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Contribuição para o estudo da bioecologia dos mexilhões de água doce (Unionoida) do Nordeste de Portugal

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Resumo:As populações de mexilhões de água doce (Mollusca, Bivalvia, Unionoida) são um dos grupos faunísticos mais ameaçados a nível mundial, existindo várias espécies que correm o risco de extinção. Estas espécies desempenham um papel importante no funcionamento dos ecossistemas aquáticos dado assegurarem a filtração e depuração das águas. Apresentam ainda um ciclo de vida complexo uma vez que parasitam, na fase larvar, um ou mais hospedeiros, embora na generalidade corresponda a um número restrito de peixes. A situação real destas populações de náiades está ainda mal compreendida nos rios do Nordeste Transmontano. Os objetivos do presente trabalho consistiram no estudo da bioecologia das espécies Margaritifera margaritifera, Anodonta anatina, Unio delphinus e Potomida littoralis. Mais especificamente, foi determinada a densidade e estrutura populacional, detetados os padrões de distribuição e identificados os principais fatores de regressão, bióticos e abióticos, que ameaçam estas populações de bivalves nas bacias hidrográficas dos rios Tua e Sabor. Para a caracterização do status ecológico de diferentes cursos de água de ambas as bacias hidrográficas foram selecionados 13 locais de amostragem, tendo sido feito o registo de dados na primavera e verão de 2012 e 2013. Recorreu-se a um conjunto de análises físicas e químicas da água, à determinação de índices de qualidade do canal fluvial e dos habitas ribeirinhos e ainda à amostragem das comunidades de macroinvertebrados bentónicos e de peixes, baseada nos protocolos estabelecidos em Portugal pelo Instituto da Água, no âmbito da implementação da Diretiva Quadro da Água (DQA). As populações de náiades foram monitorizadas através da técnica de observação subaquática (snorkeling) e usado um método de varrimento completo duma extensão de rio, nunca inferior a 100 metros. Os resultados obtidos permitiram definir as variáveis ambientais (e.g. parâmetros relacionados com a qualidade da água e hidromorfologia do canal) mais importantes na tipologia encontrada e ainda determinar a composição, distribuição e abundância das comunidades de macroinvertebrados e de peixes. Foram encontradas diferentes métricas responsáveis à degradação ambiental e identificada uma maior integridade ecológica nos setores superiores de ambas as bacias hidrográficas. Relativamente aosbivalves, a espécie M. margaritifera foi encontrada em elevadas densidades em alguns locais dos rios Rabaçal e Tuela, enquanto os unionídeos, presentes nas zonas médias e finais dos rios, mostraram uma distribuição espacial agregada em zonas específicas, nomeadamente na proximidade das margens e especialmente em braços laterais dos rios, com fluxo permanente de água. Foram construídos histogramas referentes à estrutura populacional e ao uso do habitat para cada espécie. As espécies Unio delphinus e Anodonta anatina colonizam preferencialmente pools com substrato fino, com núcleos populacionais situados entre raízes submersas, próximo de margens escavadas. Por sua vez, a espécie Potomida littoralis tem densidades superiores em zonas de maior velocidade da corrente (riffles) e com substrato mais grosseiro (seixos e pedras). Em diversos locais foi encontrada uma estrutura populacional equilibrada para a espécie M. margaritifera e para as espécies de unionídeos, com uma boa densidade de juvenis e indivíduos reprodutores. Ao nível da fauna piscícola, detetou-se a presença quase exclusiva de espécies autóctones de peixes (e.g. Salmo trutta, Cobitis calderoni, Squalius carolitertii, Squalius alburnoides) na cabeceira dos rios onde ocorrem as populações mais viáveis de Portugal da espécie Margaritifera margaritifera (embora apenas no Alto Tua), enquanto nos troços médios e finais (colonizados por bivalves unionídeos) os ciprinídeos mais comuns e endémicos (Luciobarbus bocagei, Squalius carolitertii e Pseudochondrostoma duriense) ocorrem em proporções variáveis com espécies exóticas, muitas delas com potencial invasor (e.g. Lepomis gibbosus). Face às ameaças detetadas, caso da poluição, sedimentação e especialmente da regularização (duas grandes barragens, os Aproveitamentos Hidroelétricos do Baixo Sabor e de Foz Tua, estão em fase de construção) que conduzirão a uma redução do habitat disponível e da íctiofauna nativa (que funciona quase exclusivamente como hospedeiros destes mexilhões), é fundamental tomar medidas que visem a conservação de habitats e ecossistemas prioritários e a requalificação ambiental de troços degradados de modo a preservar as espécies de invertebrados e vertebrados autóctones fortemente ameaçadas.
Autores principais:Patrício, Cristina Isabel Miranda
Assunto:Ecossistemas lóticos Integridade ecológica Invertebrados Náiades Peixes
Ano:2013
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Instituto Politécnico de Bragança
Idioma:português
Origem:Biblioteca Digital do IPB
Descrição
Resumo:As populações de mexilhões de água doce (Mollusca, Bivalvia, Unionoida) são um dos grupos faunísticos mais ameaçados a nível mundial, existindo várias espécies que correm o risco de extinção. Estas espécies desempenham um papel importante no funcionamento dos ecossistemas aquáticos dado assegurarem a filtração e depuração das águas. Apresentam ainda um ciclo de vida complexo uma vez que parasitam, na fase larvar, um ou mais hospedeiros, embora na generalidade corresponda a um número restrito de peixes. A situação real destas populações de náiades está ainda mal compreendida nos rios do Nordeste Transmontano. Os objetivos do presente trabalho consistiram no estudo da bioecologia das espécies Margaritifera margaritifera, Anodonta anatina, Unio delphinus e Potomida littoralis. Mais especificamente, foi determinada a densidade e estrutura populacional, detetados os padrões de distribuição e identificados os principais fatores de regressão, bióticos e abióticos, que ameaçam estas populações de bivalves nas bacias hidrográficas dos rios Tua e Sabor. Para a caracterização do status ecológico de diferentes cursos de água de ambas as bacias hidrográficas foram selecionados 13 locais de amostragem, tendo sido feito o registo de dados na primavera e verão de 2012 e 2013. Recorreu-se a um conjunto de análises físicas e químicas da água, à determinação de índices de qualidade do canal fluvial e dos habitas ribeirinhos e ainda à amostragem das comunidades de macroinvertebrados bentónicos e de peixes, baseada nos protocolos estabelecidos em Portugal pelo Instituto da Água, no âmbito da implementação da Diretiva Quadro da Água (DQA). As populações de náiades foram monitorizadas através da técnica de observação subaquática (snorkeling) e usado um método de varrimento completo duma extensão de rio, nunca inferior a 100 metros. Os resultados obtidos permitiram definir as variáveis ambientais (e.g. parâmetros relacionados com a qualidade da água e hidromorfologia do canal) mais importantes na tipologia encontrada e ainda determinar a composição, distribuição e abundância das comunidades de macroinvertebrados e de peixes. Foram encontradas diferentes métricas responsáveis à degradação ambiental e identificada uma maior integridade ecológica nos setores superiores de ambas as bacias hidrográficas. Relativamente aosbivalves, a espécie M. margaritifera foi encontrada em elevadas densidades em alguns locais dos rios Rabaçal e Tuela, enquanto os unionídeos, presentes nas zonas médias e finais dos rios, mostraram uma distribuição espacial agregada em zonas específicas, nomeadamente na proximidade das margens e especialmente em braços laterais dos rios, com fluxo permanente de água. Foram construídos histogramas referentes à estrutura populacional e ao uso do habitat para cada espécie. As espécies Unio delphinus e Anodonta anatina colonizam preferencialmente pools com substrato fino, com núcleos populacionais situados entre raízes submersas, próximo de margens escavadas. Por sua vez, a espécie Potomida littoralis tem densidades superiores em zonas de maior velocidade da corrente (riffles) e com substrato mais grosseiro (seixos e pedras). Em diversos locais foi encontrada uma estrutura populacional equilibrada para a espécie M. margaritifera e para as espécies de unionídeos, com uma boa densidade de juvenis e indivíduos reprodutores. Ao nível da fauna piscícola, detetou-se a presença quase exclusiva de espécies autóctones de peixes (e.g. Salmo trutta, Cobitis calderoni, Squalius carolitertii, Squalius alburnoides) na cabeceira dos rios onde ocorrem as populações mais viáveis de Portugal da espécie Margaritifera margaritifera (embora apenas no Alto Tua), enquanto nos troços médios e finais (colonizados por bivalves unionídeos) os ciprinídeos mais comuns e endémicos (Luciobarbus bocagei, Squalius carolitertii e Pseudochondrostoma duriense) ocorrem em proporções variáveis com espécies exóticas, muitas delas com potencial invasor (e.g. Lepomis gibbosus). Face às ameaças detetadas, caso da poluição, sedimentação e especialmente da regularização (duas grandes barragens, os Aproveitamentos Hidroelétricos do Baixo Sabor e de Foz Tua, estão em fase de construção) que conduzirão a uma redução do habitat disponível e da íctiofauna nativa (que funciona quase exclusivamente como hospedeiros destes mexilhões), é fundamental tomar medidas que visem a conservação de habitats e ecossistemas prioritários e a requalificação ambiental de troços degradados de modo a preservar as espécies de invertebrados e vertebrados autóctones fortemente ameaçadas.