes o foco em música religiosa composta para devoção privada em espaço palaciano, para a qual se cunhou a expressão musica reservata, precisamente no âmbito da actividade do compositor sobre o qual debruçamos aqui a nossa atenção: Orlando di Lasso. Sabemos que Orlando di Lasso não só foi um homme de lettres cultíssimo em diversas línguas, como conhecia grande êxito nas suas excelentes prestações enquanto actor das commedie dell’arte que preenchiam infindáveis noites de inverno, no palácio de Alberto V da Baviera. Também as cartas do compositor denunciam um rigor e uma acribia linguística tal, que não espanta que se tenha tornado um ícone fundamental dos estudos de Retórica Musical, relacionando texto e música, que começaram a despontar pouco após a sua morte, em 1594, até para Joachim Burmeister, um dos pioneiros desta ciência, que, apesar de ser um Kantor luterano, precursor de J. S. Bach na Thomaskirche de Leipzig, usa a música de Orlando di Lasso como principal fonte de ilustração das suas Figurae. Nas suas peças compostas para um exclusivo e pequeno grupo de executantes e ouvintes (musica reservata), a palavra habita o centro e é a raiz de toda e qualquer invenção musical, num arrojo bastante mais forte do que nas que se destinam às grandes celebrações públicas. Como dar ao intérprete moderno a oportunidade de viver tão intensamente o texto poético enquanto canta, como imaginamos que o compositor o viveria, sabendo nós que era um excelente Tenor e que, na verdade, esteve sempre contratado na condição de intérprete? Nesta conferência apresentam-se várias abordagens que visam cumprir este objectivo, partindo da observação da prática musical e notacional do século XVI, cruzada porém com as nossas actuais necessidades, dando ao intérprete meios de exercitar a sua sensibilidade, assim como instrumentos de unidade para a interpretação final, tanto em trechos homorítmicos, como em situações de densa polifonia. Para que esta experiência seja real, sem ficar em especulações, mostra-se, no tocante à interpretação de três grandes ciclos deste compositor (Sacrae Lectiones ex propheta Iob, Prophetiae Sibyllarum e Lagrime di San Pietro), que diferentes estratégias foram adoptadas, precisamente no sentido de aproximar o executante moderno da sensação que o compositor terá tido ao ler estes textos, antes mesmo de assentar a primeira nota da obra. Nesta conferência, estas abordagens são ilustradas tanto através da exposição dos materiais que para tal foram criados, como da audição do resultado final que derivou das atividades que giraram em torno deles. Trata-se de uma tentativa de retorno à origem vital da composição, à sua força centrípeta e à sua razão de ser no mundo, compreendendo que a música vocal desta época, principalmente na obra de Orlando di Lasso, não é em si um fim, mas sim, um meio privilegiado de expressão e intensificação da palavra.

Tipo de Documento Objeto de conferência
Idioma Português
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