Publication
Alterações Ambientais e Riscos Associados à Exploração Mineira no Médio Curso do Rio Zêzere. O Caso das Minas da Panasqueira
| Summary: | abalho que aqui se apresenta tem como objetivos, avaliar as consequências ambientais e humanas decorrentes da atividade mineira que se exerce há mais de 118 anos neste troço do médio Zêzere, no centro interior de Portugal. Uma análise histórica evolutiva da atividade mineira tem como objetivo mostrar as mudanças que se foram operando na atividade, assim como nos mercados e o impacte desta nos movimentos humanos que se processaram ao longo do século XX. Não nos podemos alhear que fatores naturais, socioeconómicos e políticos explicaram e explicam o processo de abandono populacional que esta área sofreu ao longo das últimas seis décadas à qual a atividade mineira não é alheia. As áreas mineiras ativas e degradadas, sempre estiveram associadas a impactes ambientais e de cariz geotécnico e incidem de forma altamente prejudicial na segurança, na saúde pública e na sustentabilidade dos ecossistemas envolventes. Esses impactes agravam-se de forma extremamente negativa quando as minas e as suas infraestruturas são abandonadas sem manutenção e sem qualquer tipo de gestão das escombreiras. Portugal, país com longa tradição mineira tem presentemente 174 áreas mineiras abandonadas a precisarem de uma intervenção urgente. Não podemos esquecer que já foram feitas intervenções de fundo em diversas minas abandonadas, no entanto urge intervir e reabilitar muitos outros locais. Neste trabalho incidimos a nossa atenção nos impactes ambientais e aos riscos associados à indústria mineira a lavrar próximo de um dos principais cursos de água de Portugal, estamos a falar do rio Zêzere, e as minas são as da Panasqueira. A mina da Panasqueira, sendo a maior mina produtora de volfrâmio da Europa, está em funcionamento há mais de 118 anos criando ao longo desse tempo um passivo ambiental que é hoje fonte de preocupação, de autarcas e populações dos concelhos sob sua influência (Covilhã, Fundão e Pampilhosa da Serra, Oleiros, Pedrogão Grande). A sua exploração ao longo deste tempo produziu dezenas de milhões de m3 de inertes que foram depositados em escombreiras (na Panasqueira, Barroca Grande e Cabeço do Pião), e milhões de m3 de águas residuais provenientes quer diretamente da mina, da lavaria, da ETAR – Estação de Tratamento de Águas Residuais, e das escorrências pluviais que incidem nos taludes das barragens de lamas e das escombreiras. Esta exploração pôs e põe em risco não só as aldeias que estão inseridas no couto mineiro da Panasqueira (Panasqueira, Barroca Grande, Aldeia de S. Francisco, Cabeço do Pião), como também as aldeias existentes nas proximidades do couto mineiro, que contactam com o rio Zêzere (Barroca do Zêzere, Dornelas do Zêzere, Porto de Vacas, Esteiro, Janeiro de Baixo). A escombreira dita nova, situada na Barroca Grande, suporta duas barragens de lamas (uma já encerrada) e uma ETAR localizada no local de Salgueira que foi inaugurada em 1957, e desde essa altura está subdimensionada. Essa situação leva a que, em muitas situações o excesso de águas provenientes da mina e da barragem de lamas ultrapassam em muito a capacidade de tratamento de águas da ETAR, o que leva a que os excedentes (o que na maioria das situações ultrapassa o valor em tratamento), sejam libertados diretamente na ribeira do Bodelhão, afluente do rio Zêzere. A antiga escombreira localizada no Cabeço do Pião, abandonada desde 1994, encontra-se em péssimo estado de conservação quando comparada com a escombreira da Barroca Grande e conhecida como escombreira nova. Possui pouca ou nenhuma vegetação por isso a instabilidade crescente dos seus taludes, que originam frequentes deslizamentos de materiais para o rio Zêzere, que passa na base da escombreira. A velha ETAR no Cabeço do Pião, trata os caudais gerados por infiltração e águas de escorrência provocadas pela precipitação e que ficam carregadas de sulfuretos metálicos oxidados vindos da velha barragem de lamas até à base da escombreira antiga. A ETAR pelo seu estado de conservação não permite que esta trabalhe o que mostra o total abandono a que está votada, indo todo o caudal que deveria ser tratado diretamente para o rio Zêzere. A realidade demográfica explica também o esplendor e o definhamento da importância das minas nesta área, é a partir dos finais dos anos 50 do século XX, que a “febre da emigração”, assente no pressuposto que a mina deixou de atrair, implicitamente porque já estava associado o mal da mina, “Silicose”, a quem para lá fosse trabalhar. Perante esta nova realidade a ocupação do espaço rural não mais foi o mesmo. O ódio à mina contribuiu decisivamente para o abandono das aldeias e o rápido despovoamento desta área, fez com que a empresa mineira se visse na contingência de ter de contratar mão-de-obra em Cabo Verde. Desde meados dos anos 60 que a loucura da mina não mais foi a mesma. De facto olhando para os quadros com a evolução demográfica, cruzando com o conhecimento profundo deste território, podemos concluir que as minas, desde há muito tempo, deixaram de exercer uma influência capital na evolução demográfica da região, como foi entre 1930 e 1960, no entanto, e devido à crise profunda que Portugal e a Europa atravessa, em que o emprego rareia, é hoje esta mina empregadora de muitos oriundos desta área que pelos mais variados motivos regressaram às suas aldeias, mas não os suficientes para inverter a tendência de despovoamento e de um acelerado envelhecimento das populações residentes. |
|---|---|
| Main Authors: | Gonçalves, Anselmo Casimiro Ramos |
| Subject: | Mina da Panasqueira Metais pesados Ribeira do Bodelhão Rio Zêzere Impactos ambientais Panasqueira Mine Heavy metals Bodelhão brook Zêzere river Environmental impacts |
| Year: | 2015 |
| Country: | Portugal |
| Document type: | doctoral thesis |
| Access type: | open access |
| Associated institution: | Universidade de Coimbra |
| Language: | Portuguese |
| Origin: | Estudo Geral - Universidade de Coimbra |
| Summary: | abalho que aqui se apresenta tem como objetivos, avaliar as consequências ambientais e humanas decorrentes da atividade mineira que se exerce há mais de 118 anos neste troço do médio Zêzere, no centro interior de Portugal. Uma análise histórica evolutiva da atividade mineira tem como objetivo mostrar as mudanças que se foram operando na atividade, assim como nos mercados e o impacte desta nos movimentos humanos que se processaram ao longo do século XX. Não nos podemos alhear que fatores naturais, socioeconómicos e políticos explicaram e explicam o processo de abandono populacional que esta área sofreu ao longo das últimas seis décadas à qual a atividade mineira não é alheia. As áreas mineiras ativas e degradadas, sempre estiveram associadas a impactes ambientais e de cariz geotécnico e incidem de forma altamente prejudicial na segurança, na saúde pública e na sustentabilidade dos ecossistemas envolventes. Esses impactes agravam-se de forma extremamente negativa quando as minas e as suas infraestruturas são abandonadas sem manutenção e sem qualquer tipo de gestão das escombreiras. Portugal, país com longa tradição mineira tem presentemente 174 áreas mineiras abandonadas a precisarem de uma intervenção urgente. Não podemos esquecer que já foram feitas intervenções de fundo em diversas minas abandonadas, no entanto urge intervir e reabilitar muitos outros locais. Neste trabalho incidimos a nossa atenção nos impactes ambientais e aos riscos associados à indústria mineira a lavrar próximo de um dos principais cursos de água de Portugal, estamos a falar do rio Zêzere, e as minas são as da Panasqueira. A mina da Panasqueira, sendo a maior mina produtora de volfrâmio da Europa, está em funcionamento há mais de 118 anos criando ao longo desse tempo um passivo ambiental que é hoje fonte de preocupação, de autarcas e populações dos concelhos sob sua influência (Covilhã, Fundão e Pampilhosa da Serra, Oleiros, Pedrogão Grande). A sua exploração ao longo deste tempo produziu dezenas de milhões de m3 de inertes que foram depositados em escombreiras (na Panasqueira, Barroca Grande e Cabeço do Pião), e milhões de m3 de águas residuais provenientes quer diretamente da mina, da lavaria, da ETAR – Estação de Tratamento de Águas Residuais, e das escorrências pluviais que incidem nos taludes das barragens de lamas e das escombreiras. Esta exploração pôs e põe em risco não só as aldeias que estão inseridas no couto mineiro da Panasqueira (Panasqueira, Barroca Grande, Aldeia de S. Francisco, Cabeço do Pião), como também as aldeias existentes nas proximidades do couto mineiro, que contactam com o rio Zêzere (Barroca do Zêzere, Dornelas do Zêzere, Porto de Vacas, Esteiro, Janeiro de Baixo). A escombreira dita nova, situada na Barroca Grande, suporta duas barragens de lamas (uma já encerrada) e uma ETAR localizada no local de Salgueira que foi inaugurada em 1957, e desde essa altura está subdimensionada. Essa situação leva a que, em muitas situações o excesso de águas provenientes da mina e da barragem de lamas ultrapassam em muito a capacidade de tratamento de águas da ETAR, o que leva a que os excedentes (o que na maioria das situações ultrapassa o valor em tratamento), sejam libertados diretamente na ribeira do Bodelhão, afluente do rio Zêzere. A antiga escombreira localizada no Cabeço do Pião, abandonada desde 1994, encontra-se em péssimo estado de conservação quando comparada com a escombreira da Barroca Grande e conhecida como escombreira nova. Possui pouca ou nenhuma vegetação por isso a instabilidade crescente dos seus taludes, que originam frequentes deslizamentos de materiais para o rio Zêzere, que passa na base da escombreira. A velha ETAR no Cabeço do Pião, trata os caudais gerados por infiltração e águas de escorrência provocadas pela precipitação e que ficam carregadas de sulfuretos metálicos oxidados vindos da velha barragem de lamas até à base da escombreira antiga. A ETAR pelo seu estado de conservação não permite que esta trabalhe o que mostra o total abandono a que está votada, indo todo o caudal que deveria ser tratado diretamente para o rio Zêzere. A realidade demográfica explica também o esplendor e o definhamento da importância das minas nesta área, é a partir dos finais dos anos 50 do século XX, que a “febre da emigração”, assente no pressuposto que a mina deixou de atrair, implicitamente porque já estava associado o mal da mina, “Silicose”, a quem para lá fosse trabalhar. Perante esta nova realidade a ocupação do espaço rural não mais foi o mesmo. O ódio à mina contribuiu decisivamente para o abandono das aldeias e o rápido despovoamento desta área, fez com que a empresa mineira se visse na contingência de ter de contratar mão-de-obra em Cabo Verde. Desde meados dos anos 60 que a loucura da mina não mais foi a mesma. De facto olhando para os quadros com a evolução demográfica, cruzando com o conhecimento profundo deste território, podemos concluir que as minas, desde há muito tempo, deixaram de exercer uma influência capital na evolução demográfica da região, como foi entre 1930 e 1960, no entanto, e devido à crise profunda que Portugal e a Europa atravessa, em que o emprego rareia, é hoje esta mina empregadora de muitos oriundos desta área que pelos mais variados motivos regressaram às suas aldeias, mas não os suficientes para inverter a tendência de despovoamento e de um acelerado envelhecimento das populações residentes. |
|---|