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Reprodução ex situ de truta-de-rio (Salmo trutta L.) em Portugal: monitorização de stocks de origem selvagem em cativeiro

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Detalhes bibliográficos
Resumo:A truta-de-rio (Salmo trutta, L.) é uma espécie emblemática dos rios de montanha do norte e centro de Portugal, com interesse crescente para a pesca recreativa. A gestão sustentável da espécie contempla, perante as ameaças atuais (e.g., poluição da água, fragmentação e degradação de habitats, introdução de espécies exóticas, pesca ilegal e sobrepesca e alterações climáticas), a necessidade de preservar a identidade dos stocks selvagens e garantir a fruição dos serviços ecossistémicos associados, na procura do equilíbrio entre a conservação e a exploração dos recursos. Por tal motivo, em ambientes oligotróficos de baixa produtividade piscícola, como é o caso da maioria dos rios de aptidão salmonícola de Portugal, é comum recorrer a repovoamentos e largadas, no sentido de fomentar a atividade lúdica da pesca sem, contudo, exaurir os recursos piscícolas selvagens. Neste enquadramento, pretendeu-se com o presente estudo contribuir para a conservação e gestão de stocks de truta- de-rio em Portugal, em particular através da reprodução em cativeiro de stocks de truta-de-rio selvagem, capturados em diferentes rios/bacias hidrográficas (i.e., Côa, Baceiro/Sabor, Beça/Olo, Paiva, Vez, Neiva, Cávado e Mouro/Sucastro) de acordo com diversidade genética e a estratégia definida pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas. Assim, no verão de 2021 foram capturados ou reforçados stocks nativos de truta-de-rio nos Postos Aquícolas de Castrelos (Bragança) e do Torno (Amarante), onde se procedeu à monitorização da aclimatação e da sua performance em cativeiro. Recorreu-se à incorporação de novas metodologias na aclimatação dos animais selvagens pela naturalização dos tanques (e.g., criação de refúgios, telas de ensombramento, adição de substrato natural e macrófitos) e o fornecimento duma dieta mista (i.e., alimento artificial - farinha de peixe e natural, caso de invertebrados e pequenos peixes), para além da coabitação com animais domésticos capazes de acelerar o processo de adaptação ao cativeiro. Todos os animais domésticos e frações dos animais selvagens foram marcados com PIT-tags para uma monitorização individualizada da performance (e.g. crescimento e condição corporal). Foi avaliada a performance dos peixes capturados através de modelos de crescimento e estabelecidos os parâmetros da função de von Bertalanffy e as relações peso-comprimento para todos os stocks. Os resultados obtidos mostraram uma razoável a boa adaptação dos peixes selvagens ao cativeiro, desde as fases iniciais mais críticas, tendo o crescimento sido praticamente isométrico (i.e., b = 3) para a maioria das populações. No que respeita à condição corporal, foram encontradas diferenças significativas (P < 0,05) entre populações, sendo que as populações do rio Beça apresentaram a melhor condição corporal no momento da captura, comparativamente com a população do rio Baceiro/Sabor que apresentou a pior condição física. De salientar que a mortalidade em todo o processo de captura, transporte e aclimatação na fase inicial no cativeiro, foi sempre inferior a 10%. No inverno foi feita a reprodução ex-situ de stocks domésticos (ainda existentes nos Postos Aquícolas) e selvagens, através da desova de fêmeas e machos maturos. Foram também estudadas as características de reprodução ex-situ, nomeadamente a época de desova, a fecundidade total e relativa, a dimensão do ovo e o índice gonadosomático e relacionados com o peso corporal das fêmeas. A desova iniciou-se em meados de dezembro e terminou no final de janeiro, completando um total de 434 dias-grau, desde a fertilização até à eclosão dos alevins. Foram encontradas diferenças altamente significativas (P < 0,001) entre os stocks domésticos e selvagens, para todas as variáveis biométricas e os traits reprodutivos usados. Tais diferenças estão fortemente relacionadas com o tempo de residência e aclimatação ao cativeiro dos diferentes stocks (e.g., stocks domésticos (> 5 anos) e alguns selvagens recentemente adaptados (< 3 anos)). Uma vez que os repovoamentos são ainda hoje a técnica de gestão de pescas mais usada pelas Zonas de Pesca Lúdica de Portugal, a reprodução ex-situ das espécies nativas mais procuradas afigura-se essencial, no sentido de fornecer animais saudáveis e geneticamente adequados para a libertação no meio selvagem. Por outro lado, as ameaças a que estão sujeitas espécies e populações justificam a manutenção de pools génicos em cativeiro. Por fim, tendo em conta que muitos rios de montanha pertencem a áreas protegidas/ classificadas, é ainda fundamental a definição de medidas específicas de conservação orientadas para a mitigação de impactes negativos e para a preservação dos valores naturais.
Autores principais:Almeida, Tito Emanuel Félix
Assunto:Truta-de-rio Pool génico Aclimatação Reprodução Gestão
Ano:2022
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Instituto Politécnico de Bragança
Idioma:português
Origem:Biblioteca Digital do IPB
Descrição
Resumo:A truta-de-rio (Salmo trutta, L.) é uma espécie emblemática dos rios de montanha do norte e centro de Portugal, com interesse crescente para a pesca recreativa. A gestão sustentável da espécie contempla, perante as ameaças atuais (e.g., poluição da água, fragmentação e degradação de habitats, introdução de espécies exóticas, pesca ilegal e sobrepesca e alterações climáticas), a necessidade de preservar a identidade dos stocks selvagens e garantir a fruição dos serviços ecossistémicos associados, na procura do equilíbrio entre a conservação e a exploração dos recursos. Por tal motivo, em ambientes oligotróficos de baixa produtividade piscícola, como é o caso da maioria dos rios de aptidão salmonícola de Portugal, é comum recorrer a repovoamentos e largadas, no sentido de fomentar a atividade lúdica da pesca sem, contudo, exaurir os recursos piscícolas selvagens. Neste enquadramento, pretendeu-se com o presente estudo contribuir para a conservação e gestão de stocks de truta- de-rio em Portugal, em particular através da reprodução em cativeiro de stocks de truta-de-rio selvagem, capturados em diferentes rios/bacias hidrográficas (i.e., Côa, Baceiro/Sabor, Beça/Olo, Paiva, Vez, Neiva, Cávado e Mouro/Sucastro) de acordo com diversidade genética e a estratégia definida pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas. Assim, no verão de 2021 foram capturados ou reforçados stocks nativos de truta-de-rio nos Postos Aquícolas de Castrelos (Bragança) e do Torno (Amarante), onde se procedeu à monitorização da aclimatação e da sua performance em cativeiro. Recorreu-se à incorporação de novas metodologias na aclimatação dos animais selvagens pela naturalização dos tanques (e.g., criação de refúgios, telas de ensombramento, adição de substrato natural e macrófitos) e o fornecimento duma dieta mista (i.e., alimento artificial - farinha de peixe e natural, caso de invertebrados e pequenos peixes), para além da coabitação com animais domésticos capazes de acelerar o processo de adaptação ao cativeiro. Todos os animais domésticos e frações dos animais selvagens foram marcados com PIT-tags para uma monitorização individualizada da performance (e.g. crescimento e condição corporal). Foi avaliada a performance dos peixes capturados através de modelos de crescimento e estabelecidos os parâmetros da função de von Bertalanffy e as relações peso-comprimento para todos os stocks. Os resultados obtidos mostraram uma razoável a boa adaptação dos peixes selvagens ao cativeiro, desde as fases iniciais mais críticas, tendo o crescimento sido praticamente isométrico (i.e., b = 3) para a maioria das populações. No que respeita à condição corporal, foram encontradas diferenças significativas (P < 0,05) entre populações, sendo que as populações do rio Beça apresentaram a melhor condição corporal no momento da captura, comparativamente com a população do rio Baceiro/Sabor que apresentou a pior condição física. De salientar que a mortalidade em todo o processo de captura, transporte e aclimatação na fase inicial no cativeiro, foi sempre inferior a 10%. No inverno foi feita a reprodução ex-situ de stocks domésticos (ainda existentes nos Postos Aquícolas) e selvagens, através da desova de fêmeas e machos maturos. Foram também estudadas as características de reprodução ex-situ, nomeadamente a época de desova, a fecundidade total e relativa, a dimensão do ovo e o índice gonadosomático e relacionados com o peso corporal das fêmeas. A desova iniciou-se em meados de dezembro e terminou no final de janeiro, completando um total de 434 dias-grau, desde a fertilização até à eclosão dos alevins. Foram encontradas diferenças altamente significativas (P < 0,001) entre os stocks domésticos e selvagens, para todas as variáveis biométricas e os traits reprodutivos usados. Tais diferenças estão fortemente relacionadas com o tempo de residência e aclimatação ao cativeiro dos diferentes stocks (e.g., stocks domésticos (> 5 anos) e alguns selvagens recentemente adaptados (< 3 anos)). Uma vez que os repovoamentos são ainda hoje a técnica de gestão de pescas mais usada pelas Zonas de Pesca Lúdica de Portugal, a reprodução ex-situ das espécies nativas mais procuradas afigura-se essencial, no sentido de fornecer animais saudáveis e geneticamente adequados para a libertação no meio selvagem. Por outro lado, as ameaças a que estão sujeitas espécies e populações justificam a manutenção de pools génicos em cativeiro. Por fim, tendo em conta que muitos rios de montanha pertencem a áreas protegidas/ classificadas, é ainda fundamental a definição de medidas específicas de conservação orientadas para a mitigação de impactes negativos e para a preservação dos valores naturais.