Publicação
Intimidade e desejo sexual nas relações de casal: o paradoxo da diferenciação conjugal
| Resumo: | A literatura científica tem vindo a demonstrar que uma conjugalidade satisfeita tem um papel de elevada relevância no bem-estar e na saúde física e mental dos indivíduos. A elevada taxa de divórcios tem apelado para um aumento do foco clínico e científico nas questões que impactam a viabilidade do casal. Assim, o estudo das relações de casal tem vindo a ganhar notoriedade, pelas suas aplicações e potencial impacto ao nível da prevenção e da intervenção. A literatura sobre conjugalidade reflete alguma controvérsia particularmente quanto às significações e associações entre intimidade e desejo sexual, marcada por alguma incongruência e confusão conceptual, o que se traduz em limites metodológicos, nomeadamente ao nível da construção de instrumentos psicométricos que possibilitem o seu estudo. A abordagem tradicional às problemáticas do desejo sexual tem postulado que os problemas de desejo sexual no casal, quando não relacionados com fatores orgânicos ou a psicopatologia, são fundamentalmente associados à falta de intimidade e proximidade no casal e as intervenções clínicas tem na sua maioria seguido essa linha de intervenção. No entanto, alguns clínicos, como Perel (2007) e Schnarch (2009), sugeriram, recentemente, que alguns estilos de intimidade emocional (particularmente com elevados níveis de dependência e fusão, e com baixos níveis de autonomia ou diferenciação do self) podem ser particularmente nocivos para a manutenção do desejo sexual, especialmente em relações de longo prazo, onde o desejo já não se alimenta da paixão inicial. Esta inovadora conceptualização apresenta como paradoxo essencial a ideia de que uma distância essencial – referida por Schnarch (2009) como fazendo parte do conceito de diferenciação, e, por Perel (2007), como parte do conceito de “otherness” – é essencial para um nível de intimidade que permita a sobrevivência do desejo ao longo da vida do casal. Assim, esta proposta implica que o desejo poderá ser influenciado por um fator simultaneamente individual e relacional: a diferenciação conjugal, definida como a capacidade de manter um sentido de self separado, enquanto numa relação de alta proximidade com um parceiro, espelhando o equilíbrio dinâmico entre as necessidades de autonomia ou individualidade e as necessidades de ligação ou intimidade. O conjunto de estudos apresentados nesta dissertação, pretendeu contribuir para esta área do conhecimento, através de uma análise de dados predominantemente diádica, e desvendar pistas para o desenvolvimento de recursos relacionais relativos à intimidade e desejo que possam aumentar a satisfação e a durabilidade das relações conjugais, sugerindo também linhas de intervenção para ações de prevenção, intervenção e/ou terapia conjugal. Pretendeu-se ultrapassar algumas lacunas na investigação sobre conjugalidade, desenvolvendo um estudo sistémico e desenvolvimentista, algo inovador ao nível da conceptualização dos temas e ao nível metodológico (integração de metodologias qualitativas e quantitativas; o casal, e não o indivíduo, como unidade de análise; foco em fatores que ilustram a complexidade do tema (individuais, relacionais, contextuais) e inclusão de faixas etárias frequentemente excluídas). Esta dissertação pretende acrescentar cinco contributos globais à área da investigação conjugal: 1) uma clarificação rigorosa das interligações teóricas e empíricas entre intimidade, desejo e diferenciação do self; 2) uma maior clareza relativamente às significações e dimensões de intimidade conjugal e aos seus fatores protetores e perturbadores; 3) a identificação de fatores promotores ou perturbadores do desejo sexual e da diferenciação do self, assim como as estratégias utilizadas pelos casais para a promoção do desejo e da diferenciação, e as respetivas trajetórias ao longo do tempo; 4) uma visão diádica sobre a associação entre as discrepâncias intra-casal quanto ao desejo, diferenciação do self e satisfação conjugal; e 5) um modelo que relacione e integre a diferenciação do self, o desejo sexual, a intimidade e a satisfação conjugal. Ao longo de dois estudos qualitativos e dois estudos quantitativos, diversos resultados foram contribuindo para um “mapa mental” da relação de casal. No primeiro estudo qualitativo (Capítulo II), olhámos para os dados de 33 entrevistas conjuntas a casais e identificámos as principais dimensões do construto de intimidade conjugal: autenticidade, partilha e confiança, interligadas através da privacidade, autonomia e compreensão, num modelo sistémico de intimidade que apresentamos como tendo uma organização triangular. Identificámos, ainda, neste estudo, os principais fatores protetores da intimidade, particularmente a quebra na rotina, e os seus fatores perturbadores, especialmente caracterizados por questões de limites e fronteiras com os subsistemas extra-casal (vida laboral, filhos, família de origem e rede social). Algumas diferenças de sexo foram encontradas nestes resultados. Em seguida, no segundo estudo qualitativo (Capítulo III), também através da análise das 33 entrevistas conjuntas a casais, identificámos os principais fatores percecionados pelos participantes como protetores (i.e., mudança; autonomia) ou perturbadores do desejo sexual (i.e., conflito conjugal; filhos). Foram, também, identificadas diversas estratégias através das quais os casais participantes afirmam manter nível satisfatórios de desejo sexual (i.e., inovação, partilha, autonomia, esforço) e de diferenciação do self (i.e., desenvolvimento de interesses pessoais, investir numa ligação positiva, aumentar a integridade pessoal). Como base nestas estratégias, e analisando as trajetórias de desejo e de diferenciação reportadas como típicas pelos participantes, foi proposto um modelo de desenvolvimento da diferenciação conjugal. Esta análise permitiu identificar ligeiras diferenças de sexo e, sobretudo, sublinhar a importância da mudança e questões relacionadas com o mito da espontaneidade nas relações de casal. Adicionalmente, dois estudos quantitativos foram realizados, constituindo-se como os primeiros estudos empíricos a investigarem a relação entre desejo sexual e diferenciação do self. O primeiro estudo quantitativo, apresentado no Capítulo IV, é de carácter diádico (N=33 casais), e investiga a associação entre os níveis individual e diádico do desejo, diferenciação do self e satisfação conjugal, com as discrepâncias entre parceiros relativamente a estes indicadores. Diversas hipóteses foram testadas, nomeadamente quanto à semelhança de nível individual de diferenciação do self esperada entre os parceiros, ou quanto às diferenças de sexo, entre outras. A hipótese da semelhança – a proposta de que as pessoas tenderiam a escolher parceiros com níveis de diferenciação do self semelhantes ao seu – não foi confirmada. As mulheres participantes mostraram, em média, significativamente menos desejo sexual do que os homens, tal como tem vindo a ser reportado em diversos estudos. De sublinhar que, neste estudo, a magnitude da discrepância entre parceiros do nível de diferenciação do self constitui-se como o melhor preditor do desejo sexual individual, ou seja, parceiros mais semelhantes quanto à diferenciação do self aparentam ter, em média, maior nível de desejo sexual do que os parceiros mais discrepantes quanto à diferenciação. Adicionalmente, os níveis médios conjugais de desejo sexual e de diferenciação do self foram positiva e significativamente associados a uma maior satisfação conjugal. Por último, o segundo estudo quantitativo, apresentado no Capítulo V, foi conduzido com base numa amostra de 438 participantes que, embora fazendo parte de uma relação de casal, preencheram o protocolo (online) a título individual. Com base em propostas anteriores e em alguns resultados já reportados neste projeto, é feita uma proposta de modelo que explique, através do desejo sexual e da intimidade, a influência da diferenciação do self na satisfação do casal. Através de análises estruturais, o modelo proposto foi sustentado pelos dados, sugerindo que a diferenciação do self é um preditor do desejo, intimidade e satisfação no casal. O desejo sexual desempenhou um papel mediador, assim como a intimidade. Algumas importantes diferenças de sexo foram encontradas, já que, embora o modelo tenha sido preservado praticamente na sua totalidade para os participantes femininos, para os homens, a diferenciação do self apenas se revelou um preditor adequado da satisfação conjugal. Adicionalmente, ainda para os homens, o desejo sexual não teve um papel mediador, sendo a intimidade um mediador integral da relação entre desejo sexual e satisfação conjugal. Em suma, com esta investigação pretende-se contribuir para a intervenção e investigação na área da psicologia do casal, com destaque para o papel central da diferenciação conjugal como mecanismo regulador das necessidades de ligação e de autonomia dos parceiros conjugais, e para o papel determinante das noções de alteridade, inovação e agência (agency) na vida de casal. Estre trabalho reveste-se de diversas limitações metodológicas, tais como a sua natureza transversal ou questões específicas relativas aos instrumentos psicométricos utlizados. No entanto, sugere também diversas pistas para a intervenção e a prevenção no casal, assim como para a continuidade da investigação futura nesta área. |
|---|---|
| Autores principais: | Ferreira, Luana Cunha das Neves Teixeira |
| Assunto: | relações de casal intimidade e desejo sexual |
| Ano: | 2013 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Coimbra |
| Idioma: | português |
| Origem: | Estudo Geral - Universidade de Coimbra |
| Resumo: | A literatura científica tem vindo a demonstrar que uma conjugalidade satisfeita tem um papel de elevada relevância no bem-estar e na saúde física e mental dos indivíduos. A elevada taxa de divórcios tem apelado para um aumento do foco clínico e científico nas questões que impactam a viabilidade do casal. Assim, o estudo das relações de casal tem vindo a ganhar notoriedade, pelas suas aplicações e potencial impacto ao nível da prevenção e da intervenção. A literatura sobre conjugalidade reflete alguma controvérsia particularmente quanto às significações e associações entre intimidade e desejo sexual, marcada por alguma incongruência e confusão conceptual, o que se traduz em limites metodológicos, nomeadamente ao nível da construção de instrumentos psicométricos que possibilitem o seu estudo. A abordagem tradicional às problemáticas do desejo sexual tem postulado que os problemas de desejo sexual no casal, quando não relacionados com fatores orgânicos ou a psicopatologia, são fundamentalmente associados à falta de intimidade e proximidade no casal e as intervenções clínicas tem na sua maioria seguido essa linha de intervenção. No entanto, alguns clínicos, como Perel (2007) e Schnarch (2009), sugeriram, recentemente, que alguns estilos de intimidade emocional (particularmente com elevados níveis de dependência e fusão, e com baixos níveis de autonomia ou diferenciação do self) podem ser particularmente nocivos para a manutenção do desejo sexual, especialmente em relações de longo prazo, onde o desejo já não se alimenta da paixão inicial. Esta inovadora conceptualização apresenta como paradoxo essencial a ideia de que uma distância essencial – referida por Schnarch (2009) como fazendo parte do conceito de diferenciação, e, por Perel (2007), como parte do conceito de “otherness” – é essencial para um nível de intimidade que permita a sobrevivência do desejo ao longo da vida do casal. Assim, esta proposta implica que o desejo poderá ser influenciado por um fator simultaneamente individual e relacional: a diferenciação conjugal, definida como a capacidade de manter um sentido de self separado, enquanto numa relação de alta proximidade com um parceiro, espelhando o equilíbrio dinâmico entre as necessidades de autonomia ou individualidade e as necessidades de ligação ou intimidade. O conjunto de estudos apresentados nesta dissertação, pretendeu contribuir para esta área do conhecimento, através de uma análise de dados predominantemente diádica, e desvendar pistas para o desenvolvimento de recursos relacionais relativos à intimidade e desejo que possam aumentar a satisfação e a durabilidade das relações conjugais, sugerindo também linhas de intervenção para ações de prevenção, intervenção e/ou terapia conjugal. Pretendeu-se ultrapassar algumas lacunas na investigação sobre conjugalidade, desenvolvendo um estudo sistémico e desenvolvimentista, algo inovador ao nível da conceptualização dos temas e ao nível metodológico (integração de metodologias qualitativas e quantitativas; o casal, e não o indivíduo, como unidade de análise; foco em fatores que ilustram a complexidade do tema (individuais, relacionais, contextuais) e inclusão de faixas etárias frequentemente excluídas). Esta dissertação pretende acrescentar cinco contributos globais à área da investigação conjugal: 1) uma clarificação rigorosa das interligações teóricas e empíricas entre intimidade, desejo e diferenciação do self; 2) uma maior clareza relativamente às significações e dimensões de intimidade conjugal e aos seus fatores protetores e perturbadores; 3) a identificação de fatores promotores ou perturbadores do desejo sexual e da diferenciação do self, assim como as estratégias utilizadas pelos casais para a promoção do desejo e da diferenciação, e as respetivas trajetórias ao longo do tempo; 4) uma visão diádica sobre a associação entre as discrepâncias intra-casal quanto ao desejo, diferenciação do self e satisfação conjugal; e 5) um modelo que relacione e integre a diferenciação do self, o desejo sexual, a intimidade e a satisfação conjugal. Ao longo de dois estudos qualitativos e dois estudos quantitativos, diversos resultados foram contribuindo para um “mapa mental” da relação de casal. No primeiro estudo qualitativo (Capítulo II), olhámos para os dados de 33 entrevistas conjuntas a casais e identificámos as principais dimensões do construto de intimidade conjugal: autenticidade, partilha e confiança, interligadas através da privacidade, autonomia e compreensão, num modelo sistémico de intimidade que apresentamos como tendo uma organização triangular. Identificámos, ainda, neste estudo, os principais fatores protetores da intimidade, particularmente a quebra na rotina, e os seus fatores perturbadores, especialmente caracterizados por questões de limites e fronteiras com os subsistemas extra-casal (vida laboral, filhos, família de origem e rede social). Algumas diferenças de sexo foram encontradas nestes resultados. Em seguida, no segundo estudo qualitativo (Capítulo III), também através da análise das 33 entrevistas conjuntas a casais, identificámos os principais fatores percecionados pelos participantes como protetores (i.e., mudança; autonomia) ou perturbadores do desejo sexual (i.e., conflito conjugal; filhos). Foram, também, identificadas diversas estratégias através das quais os casais participantes afirmam manter nível satisfatórios de desejo sexual (i.e., inovação, partilha, autonomia, esforço) e de diferenciação do self (i.e., desenvolvimento de interesses pessoais, investir numa ligação positiva, aumentar a integridade pessoal). Como base nestas estratégias, e analisando as trajetórias de desejo e de diferenciação reportadas como típicas pelos participantes, foi proposto um modelo de desenvolvimento da diferenciação conjugal. Esta análise permitiu identificar ligeiras diferenças de sexo e, sobretudo, sublinhar a importância da mudança e questões relacionadas com o mito da espontaneidade nas relações de casal. Adicionalmente, dois estudos quantitativos foram realizados, constituindo-se como os primeiros estudos empíricos a investigarem a relação entre desejo sexual e diferenciação do self. O primeiro estudo quantitativo, apresentado no Capítulo IV, é de carácter diádico (N=33 casais), e investiga a associação entre os níveis individual e diádico do desejo, diferenciação do self e satisfação conjugal, com as discrepâncias entre parceiros relativamente a estes indicadores. Diversas hipóteses foram testadas, nomeadamente quanto à semelhança de nível individual de diferenciação do self esperada entre os parceiros, ou quanto às diferenças de sexo, entre outras. A hipótese da semelhança – a proposta de que as pessoas tenderiam a escolher parceiros com níveis de diferenciação do self semelhantes ao seu – não foi confirmada. As mulheres participantes mostraram, em média, significativamente menos desejo sexual do que os homens, tal como tem vindo a ser reportado em diversos estudos. De sublinhar que, neste estudo, a magnitude da discrepância entre parceiros do nível de diferenciação do self constitui-se como o melhor preditor do desejo sexual individual, ou seja, parceiros mais semelhantes quanto à diferenciação do self aparentam ter, em média, maior nível de desejo sexual do que os parceiros mais discrepantes quanto à diferenciação. Adicionalmente, os níveis médios conjugais de desejo sexual e de diferenciação do self foram positiva e significativamente associados a uma maior satisfação conjugal. Por último, o segundo estudo quantitativo, apresentado no Capítulo V, foi conduzido com base numa amostra de 438 participantes que, embora fazendo parte de uma relação de casal, preencheram o protocolo (online) a título individual. Com base em propostas anteriores e em alguns resultados já reportados neste projeto, é feita uma proposta de modelo que explique, através do desejo sexual e da intimidade, a influência da diferenciação do self na satisfação do casal. Através de análises estruturais, o modelo proposto foi sustentado pelos dados, sugerindo que a diferenciação do self é um preditor do desejo, intimidade e satisfação no casal. O desejo sexual desempenhou um papel mediador, assim como a intimidade. Algumas importantes diferenças de sexo foram encontradas, já que, embora o modelo tenha sido preservado praticamente na sua totalidade para os participantes femininos, para os homens, a diferenciação do self apenas se revelou um preditor adequado da satisfação conjugal. Adicionalmente, ainda para os homens, o desejo sexual não teve um papel mediador, sendo a intimidade um mediador integral da relação entre desejo sexual e satisfação conjugal. Em suma, com esta investigação pretende-se contribuir para a intervenção e investigação na área da psicologia do casal, com destaque para o papel central da diferenciação conjugal como mecanismo regulador das necessidades de ligação e de autonomia dos parceiros conjugais, e para o papel determinante das noções de alteridade, inovação e agência (agency) na vida de casal. Estre trabalho reveste-se de diversas limitações metodológicas, tais como a sua natureza transversal ou questões específicas relativas aos instrumentos psicométricos utlizados. No entanto, sugere também diversas pistas para a intervenção e a prevenção no casal, assim como para a continuidade da investigação futura nesta área. |
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