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Avaliação do Efeito da Reabilitação de Rios Urbanos na Biodiversidade e Condição Ecológica: O caso do Rio Fervença (Bragança, NE Portugal)

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Resumo:Diferentes atividades antrópicas estão na origem da degradação de ecossistemas terrestres e em particular de água doce, entre os mais ameaçados, à escala mundial. Com efeito, a fragmentação de habitats aquáticos e ribeirinhos, a poluição da água, a introdução de espécies invasoras, a sobre-exploração de recursos e as alterações climáticas têm contribuído para uma contínua perda de biodiversidade e integridade ecológica. Nos rios urbanos a influência humana ainda é mais expressiva, tendo justificado a implementação de muitos projetos de reabilitação fluvial, maioritariamente orientados para a regulação e controlo de cheias e embelezamento de áreas marginais, sem preocupação de garantir a biodiversidade e serviços de ecossistema associados. Neste enquadramento, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da reabilitação na biodiversidade e qualidade ecológica do rio Fervença, em particular no setor urbano - zona POLIS da cidade de Bragança (NE Portugal). Assim, no ano de 2024, foram amostrados, com periodicidade sazonal (inverno, primavera e verão), 14 locais de amostragem distribuídos pelos rios Fervença e Sabor (locais de referência). Foram aplicadas as metodologias definidas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no âmbito da Diretiva Quadro da Água (DQA), para avaliação dos elementos 1) físico-químicos da água e 2) hidromorfológicos, de suporte aos elementos 3) biológicos, caso das comunidades de macroinvertebrados e peixes. Consideraram-se 6 setores correspondentes às seguintes tipologias: 1) RM - Referência montante (S1 e S2); 2) MR- Montante rural (F1, F2); MU - Montante urbano (F3, F4); 4) RP - Reabilitado POLIS (F5 a F8); JU - Jusante urbano (F9, F10); e RJ - Referência jusante (S3 e S4). Os resultados obtidos para a qualidade da água, baseados em análises de redundâncias (dbRDA, 71% da variância explicada) e testes univariados (testes H Kruskall-Wallis, P<0,05), evidenciaram diferenças significativas, nomeadamente entre os setores urbanos (RP e JU) e de referência (RM), para as variáveis físico-químicos da condutividade, total de sólidos dissolvidos, fosfatos, cloretos e acidez total. No que respeita aos habitats aquáticos e ribeirinhos, os índices de modificação (HMS) e qualidade (HQA) do habitat (River Habitat Survey, RHS) foram suficientemente sensíveis para detetar a degradação aquática e ribeirinha nos setores urbanos, com especial destaque para a zona reabilitada POLIS. Relativamente às respostas bióticas foram também encontradas diferenças significativas (testes PERMANOVA 2-way, P<0,05), nomeadamente entre os setores e as estações do ano para as comunidades de invertebrados e apenas entre setores para as comunidades de peixes. Nas comunidades de invertebrados, a análise multivariada (ordenação nMDS, testes ANOSIM e SIMPER) permitiu identificar famílias e diferenciar comunidades euribiontes, típicas de zonas perturbadas (RP e RJ), das comunidades estenobiontes, presentes nas zonas de referência. Com efeito, apesar de superior abundância de organismos, a diversidade (H’) e equitabilidade (J’) foi inferior nas zonas perturbadas, concentrada no domínio avassalador de Crustacea (Asellidae) e ainda de Gastropoda (Physidae, Lymnaeidae), Hirudinea (Erpodbdellidae, Glossiphoniidae), Oligochaeta e Diptera (Chiroinomidae, Simuliidae). Registo ainda para a presença assinalável de espécies invasoras, como o lagostim-sinal (Pacifastacus leniusculus). Por sua vez, sobressaem nas comunidades dos locais de referência táxones pertencentes aos Ephemeroptera (Ephemerellidae, Siphlonuridae), Plecoptera (Leuctridae, Perlidae) e Trichoptera (Sericostomatidae, Calamoceratidae), indicadores da saúde do ecossistema fluvial. No caso da comunidade piscícola, os resultados obtidos evidenciaram, à semelhança das comunidades de invertebrados, uma separação evidente entre comunidades de setores de referência relativamente a setores urbanos. Registo para o crescente domínio de espécies exóticas, caso góbio (Gobio lozanoi), gambúsia (Gambusia holbrooki) e perca-sol (Lepomis gibbosus) nos locais mais antropizados (RP e JU), particularmente sob efeito da poluição e regularização (e.g., açudes), em detrimento das espécies reófilas nativas, caso da truta-de-rio (Salmo trutta), boga-do-norte (Pseudochondrostoma duriense), em maior abundância em locais de boa integridade ecológica (RM, RJ). Ficou ainda evidente que o verão parece ser a estação do ano mais crítica para as comunidades de invertebrados e menos para os peixes, provavelmente pelas condições ambientais mais adversas, potenciadas pelos caudais inferiores detetados ultimamente em função das alterações climáticas patentes. Os resultados baseados nos dados atuais e respetiva comparação com a situação de pré-reabilitação, evidenciaram a inexistência de ganhos em termos de biodiversidade e estado ecológico do rio Fervença, nomeadamente no setor urbano - zona POLIS, 20 anos após a execução das obras de reabilitação na cidade de Bragança. Neste sentido, configura-se a necessidade de aplicar medidas/ações de melhoria do ambiente aquático e ribeirinho, no sentido de recuperar serviços de ecossistema associados à valorização da componente ecológica. Entre as ações sugerem-se a mitigação/minimização e/ou eliminação de impactes negativos (e.g., inputs localizados de poluição), o recurso a soluções baseadas na natureza (e.g., técnicas de engenharia natural nos habitats degradados), a gestão eficiente da água (e.g., reuso de água da ETAR), a gestão adaptativa às alterações climáticas (e.g., reforço de galerias ripícolas), com o intuito de promover a recuperação e conservação do rio Fervença num quadro de sustentabilidade ecológica.
Autores principais:Ferreira, Nathália Borges Bartoli
Assunto:Rios urbanos Macroinvertebrados Peixes Integridade ecológica Reabilitação ambiental
Ano:2025
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Instituto Politécnico de Bragança
Idioma:português
Origem:Biblioteca Digital do IPB
Descrição
Resumo:Diferentes atividades antrópicas estão na origem da degradação de ecossistemas terrestres e em particular de água doce, entre os mais ameaçados, à escala mundial. Com efeito, a fragmentação de habitats aquáticos e ribeirinhos, a poluição da água, a introdução de espécies invasoras, a sobre-exploração de recursos e as alterações climáticas têm contribuído para uma contínua perda de biodiversidade e integridade ecológica. Nos rios urbanos a influência humana ainda é mais expressiva, tendo justificado a implementação de muitos projetos de reabilitação fluvial, maioritariamente orientados para a regulação e controlo de cheias e embelezamento de áreas marginais, sem preocupação de garantir a biodiversidade e serviços de ecossistema associados. Neste enquadramento, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da reabilitação na biodiversidade e qualidade ecológica do rio Fervença, em particular no setor urbano - zona POLIS da cidade de Bragança (NE Portugal). Assim, no ano de 2024, foram amostrados, com periodicidade sazonal (inverno, primavera e verão), 14 locais de amostragem distribuídos pelos rios Fervença e Sabor (locais de referência). Foram aplicadas as metodologias definidas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no âmbito da Diretiva Quadro da Água (DQA), para avaliação dos elementos 1) físico-químicos da água e 2) hidromorfológicos, de suporte aos elementos 3) biológicos, caso das comunidades de macroinvertebrados e peixes. Consideraram-se 6 setores correspondentes às seguintes tipologias: 1) RM - Referência montante (S1 e S2); 2) MR- Montante rural (F1, F2); MU - Montante urbano (F3, F4); 4) RP - Reabilitado POLIS (F5 a F8); JU - Jusante urbano (F9, F10); e RJ - Referência jusante (S3 e S4). Os resultados obtidos para a qualidade da água, baseados em análises de redundâncias (dbRDA, 71% da variância explicada) e testes univariados (testes H Kruskall-Wallis, P<0,05), evidenciaram diferenças significativas, nomeadamente entre os setores urbanos (RP e JU) e de referência (RM), para as variáveis físico-químicos da condutividade, total de sólidos dissolvidos, fosfatos, cloretos e acidez total. No que respeita aos habitats aquáticos e ribeirinhos, os índices de modificação (HMS) e qualidade (HQA) do habitat (River Habitat Survey, RHS) foram suficientemente sensíveis para detetar a degradação aquática e ribeirinha nos setores urbanos, com especial destaque para a zona reabilitada POLIS. Relativamente às respostas bióticas foram também encontradas diferenças significativas (testes PERMANOVA 2-way, P<0,05), nomeadamente entre os setores e as estações do ano para as comunidades de invertebrados e apenas entre setores para as comunidades de peixes. Nas comunidades de invertebrados, a análise multivariada (ordenação nMDS, testes ANOSIM e SIMPER) permitiu identificar famílias e diferenciar comunidades euribiontes, típicas de zonas perturbadas (RP e RJ), das comunidades estenobiontes, presentes nas zonas de referência. Com efeito, apesar de superior abundância de organismos, a diversidade (H’) e equitabilidade (J’) foi inferior nas zonas perturbadas, concentrada no domínio avassalador de Crustacea (Asellidae) e ainda de Gastropoda (Physidae, Lymnaeidae), Hirudinea (Erpodbdellidae, Glossiphoniidae), Oligochaeta e Diptera (Chiroinomidae, Simuliidae). Registo ainda para a presença assinalável de espécies invasoras, como o lagostim-sinal (Pacifastacus leniusculus). Por sua vez, sobressaem nas comunidades dos locais de referência táxones pertencentes aos Ephemeroptera (Ephemerellidae, Siphlonuridae), Plecoptera (Leuctridae, Perlidae) e Trichoptera (Sericostomatidae, Calamoceratidae), indicadores da saúde do ecossistema fluvial. No caso da comunidade piscícola, os resultados obtidos evidenciaram, à semelhança das comunidades de invertebrados, uma separação evidente entre comunidades de setores de referência relativamente a setores urbanos. Registo para o crescente domínio de espécies exóticas, caso góbio (Gobio lozanoi), gambúsia (Gambusia holbrooki) e perca-sol (Lepomis gibbosus) nos locais mais antropizados (RP e JU), particularmente sob efeito da poluição e regularização (e.g., açudes), em detrimento das espécies reófilas nativas, caso da truta-de-rio (Salmo trutta), boga-do-norte (Pseudochondrostoma duriense), em maior abundância em locais de boa integridade ecológica (RM, RJ). Ficou ainda evidente que o verão parece ser a estação do ano mais crítica para as comunidades de invertebrados e menos para os peixes, provavelmente pelas condições ambientais mais adversas, potenciadas pelos caudais inferiores detetados ultimamente em função das alterações climáticas patentes. Os resultados baseados nos dados atuais e respetiva comparação com a situação de pré-reabilitação, evidenciaram a inexistência de ganhos em termos de biodiversidade e estado ecológico do rio Fervença, nomeadamente no setor urbano - zona POLIS, 20 anos após a execução das obras de reabilitação na cidade de Bragança. Neste sentido, configura-se a necessidade de aplicar medidas/ações de melhoria do ambiente aquático e ribeirinho, no sentido de recuperar serviços de ecossistema associados à valorização da componente ecológica. Entre as ações sugerem-se a mitigação/minimização e/ou eliminação de impactes negativos (e.g., inputs localizados de poluição), o recurso a soluções baseadas na natureza (e.g., técnicas de engenharia natural nos habitats degradados), a gestão eficiente da água (e.g., reuso de água da ETAR), a gestão adaptativa às alterações climáticas (e.g., reforço de galerias ripícolas), com o intuito de promover a recuperação e conservação do rio Fervença num quadro de sustentabilidade ecológica.