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A biodiversidade do Rio Maçãs (NE Portugal): Implicações biológicas da introdução de espécies exóticas invasoras

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Detalhes bibliográficos
Resumo:As alterações globais no planeta são grandemente responsáveis pela perda de biodiversidade e em particular nos ecossistemas aquáticos, tidos como extremamente vulneráveis. Para além das alterações climáticas, são várias as pressões e ameaças à biodiversidade e integridade ecológica, como a poluição e eutrofização da água, a fragmentação de habitats, a degradação do ecótono ripário e a introdução de espécies exóticas. O objetivo principal do presente estudo consistiu no estudo da biodiversidade aquática e ribeirinha do troço final do rio Maçãs (bacia do Rio Douro), situado em Portugal. Assim, na primavera de 2023 foi monitorizada a qualidade bioecológica do sistema aquático através da amostragem de 10 locais, espacialmente distribuídos desde a fronteira até à foz com o rio Sabor (40 Kms de extensão). Relativamente ao elemento biológico, a maioria dos locais amostrados apresentaram para a comunidade de macroinvertebrados uma boa/excelente qualidade, baseado em várias métricas (e.g., diversidade H’ Shannon-Wienner, F-IBIP - Índice Piscícola de Integridade Biótica para Rios Vadeáveis de Portugal Continental, IPTIN - Índice Português de Invertebrados do Norte, entre outras) embora mereça destaque a presença assinalável de EEI - espécies exóticas e invasoras (e.g. Procambarus clarkii, Pacifastacus leniusculus, Corbicula fluminea) que paulatinamente têm vindo a aumentar a sua densidade e provocar alterações significativas no funcionamento do ecossistema aquático. No que respeita à comunidade de peixes, a qualidade determinada foi alarmante para a maioria dos locais, i.e., bem abaixo do nível BOM exigido pela DQA - Diretiva Quadro da Água, assinalando-se a influência negativa de barreiras (e.g. açudes), períodos de seca prolongados e a presença massiva de EEI (e.g. especialmente Lepomis gibbosus, mas também outras espécies como Alburnus alburnus, Micropterus salmoides). Neste enquadramento, é de crer num futuro próximo que outras EEI possam colonizar o Rio Maçãs (e.g. Rutilus rutilus, Sander lucioperca, Esox lucius), provenientes da albufeira do Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor e contribuir para a diminuição ou extinção das espécies nativas presentes. Com efeito, para além dos endemismos ibéricos conhecidos, caso de Squalius alburnoides, Squalius carolitertii, Pseudochondrostoma duriense e Luciobarbus bocagei, foi recentemente descrita uma nova espécie, Achondrostoma asturicense, presente nas bacias dos rios Sabor (Maçãs e Angueira) e Tua, que recebeu, entretanto, o estatuto de ameaça Em Perigo (EN) pela última revisão do Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental (2023). Contudo, relativamente aos elementos de suporte, nomeadamente a qualidade da água e da hidromorfologia mostraram, globalmente, uma boa/razoável qualidade físico- química da água, embora as métricas hidromorfológicas (e.g. índices GQC – Grau de Qualidade do Canal e QBR – Bosque Ribeirinho) tenham assinalado locais com maior degradação do canal e da galeria ripícola, com destaque para a presença de vários açudes e a elevada mortalidade de Alnus lusitanica. Relativamente à biodiversidade da fauna ribeirinha, foram usados métodos complementares que envolveram a foto-armadilhagem, o uso de armadilhas terrestres e aquáticas e a procura de indícios de presença (pegadas e excrementos) que globalmente permitiram identificar, durante 15 dias (novembro e dezembro de 2022) e em dois setores (15 Kms de extensão), vários animais selvagens, distribuídos por diferentes grupos faunísticos, i.e., répteis (Mauremys leprosa e Natrix astreptophora), anfíbios (Rana iberica), aves (Garrulus garrulus, Ardea cinerea, Corvus corone, Prunella modularis, Turdus merula, Erithacus rubecula e Columba palumbus) e mamíferos (Genetta genetta, Martes foina, Sus scrofa, Vulpes vulpes, Apodemus sylvaticus, Capreolus capreolus, Lutra lutra e Neovison vison). Especial atenção foi dada à recente introdução do mustelídeo exótico e invasor, o visão-americano, e à contribuição para o conhecimento da sua distribuição no Rio Maçãs e consequente eliminação dos exemplares capturados (apenas um), de acordo com a legislação vigente. Confirmou-se que esta espécie já colonizou todo o troço final do rio Maçãs com registos de abundância superior na proximidade de infraestruturas contruídas pelo homem, caso de açudes rústicos de pedra, onde encontra locais adequados para refúgio e reprodução. O baixo número de excrementos de visão-americano recolhidos não permitiu fazer uma análise detalhada da dieta desta espécie. No caso da lontra observou-se uma dieta maioritariamente composta por lagostins exóticos. De facto, a abundância destas presas no rio Maçãs, faz pressupor que esta fonte de alimento promoverá, no futuro, o crescimento da população de visão- americano e consequente dispersão na rede hídrica. A área de estudo faz parte da Zona Especial de Conservação (ZEC) Rios Sabor e Maçãs e da Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica, pelo que justifica a implementação de medidas de conservação orientadas para a mitigação de impactes negativos, entre eles para o controlo continuado de EEI, nomeadamente em habitats prioritários, de modo a assegurar a preservação dos ecossistemas aquáticos e ribeirinhos e dos valores naturais da região.
Autores principais:Flores, Sérgio Tiago Moreira
Assunto:Espécies exóticas invasoras Ameaças de rios Integridade Ecológica Gestão de ecossistemas
Ano:2023
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Instituto Politécnico de Bragança
Idioma:português
Origem:Biblioteca Digital do IPB
Descrição
Resumo:As alterações globais no planeta são grandemente responsáveis pela perda de biodiversidade e em particular nos ecossistemas aquáticos, tidos como extremamente vulneráveis. Para além das alterações climáticas, são várias as pressões e ameaças à biodiversidade e integridade ecológica, como a poluição e eutrofização da água, a fragmentação de habitats, a degradação do ecótono ripário e a introdução de espécies exóticas. O objetivo principal do presente estudo consistiu no estudo da biodiversidade aquática e ribeirinha do troço final do rio Maçãs (bacia do Rio Douro), situado em Portugal. Assim, na primavera de 2023 foi monitorizada a qualidade bioecológica do sistema aquático através da amostragem de 10 locais, espacialmente distribuídos desde a fronteira até à foz com o rio Sabor (40 Kms de extensão). Relativamente ao elemento biológico, a maioria dos locais amostrados apresentaram para a comunidade de macroinvertebrados uma boa/excelente qualidade, baseado em várias métricas (e.g., diversidade H’ Shannon-Wienner, F-IBIP - Índice Piscícola de Integridade Biótica para Rios Vadeáveis de Portugal Continental, IPTIN - Índice Português de Invertebrados do Norte, entre outras) embora mereça destaque a presença assinalável de EEI - espécies exóticas e invasoras (e.g. Procambarus clarkii, Pacifastacus leniusculus, Corbicula fluminea) que paulatinamente têm vindo a aumentar a sua densidade e provocar alterações significativas no funcionamento do ecossistema aquático. No que respeita à comunidade de peixes, a qualidade determinada foi alarmante para a maioria dos locais, i.e., bem abaixo do nível BOM exigido pela DQA - Diretiva Quadro da Água, assinalando-se a influência negativa de barreiras (e.g. açudes), períodos de seca prolongados e a presença massiva de EEI (e.g. especialmente Lepomis gibbosus, mas também outras espécies como Alburnus alburnus, Micropterus salmoides). Neste enquadramento, é de crer num futuro próximo que outras EEI possam colonizar o Rio Maçãs (e.g. Rutilus rutilus, Sander lucioperca, Esox lucius), provenientes da albufeira do Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor e contribuir para a diminuição ou extinção das espécies nativas presentes. Com efeito, para além dos endemismos ibéricos conhecidos, caso de Squalius alburnoides, Squalius carolitertii, Pseudochondrostoma duriense e Luciobarbus bocagei, foi recentemente descrita uma nova espécie, Achondrostoma asturicense, presente nas bacias dos rios Sabor (Maçãs e Angueira) e Tua, que recebeu, entretanto, o estatuto de ameaça Em Perigo (EN) pela última revisão do Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental (2023). Contudo, relativamente aos elementos de suporte, nomeadamente a qualidade da água e da hidromorfologia mostraram, globalmente, uma boa/razoável qualidade físico- química da água, embora as métricas hidromorfológicas (e.g. índices GQC – Grau de Qualidade do Canal e QBR – Bosque Ribeirinho) tenham assinalado locais com maior degradação do canal e da galeria ripícola, com destaque para a presença de vários açudes e a elevada mortalidade de Alnus lusitanica. Relativamente à biodiversidade da fauna ribeirinha, foram usados métodos complementares que envolveram a foto-armadilhagem, o uso de armadilhas terrestres e aquáticas e a procura de indícios de presença (pegadas e excrementos) que globalmente permitiram identificar, durante 15 dias (novembro e dezembro de 2022) e em dois setores (15 Kms de extensão), vários animais selvagens, distribuídos por diferentes grupos faunísticos, i.e., répteis (Mauremys leprosa e Natrix astreptophora), anfíbios (Rana iberica), aves (Garrulus garrulus, Ardea cinerea, Corvus corone, Prunella modularis, Turdus merula, Erithacus rubecula e Columba palumbus) e mamíferos (Genetta genetta, Martes foina, Sus scrofa, Vulpes vulpes, Apodemus sylvaticus, Capreolus capreolus, Lutra lutra e Neovison vison). Especial atenção foi dada à recente introdução do mustelídeo exótico e invasor, o visão-americano, e à contribuição para o conhecimento da sua distribuição no Rio Maçãs e consequente eliminação dos exemplares capturados (apenas um), de acordo com a legislação vigente. Confirmou-se que esta espécie já colonizou todo o troço final do rio Maçãs com registos de abundância superior na proximidade de infraestruturas contruídas pelo homem, caso de açudes rústicos de pedra, onde encontra locais adequados para refúgio e reprodução. O baixo número de excrementos de visão-americano recolhidos não permitiu fazer uma análise detalhada da dieta desta espécie. No caso da lontra observou-se uma dieta maioritariamente composta por lagostins exóticos. De facto, a abundância destas presas no rio Maçãs, faz pressupor que esta fonte de alimento promoverá, no futuro, o crescimento da população de visão- americano e consequente dispersão na rede hídrica. A área de estudo faz parte da Zona Especial de Conservação (ZEC) Rios Sabor e Maçãs e da Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica, pelo que justifica a implementação de medidas de conservação orientadas para a mitigação de impactes negativos, entre eles para o controlo continuado de EEI, nomeadamente em habitats prioritários, de modo a assegurar a preservação dos ecossistemas aquáticos e ribeirinhos e dos valores naturais da região.