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Perturbação do espectro do autismo : contributos para a caracterização do desenvolvimento da comunicação e da linguagem

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Detalhes bibliográficos
Resumo:A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) tem na maioria dos casos um quadro clínico com manifestações precoces, mas com alguma frequência o diagnóstico ainda é tardio. É imprescindível a identificação dos primeiros sinais de alerta de modo a definir um programa de intervenção ajustado às necessidades da criança, sendo também importante reconhecer marcadores de prognóstico da doença. A ausência de produção linguística ou o seu atraso estão entre os principais motivos de referenciação clínica; contudo, o problema coloca-se muito antes do aparecimento das primeiras palavras. Para que a linguagem expressiva surja, são necessários pré-requisitos, nomeadamente ao nível da comunicação pré-verbal. Antes mesmo de falar, o bebé aprende a comunicar através de meios não verbais tais como o gesto, a expressão facial, o olhar e a atenção conjunta. A estes vão-se associando as vocalizações. É assim que o bebé revela a sua intenção comunicativa. Nas crianças com PEA esta intenção encontra-se comprometida, assim como as suas competências de comunicação não linguísticas e linguísticas. De entre os vários grupos de crianças com PEA estudados, o de crianças não verbais tem sido o menos investigado, não existindo até à data projetos longitudinais que incidam sobre o seu neurodesenvolvimento em idades precoces e, em especifico, na língua Portuguesa. Este trabalho pretende contribuir para identificar os fatores de neurodesenvolvimento que se possam constituir como marcadores de prognóstico de aquisição da linguagem nesta população com autismo, e tentar compreender quais os mecanismos que explicam a razão pela qual crianças com PEA não falam. Para este efeito foi realizado um estudo longitudinal com a duração de dois anos através de avaliações e observações periódicas com dois grupos de crianças: um com desenvolvimento típico (DT) que foi acompanhado dos quatro aos 30 meses de idade cronológica e outro com crianças com PEA não verbais (crianças que produzem menos de cinco palavras), que foi acompanhado desde o momento do diagnóstico. Foram recolhidos dados clínicos e experimentais relativos às principais etapas do neurodesenvolvimento. Na componente clínica, foi aplicada uma bateria de testes psicométricos e foi realizada a tradução para o Português Europeu (PE) de um instrumento de avaliação da comunicação e do desenvolvimento simbólico. Na componente experimental, foi construída uma tarefa de perceção de fala e implementada através da metodologia eye tracking e foram recolhidas periodicamente produções sonoras das crianças em interação com os seus cuidadores. Por fim, foi realizada uma análise objetiva de fala destas crianças. Os principais achados científicos foram os seguintes: i) identificação de etapas de aquisição linguística típicas para o PE; ii) definição de um índice de evolução linguístico (equivalente a uma taxa de crescimento) por grupo, que permite verificar a velocidade com que é feita a aquisição das palavras nas crianças; iii) os fatores de neurodesenvolvimento que melhor previram o futuro desenvolvimento linguístico: o nível comunicativo e, em específico o uso dos gestos, a gravidade da PEA, e o número de palavras reportadas pelos pais no início do estudo; iv) a presença de produções não linguísticas (desconforto e atípicas) em fases tardias do desenvolvimento linguístico (acima dos 20 meses) é indicador de pior prognóstico linguístico; v) a duração mais longa de enunciados e a entoação, especificamente valores de F0 mais elevados (superior a 500 Hz) são preditores de pior prognóstico linguístico; vi) definição de um novo conceito/nomenclatura - linguagem idiossincrática pré-verbal – que define enunciados de fala atípicos que são produzidos pelas crianças numa idade cronológica acima dos 30 meses; vii) o eye tracking é uma metodologia facilitadora para a avaliação da linguagem, especificamente da perceção da fala nas crianças com PEA não verbais. Por fim, consideramos que a presente investigação contribuiu de forma significativa para a caraterização da aquisição e desenvolvimento da comunicação e da linguagem nos grupos DT e com PEA, identificando marcadores de prognóstico que irão constituir uma mais valia na orientação terapêutica. O estudo de um subgrupo de PEA não verbal abriu uma nova linha de investigação que irá permitir a realização de novos projetos.
Autores principais:Lima, Cláudia Rute Barros Viana Maçarico Bandeira de
Assunto:Transtornos do espectro autista Crianças autistas - Linguagem Comunicação não verbal nas crianças Linguagem - Aquisição - Metodologia Teses de doutoramento - 2018
Ano:2018
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) tem na maioria dos casos um quadro clínico com manifestações precoces, mas com alguma frequência o diagnóstico ainda é tardio. É imprescindível a identificação dos primeiros sinais de alerta de modo a definir um programa de intervenção ajustado às necessidades da criança, sendo também importante reconhecer marcadores de prognóstico da doença. A ausência de produção linguística ou o seu atraso estão entre os principais motivos de referenciação clínica; contudo, o problema coloca-se muito antes do aparecimento das primeiras palavras. Para que a linguagem expressiva surja, são necessários pré-requisitos, nomeadamente ao nível da comunicação pré-verbal. Antes mesmo de falar, o bebé aprende a comunicar através de meios não verbais tais como o gesto, a expressão facial, o olhar e a atenção conjunta. A estes vão-se associando as vocalizações. É assim que o bebé revela a sua intenção comunicativa. Nas crianças com PEA esta intenção encontra-se comprometida, assim como as suas competências de comunicação não linguísticas e linguísticas. De entre os vários grupos de crianças com PEA estudados, o de crianças não verbais tem sido o menos investigado, não existindo até à data projetos longitudinais que incidam sobre o seu neurodesenvolvimento em idades precoces e, em especifico, na língua Portuguesa. Este trabalho pretende contribuir para identificar os fatores de neurodesenvolvimento que se possam constituir como marcadores de prognóstico de aquisição da linguagem nesta população com autismo, e tentar compreender quais os mecanismos que explicam a razão pela qual crianças com PEA não falam. Para este efeito foi realizado um estudo longitudinal com a duração de dois anos através de avaliações e observações periódicas com dois grupos de crianças: um com desenvolvimento típico (DT) que foi acompanhado dos quatro aos 30 meses de idade cronológica e outro com crianças com PEA não verbais (crianças que produzem menos de cinco palavras), que foi acompanhado desde o momento do diagnóstico. Foram recolhidos dados clínicos e experimentais relativos às principais etapas do neurodesenvolvimento. Na componente clínica, foi aplicada uma bateria de testes psicométricos e foi realizada a tradução para o Português Europeu (PE) de um instrumento de avaliação da comunicação e do desenvolvimento simbólico. Na componente experimental, foi construída uma tarefa de perceção de fala e implementada através da metodologia eye tracking e foram recolhidas periodicamente produções sonoras das crianças em interação com os seus cuidadores. Por fim, foi realizada uma análise objetiva de fala destas crianças. Os principais achados científicos foram os seguintes: i) identificação de etapas de aquisição linguística típicas para o PE; ii) definição de um índice de evolução linguístico (equivalente a uma taxa de crescimento) por grupo, que permite verificar a velocidade com que é feita a aquisição das palavras nas crianças; iii) os fatores de neurodesenvolvimento que melhor previram o futuro desenvolvimento linguístico: o nível comunicativo e, em específico o uso dos gestos, a gravidade da PEA, e o número de palavras reportadas pelos pais no início do estudo; iv) a presença de produções não linguísticas (desconforto e atípicas) em fases tardias do desenvolvimento linguístico (acima dos 20 meses) é indicador de pior prognóstico linguístico; v) a duração mais longa de enunciados e a entoação, especificamente valores de F0 mais elevados (superior a 500 Hz) são preditores de pior prognóstico linguístico; vi) definição de um novo conceito/nomenclatura - linguagem idiossincrática pré-verbal – que define enunciados de fala atípicos que são produzidos pelas crianças numa idade cronológica acima dos 30 meses; vii) o eye tracking é uma metodologia facilitadora para a avaliação da linguagem, especificamente da perceção da fala nas crianças com PEA não verbais. Por fim, consideramos que a presente investigação contribuiu de forma significativa para a caraterização da aquisição e desenvolvimento da comunicação e da linguagem nos grupos DT e com PEA, identificando marcadores de prognóstico que irão constituir uma mais valia na orientação terapêutica. O estudo de um subgrupo de PEA não verbal abriu uma nova linha de investigação que irá permitir a realização de novos projetos.