Autor(es): Parreira, Ricardo ; Campino, Lenea
Data: 2018
Origem: Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
Autor(es): Parreira, Ricardo ; Campino, Lenea
Data: 2018
Origem: Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical
The term neglected and poverty-related diseases, despite not being clearly defined, is usually regarded as synonym of a group of illnesses that primarily occur in developing count ries, where they severely impact the morbidity and mortality of the populat ions they afflict . Notwithstanding the absence, for some of them, of adequate prophylact ic as well as therapeut ic intervent ions, their persistence is very frequent ly determined by a combinat ion of social and economic issues that allow their et iological agents, and potent ial vectors, to thrive, taking advantage of the physical environment . Nevertheless, their consequences go beyond a direct effect on human health, as they imprison the disease-st ricken populat ions in an endless loop of 43 poverty, itself consequence of the outcome these diseases have on child development , fert ility and child-birth rates, and general product ivity (Hotez et al., 2009). Frequent ly, these neglected diseases fail to at t ract the at tent ion of governmental officials and potent ial investors (pharmaceut ical companies included), and the limited funds available severely limit research and development projects that might lead to a bet ter management of these illnesses. Unt il the early 1980, an erradicat ionist perspect ive dominated the way medicine looked upon infect ious diseases (Snowden, 2008). As a result , the beginning of the aids pandemic in 1981 unified all the erradicat ionists thought as improbable: a new infect ious scourge for which no cure existed, that plagued both developing and industrialized count ries, and to which a plethora of opportunist ic pathogens was usually associated with. One of the diseases most frequently diagnosed in associat ion with HIV – tuberculosis – caused by Mycobacterium tuberculosis, has tormented mankind from immemorial t imes. Nonetheless, it is, nowadays, emerging, being responsible for thousands the deaths annually, not sparing either poor or wealthy populat ions. This example also serves to illust rate the fact that the neglected and poverty-related diseases are frequent ly associated with so-called emerging or re-emerging infect ions. This designat ion.was coined during the 1990s by the Nobel laureate Joshua Lederberg, and is intended to embrace a group of diseases with an ongoing prevalence increase, and no expected decline in the near future, among human populat ions (Davis e Lederberg, 2000). Even though some of the diseases we will come across in the coming pages thrive in environments beleaguered by social as well as polit ical conflicts, and where the most affected populat ions are, most frequent ly than not , targeted for discriminat ion, some of them have also a significant bearing in the so-called developed world, as a direct consequence one of the aspects that governs our present t ime – globalizat ion. The lat ter is a product of mass populat ion displacement (whether voluntary or not ), and extensive commercial exchanges, that not only open avenues for an almost limit less expansion of the microbial gene pool, but at the same t ime grants them access to a never-ending number of potent ial non-immune hosts. On top of the effects of globalizat ion, demographic growth also repeatedly assumes uncont rollable and chaot ic features, giving rise to physical conditions where microorganisms and their vectors prosper. These translate into the growth of megacit ies where thousands of individuals come together, a significant proport ion of whom are poor and uneducated, living under inadequate sanit ary condit ions. Furthermore, the persistent human encroachment in prist ine environments is a cont inuous source of ecological turmoil. Finally, climate change is also expected to have cont ributed in recent t imes to temporal seasonal changes, as well as the geographical variat ions of ecological boundaries. This chapter is dedicated to a very diverse group of pathogens that are et iological agents to a no less varied collect ion of poverty-related and emerging diseases. They include geohelminthosis, fascioliasis, filariasis, and schistosomiasis, protozoa-caused infect ions such as amebiasis, cryptosporidiosis, giardiasis, and other intestinal infections, leishmaniosis, malaria, and t rypanosomosis. Among bacterial related diseases, and while cholera may be the one that best reflects poverty, we will address leptospirosis, syphilis and tuberculosis. As examples of viral infect ions, we will focus on arbovirosis, diarrheas caused by enteric viruses, hepat it is delta and aids. Finally, emerging opportunist ic mycosis imported from t ropical environments will also be addressed.
A designação “ doenças negligenciadas e da pobreza” refere, embora nem sempre com contornos bem definidos, um conjunto de doenças que ocorrem, predominantemente, em países em desenvolvimento, as quais infligem um enorme impacto na morbilidade e mortalidade das populações por elas at ingidas. Ainda que, para algumas delas, não existam medidas prevent ivas ou terapêut icas adequadas, a sua persistência é, muito frequentemente, função de questões sociais e económicas que permitem que os seus agentes et iológicos e os seus eventuais vetores t irem part ido do ambiente físico. No entanto, as consequências que estas doenças têm nas populações humanas vão para além dos seus efeitos diretos na saúde. De facto, elas aprisionam os que são at ingidos (normalmente as populações mais desfavorecidas) num ciclo vicioso de pobreza, de desenvolvimento deficitário na infância, impacto negat ivo nas taxas de fert ilidade e natalidade, e na produt ividade dos que t rabalham (Hotez et al., 2009). As doenças negligenciadas ou esquecidas são causa da falta de interesse das autoridades competentes, da total ausência ou de raros invest imentos que permitam a invest igação e o desenvolvimento conducentes à sua prevenção ou cura. Muitas destas doenças cont inuam a não representar um invest imento apetecível para as empresas farmacêut icas e para governos. Se, até ao princípio da década de 1980, a perspet iva “ erradicacionist a” dominou a forma como a medicina olhava as doenças infeciosas (Snowden, 2008), a descoberta da sida em 1981 incorporou tudo o que os erradicacionistas consideravam impensável: uma nova doença infeciosa para a qual não exist ia cura, que at ingia não só países em desenvolvimento mas também potências indust rializadas, e à qual se associava, frequentemente, uma série de agentes patogénicos oportunistas. Um dos mais frequentemente diagnost icados nas coinfeções é a bactéria Mycobacterium tuberculosis, responsável por uma doença que, apesar de conhecida pelo Homem desde há longa data - a tuberculose - é, nos dias de hoje, uma doença reemergente, responsável por milhares de mortes, tanto em países desenvolvidos como em países em vias de desenvolvimento. Às doenças negligenciadas e da pobreza associam-se, então, frequent ement e, out ras designadas de “ emergent es” ou “ reemergent es”. O t ermo “ emergent e”, cunhado durant e a década de 1990 por Joshua Lederber, pretende incluir um conjunto de infeções cuja incidência junto das populações humanas tem vindo a aumentar, e se postula que assim cont inue a acontecer num futuro próximo (Davis e Lederberg, 2000). Se bem que algumas das doenças que abordaremos nas páginas que se seguem prosperem em ambientes de conflito social e político, onde as populações mais vulneráveis às infeções são também alvo de descriminação, algumas delas têm, nos dias de hoje, um impacto não negligenciável nos países ditos desenvolvidos. Tal facto é resultado de um aspeto que domina o mundo na atualidade, a globalização, na forma das movimentações em massa, voluntárias ou não, de bens e pessoas, e que permitem uma expansão constante do pool genético dos agentes infeciosos, ao mesmo tempo que lhes garante acesso ilimitado a populações não imunizadas. Além da globalização, o crescimento demográfico que assume, por vezes, contornos quase incont rolados e caót icos, ocorre, mais frequentemente do que não, em condições que se tornam um paraíso para os microrganismos e insetos que os t ransmitem. Dele é consequência o desenvolvimento, muitas vezes mal ou não-planeado, de megacidades onde se concent ram vários milhões de pessoas, uma porção considerável das quais vive em condições de grande insalubridade, por vezes em contextos de pobreza quase ext rema, onde as infraest ruturas, condições sanitárias e nível educacional são também altamente deficitários. Por out ro lado, a intervenção humana no ambiente é fonte geradora de alterações na dinâmica populacional dos agentes de infeções at ravés da expansão, perturbação ou criação de nichos ecológicos. Finalmente, as alterações climát icas que se têm registado, especialmente na últ ima década, têm cont ribuído não só para alteração da sazonalidade do ponto de vista temporal, mas também para a modificação dos limites geográficos dos diferentes ambientes ecológicos. Este capítulo será dedicado a um conjunto muito diversificado de agentes patogénicos, os quais estão na origem de um conjunto não menos diverso de doenças ditas da pobreza, negligenciadas e emergentes. Nele estão incluídas infeções/doenças causadas por geohelmintas e por out ros helmintas, tais como as filaríases, e schistosomose, por protozoonoses, tais como amebíase, giardíase, criptosporidiose e out ras infeções intest inais, leishmaniose, malária e t ripanossomoses. De ent re as patologias de origem bact eriana, e ainda que a cólera seja, talvez, aquela que melhor representa uma doença da pobreza, espelho de condições de vida abaixo do limiar do humanamente aceitável, destacaremos a leptospirose, a sífilis e a tuberculose. Doenças provocadas por fungos, tais como micoses oportunistas emergentes e micoses importadas t ropicais e, finalmente, doenças virais, como as causadas por vírus t ransmit idos por artrópodes (arbovírus), por vírus entéricos causadores de diarreias, pelo vírus da hepat ite delta e pelo VIH, serão ainda foco de atenção ao longo das próximas páginas.