Publicação

Samba-enredo, composição e performance da resistência

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Gênero musical praticado há quase um século, o samba-enredo é um dos componentes do espetáculo multi-artístico denominado “desfile das escolas de samba” da cidade do Rio de Janeiro. Esta investigação procura demonstrar como a música pode tanto ser estruturada quanto estruturante do seu contexto social e cultural. Para isso, empreendemos uma etnografia da prática composicional centrada no processo de produção colectiva de um samba-enredo concorrente para o carnaval de 2020 da escola de samba carioca Unidos de Vila Isabel. Através de uma etnografia dos ensaios e eventos que antecederam o desfile de 2022 da agremiação, buscamos compreender como os membros da referida escola dialogam com a música. Baseado nos trabalhos de Bourdieu (1972), e Wacquant (2002), o estudo propõe uma análise etnomusicológica dos elementos que compõem o que denominamos habitus composicional incorporado pelos praticantes. Como hipótese da investigação, procuramos averiguar se este habitus composicional participa de um conjunto de narrativas de identidade negra no Brasil, desenvolvidas por músicos e performers negros que encontram na Escola de Samba uma morada para sua política de resistência e identidade. Dessa forma, a pesquisa é enquadrada no campo das teorias da resistência, especialmente iluminada por Michel De Certeau (1998 [1980]), Paul Gilroy (1993), James C. Scott (2013 [1990]) Johansson e Lalander (2012) e Vinthagen e Johansson (2013). Paralelamente, convoca para um diálogo teórico os contributos de Muniz Sodré (2015), Simas e Rufino (2018), e Vagner da Silva (2019) de modo a fornecer um olhar votado às epistemologias da diáspora africana no Brasil. Como resultado, a tese apresenta três contributos centrais. Primeiramente, mostramos que o desfile exige um condicionamento físico e performativo que tem no samba-enredo um de seus principais suportes. Vimos que as escolas performam, para além de valores sabidamente estéticos e artísticos, a sua capacidade de disciplina e de organização, valores fundamentais que enquadramos enquanto uma performance da mobilização. Em seguida, oferecemos um panorama das habilidades e aptidões políticas, econômicas, composicionais e simbólicas necessárias para a constituição do que classificamos como habitus composicional. Entendemos, assim, que o corpo que desfila é a matéria-prima que orienta e organiza as decisões composicionais, tornando samba e corpo elementos indissociáveis. Por fim, compreendemos como princípios afro-religiosos atuam enquanto filosofia de carácter popular que estrutura práticas e saberes no interior da escola de samba. Percebemos que a divindade Exu, enquanto potência, projeta um regime de valores que contribui diretamente para conceção de subjetividades. Assim, o carácter exúlico de ser sambista fornece subsídios para uma filosofia popular que atua enquanto política de resistência para as comunidades do samba carioca.
Autores principais:Bezerra, Frederico Freire de Lima Neibert
Assunto:Samba-Enredo Análise Musical Performance Resistência Etnomusicologia Musical Analysis Resistance Ethnomusicology
Ano:2026
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:Gênero musical praticado há quase um século, o samba-enredo é um dos componentes do espetáculo multi-artístico denominado “desfile das escolas de samba” da cidade do Rio de Janeiro. Esta investigação procura demonstrar como a música pode tanto ser estruturada quanto estruturante do seu contexto social e cultural. Para isso, empreendemos uma etnografia da prática composicional centrada no processo de produção colectiva de um samba-enredo concorrente para o carnaval de 2020 da escola de samba carioca Unidos de Vila Isabel. Através de uma etnografia dos ensaios e eventos que antecederam o desfile de 2022 da agremiação, buscamos compreender como os membros da referida escola dialogam com a música. Baseado nos trabalhos de Bourdieu (1972), e Wacquant (2002), o estudo propõe uma análise etnomusicológica dos elementos que compõem o que denominamos habitus composicional incorporado pelos praticantes. Como hipótese da investigação, procuramos averiguar se este habitus composicional participa de um conjunto de narrativas de identidade negra no Brasil, desenvolvidas por músicos e performers negros que encontram na Escola de Samba uma morada para sua política de resistência e identidade. Dessa forma, a pesquisa é enquadrada no campo das teorias da resistência, especialmente iluminada por Michel De Certeau (1998 [1980]), Paul Gilroy (1993), James C. Scott (2013 [1990]) Johansson e Lalander (2012) e Vinthagen e Johansson (2013). Paralelamente, convoca para um diálogo teórico os contributos de Muniz Sodré (2015), Simas e Rufino (2018), e Vagner da Silva (2019) de modo a fornecer um olhar votado às epistemologias da diáspora africana no Brasil. Como resultado, a tese apresenta três contributos centrais. Primeiramente, mostramos que o desfile exige um condicionamento físico e performativo que tem no samba-enredo um de seus principais suportes. Vimos que as escolas performam, para além de valores sabidamente estéticos e artísticos, a sua capacidade de disciplina e de organização, valores fundamentais que enquadramos enquanto uma performance da mobilização. Em seguida, oferecemos um panorama das habilidades e aptidões políticas, econômicas, composicionais e simbólicas necessárias para a constituição do que classificamos como habitus composicional. Entendemos, assim, que o corpo que desfila é a matéria-prima que orienta e organiza as decisões composicionais, tornando samba e corpo elementos indissociáveis. Por fim, compreendemos como princípios afro-religiosos atuam enquanto filosofia de carácter popular que estrutura práticas e saberes no interior da escola de samba. Percebemos que a divindade Exu, enquanto potência, projeta um regime de valores que contribui diretamente para conceção de subjetividades. Assim, o carácter exúlico de ser sambista fornece subsídios para uma filosofia popular que atua enquanto política de resistência para as comunidades do samba carioca.