Neste ensaio, interpreto o percurso artístico de Sarah Affonso à luz do seu contexto sociopolítico com o fim de entender melhor a sua opção de deixar a pintura em fins da década de 1930. As diferentes fases da sua carreira mudam conforme as várias fases da cultura política do seu país e estas fases talvez sejam ainda mais evidentes na obra de Sarah Affonso pelo facto de ser uma mulher artista. A actividade públ...
Repare bem (Maria de Medeiros, 2013) e Luz obscura (Susana de Sousa Dias, 2017) são ilustrativos da abordagem de realizadoras de documentários a questões de memória em regimes autoritários, no Brasil e em Portugal. Ao contrapor memórias afetivas aos registos oficiais do Estado, enquadrando numa ‘narrativa de família’ fotos de cadastro e fotos na prisão de membros de um núcleo familiar registadas pelo aparelho r...
Partindo da provocadora tela de Paula Rego, “Salazar a Vomitar a Pátria”, este ensaio discute algumas representações fílmicas da mulher portuguesa do Estado Novo, a partir de uma seleção de filmes de realizadoras portuguesas contemporâneas que lançam mão de memórias públicas e privadas e de diferentes materiais de arquivo para questionar a representação pública da ditadura. A partir de uma perspetiva feminina e...
Este artigo tem como objetivo oferecer uma perspetiva geral sobre a presença (ou melhor, a ausência) de cineastas mulheres durante o período do Estado Novo. Se, por um lado, a situação das cineastas portuguesas deve ser enquadrada no contexto da ideologia do regime em relação às mulheres (Cova &Pinto 2002), por outro, não podemos ignorar o contexto mais amplo da presença/ ausência de mulheres cineastas no c...
Este ensaio é composto por duas secções que dialogam entre si e se iluminam reciprocamente. Discute-se em primeiro lugar a imagem icónica de Salazar enquanto ‘salvador moral da pátria’, incarnando a figura do ‘Desejado’, tal como construída e amplamente disseminada pela ideologia do Estado Novo, tendo António Ferro como seu principal mentor e ideólogo cultural. Discute-se de seguida o modo como o ‘discurso da d...
Helena Almeida (1934–2018) é uma das mais interessantes e relevantes artistas no contexto da arte portuguesa contemporânea, tendo produzido uma obra de grande integridade e consistência, em que o corpo da artista e os processos de autorrepresentação(sempre em relação ambivalente, subversiva e transgressora com essa mesma tradição artística) ocuparam um lugar central. Tomando como ponto de partida para este arti...
Este ensaio centra-se em Letícia Parente (1930–1991), videoartista e cientista brasileira, cujos trabalhos associam imagens e espaços domésticos, bem como tarefas e objetos quotidianos, a violência, repressão e encarceramento. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, Parente criou uma série de performances em vídeo, uma abordagem à performance arte na qual se apresentou perante uma câmara de filmar e não perante um...
Em contextos de ditadura e repressão, o movimento adquire enorme potencial em termos da sua capacidade de disrupção e de resistência (estética). Através do exílio, da migração, da viagem ou da correspondência, corpos, ideias e objectos são permanentemente deslocados, numa procura incessante de linhas de fuga impossíveis de fixar por qualquer regime político. No campo das artes visuais, a natureza elusiva e mutá...
Nos anos 50, em Lisboa, vários estudantes provenientes de diferentes colónias portuguesas em África encontraram-se na CEI –Casa dos Estudantes do Império, um centro cultural e de lazer para universitários e intelectuais vindos de África ou da Ásia. Sublinharia nomes como Amílcar Cabral (1924–1973), Mário Pinto de Andrade (1928–1990) e Agostinho Neto (1922–1979), famosos ativistas que, naquela altura, investiram...
Este ensaio, de raiz hermenêutica e de contornos monográficos, incide sobre a figura literária de Maria Cecília Correia (1919–1993). Trata-se, com efeito, de uma das autoras –a par, por exemplo, de Lília da Fonseca, Maria Lamas ou Maria Lúcia Namorado –que, apesar da sua discrição vivencial/literária, deve ser entendida como um dos ‘pontos nodais’ figurativos da História da literatura portuguesa para a infância...