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A realização do sujeito em complementos infinitivos de verbos causativos e percetivos no português língua de herança

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Detalhes bibliográficos
Resumo:O presente estudo pretende investigar um caso particular de aquisição bilingue, a aquisição de uma língua de herança (LH). A LH refere-se à língua de origem de falantes bilingues que crescem em contexto de emigração com exposição à língua de origem dos pais/avós no contexto familiar e à língua maioritária, a do país de acolhimento, fora da família. Iremos analisar a construção de elevação de sujeito para objeto e a construção de infinitivo preposicionado (CIP), isto é, o conhecimento de falantes de herança (FH) e falantes monolingues de português europeu (PE) relativamente a estruturas com complementos infinitivos de verbos causativos e percetivos centrando-nos, em particular, nos modos de realização do sujeito em interação com a presença ou ausência da flexão de concordância verbal. A análise baseia-se na realização de duas tarefas linguísticas, uma de completamento e outra de julgamento de gramaticalidade (TJG). O grupo sob investigação inclui 30 falantes monolingues portugueses e 30 FH de 2ª geração, lusodescendentes, que vivem na Alemanha (zona de Frankfurt). O objetivo do presente estudo consiste em averiguar se os FH demonstram um conhecimento destas estruturas semelhante ao conhecimento demonstrado por falantes monolingues, residentes em Portugal. Os resultados demonstram que, em geral, os falantes bilingues mostram tendências de produção e aceitação semelhantes aos monolingues nos complementos não flexionados, ou seja, verifica-se a produção de taxas elevadas de pronomes clíticos em oposição aos pronomes fortes em ambos os grupos. No entanto, em todas as condições, os falantes monolingues mostram uma maior tendência para o uso do pronome clítico na forma acusativa (elevação de sujeito para objeto) nos complementos flexionados e não flexionados da Tarefa de Completamento (Tarefa 1). A maior diferença entre os dois grupos é verificada i) nos complementos de verbos percetivos, com flexão, e ii) nos contextos CIP, nos quais os falantes bilingues optam significativamente mais por pronomes fortes do que os falantes monolingues. Semelhantemente, na TJG, os falantes bilingues mostram uma taxa maior de aceitação de sujeitos nominativos na CIP, enquanto os falantes monolingues dificilmente aceitam este tipo de construções. Consideramos que o uso mais frequente da forma nominativa nestes contextos se deve à tendência mais geral dos falantes de herança para evitar o uso das formas clíticas, sempre que possível, devido à sua complexidade no PE. Quanto à aceitação de sujeitos nominativos na CIP, este comportamento pode ter a ver com a estrutura particular da CIP quando comparada com os restantes complementos. Sempre que a CIP ocorre em frases raiz, o sujeito surge na forma nominativa (o Caso por defeito, em PE). Assim, não é de excluir a hipótese de os falantes de herança atribuírem à CIP em posição de complemento a mesma análise que é atribuída à sua ocorrência em contextos raiz, considerando-a um domínio funcional completo em que o sujeito recebe Caso nominativo por defeito. Esta estratégia é também atestada em crianças monolingues em fase de aquisição (ver Santos, Gonçalves & Hyams, 2015). É ainda de realçar a diferença entre as duas tarefas no que diz respeito ao uso do pronome clítico nos complementos flexionados. Na TJG, o grupo bilingue mostra taxas mais elevadas de aceitação desta construção do que o grupo monolingue. Contudo, contrariamente ao que era previsto, na Tarefa de Completamento, os falantes monolingues produzem esta construção com a presença do clítico acusativo, o que não é predito pela maioria das análises sintáticas relativas a esta construção, uma vez que, com a flexão de concordância presente, existem todas as condições para que a atribuição de Caso nominativo ocorra. Por sua vez, na TJG, os falantes monolingues já rejeitam esta construção, ao contrário do que acontece com o grupo bilingue, que tem um comportamento semelhante nas duas tarefas. Este comportamento pode estar relacionado com diferentes graus de conhecimento metalinguístico dos dois grupos, consequência de falta de instrução formal na LH dos falantes bilingues. Sintetizando, os FH de PE que têm o alemão como língua maioritária demonstram um conhecimento linguístico muito semelhante ao dos monolingues portugueses, sendo a principal exceção o comportamento de ambos os grupos no que diz respeito à CIP e aos complementos flexionados.
Autores principais:Pereira, Cátia Daniela Vieira
Assunto:Complementos infinitivos Verbos causativos e percetivos Português língua de herança Sujeito Pronomes clíticos Infinitival complements Causative and perception verbs Portuguese as a heritage language Subject Clitic pronoun Humanidades::Línguas e Literaturas
Ano:2015
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:O presente estudo pretende investigar um caso particular de aquisição bilingue, a aquisição de uma língua de herança (LH). A LH refere-se à língua de origem de falantes bilingues que crescem em contexto de emigração com exposição à língua de origem dos pais/avós no contexto familiar e à língua maioritária, a do país de acolhimento, fora da família. Iremos analisar a construção de elevação de sujeito para objeto e a construção de infinitivo preposicionado (CIP), isto é, o conhecimento de falantes de herança (FH) e falantes monolingues de português europeu (PE) relativamente a estruturas com complementos infinitivos de verbos causativos e percetivos centrando-nos, em particular, nos modos de realização do sujeito em interação com a presença ou ausência da flexão de concordância verbal. A análise baseia-se na realização de duas tarefas linguísticas, uma de completamento e outra de julgamento de gramaticalidade (TJG). O grupo sob investigação inclui 30 falantes monolingues portugueses e 30 FH de 2ª geração, lusodescendentes, que vivem na Alemanha (zona de Frankfurt). O objetivo do presente estudo consiste em averiguar se os FH demonstram um conhecimento destas estruturas semelhante ao conhecimento demonstrado por falantes monolingues, residentes em Portugal. Os resultados demonstram que, em geral, os falantes bilingues mostram tendências de produção e aceitação semelhantes aos monolingues nos complementos não flexionados, ou seja, verifica-se a produção de taxas elevadas de pronomes clíticos em oposição aos pronomes fortes em ambos os grupos. No entanto, em todas as condições, os falantes monolingues mostram uma maior tendência para o uso do pronome clítico na forma acusativa (elevação de sujeito para objeto) nos complementos flexionados e não flexionados da Tarefa de Completamento (Tarefa 1). A maior diferença entre os dois grupos é verificada i) nos complementos de verbos percetivos, com flexão, e ii) nos contextos CIP, nos quais os falantes bilingues optam significativamente mais por pronomes fortes do que os falantes monolingues. Semelhantemente, na TJG, os falantes bilingues mostram uma taxa maior de aceitação de sujeitos nominativos na CIP, enquanto os falantes monolingues dificilmente aceitam este tipo de construções. Consideramos que o uso mais frequente da forma nominativa nestes contextos se deve à tendência mais geral dos falantes de herança para evitar o uso das formas clíticas, sempre que possível, devido à sua complexidade no PE. Quanto à aceitação de sujeitos nominativos na CIP, este comportamento pode ter a ver com a estrutura particular da CIP quando comparada com os restantes complementos. Sempre que a CIP ocorre em frases raiz, o sujeito surge na forma nominativa (o Caso por defeito, em PE). Assim, não é de excluir a hipótese de os falantes de herança atribuírem à CIP em posição de complemento a mesma análise que é atribuída à sua ocorrência em contextos raiz, considerando-a um domínio funcional completo em que o sujeito recebe Caso nominativo por defeito. Esta estratégia é também atestada em crianças monolingues em fase de aquisição (ver Santos, Gonçalves & Hyams, 2015). É ainda de realçar a diferença entre as duas tarefas no que diz respeito ao uso do pronome clítico nos complementos flexionados. Na TJG, o grupo bilingue mostra taxas mais elevadas de aceitação desta construção do que o grupo monolingue. Contudo, contrariamente ao que era previsto, na Tarefa de Completamento, os falantes monolingues produzem esta construção com a presença do clítico acusativo, o que não é predito pela maioria das análises sintáticas relativas a esta construção, uma vez que, com a flexão de concordância presente, existem todas as condições para que a atribuição de Caso nominativo ocorra. Por sua vez, na TJG, os falantes monolingues já rejeitam esta construção, ao contrário do que acontece com o grupo bilingue, que tem um comportamento semelhante nas duas tarefas. Este comportamento pode estar relacionado com diferentes graus de conhecimento metalinguístico dos dois grupos, consequência de falta de instrução formal na LH dos falantes bilingues. Sintetizando, os FH de PE que têm o alemão como língua maioritária demonstram um conhecimento linguístico muito semelhante ao dos monolingues portugueses, sendo a principal exceção o comportamento de ambos os grupos no que diz respeito à CIP e aos complementos flexionados.