Publicação
Infocomunicação e plataformas digitais na economia de partilha: um estudo multicasos sobre a confiança em contextos sustentáveis
| Resumo: | Esta investigação analisa a emergência de relações de confiança e participação digitalmente mediadas na partilha de bens e serviços, para propor boas práticas infocomunicacionais no âmbito de uma cultura colaborativa em rede. Considerou-se a confiança e os interesses partilhados entre utilizadores das plataformas digitais Volunteers Base, The Poosh e WWOOF Portugal, no intercâmbio de habilidades e conhecimentos na partilha de estilos de vida, neste caso, baseados em uma cultura sustentável. Investigou-se, portanto, as experiências de partilha entre quem se oferece para trabalhar como voluntário, sem remuneração monetária, num contexto em que deseja adquirir determinadas competências, conviver e expandir os seus contatos, e um anfitrião disposto a ensinar, acomodar e receber ajuda em seu espaço social para efetivar tal aprendizagem. A natureza qualitativa fundamentou os métodos e as técnicas de coleta e interpretação dos dados, apurados a partir da observação em três plataformas digitais, análise de conteúdo de 104 perfis de anfitriões, inquérito aplicado com 110 voluntários e colaboração de 11 experts. As plataformas digitais da economia de partilha, por sua vez, esforçam-se para mediar as relações entre utilizadores por meio de um sistema infocomunicacional, capaz não apenas de dispor uma listagem de utilizadores, mas, sobretudo, com informações, ferramentas e mecanismos que inspirem confiança entre os utilizadores. Imbricada à mediação realizada pelas plataformas digitais, no tocante às ferramentas e aos recursos disponíveis, está também a forma como estas experiências de partilha estão sendo promovidas e o grau de comprometimento destas organizações com os seus utilizadores. O facto de uma transação de troca, venda, aluguer ou doação acontecer entre pares (diretamente entre os atores da economia de partilha e mesmo sem a intermediação de uma empresa), modifica a lógica processual do consumo, mas não elimina os interesses organizacionais. Todavia, acredita-se na existência de organizações que realmente se esforçam para permitir uma melhor utilização de recursos (tecnológicos, sociais ou ambientais) e, consequentemente, práticas mais sustentáveis. De uma forma geral, as plataformas digitais investigadas gerem os seus conteúdos de forma a garantir o acesso aberto da informação aos utilizadores, ao mesmo tempo que procuram minimamente assegurar os dados e a privacidade. A segurança dos utilizadores é uma das principais questões levantadas sob a perspetiva da confiança na plataforma digital. Entretanto, para além dos artefatos da plataforma digital, é também a cultura da participação fomentada pelos aspetos sociais comuns aos voluntários e anfitriões que torna a confiança algo imprescindível na partilha de estilos de vida colaborativos. A construção da confiança neste âmbito tem como ponto de partida a expetativa de uma reciprocidade, compactuada por estranhos que buscam experienciar um modo de viver a partir de uma troca e partilha não mercantilizadas. Apesar deste tipo de partilha ainda parecer excêntrico para alguns, para outros esta possibilidade faz parte de um processo de aprendizagem e formação de vínculos ético-sociais. A reciprocidade entre estes utilizadores é assinalada a partir de vários indicadores interpessoais, cognitivos e subjetivos. A partir disto, percebe-se a formação implícita de um pacto social entre os atores envolvidos, pautado no ensino e na aprendizagem de competências ligadas à sustentabilidade e reforçado pelas experiências de partilha mediadas em rede. A confiança pode ser assim construída numa dimensão relacional e estrutural nas experiências de partilha de estilos de vida colaborativos, por meio de um senso mantido pela comunidade de voluntários e anfitriões e respaldado pelas plataformas digitais desenhadas para o efeito. Diante disto, a proposta de boas práticas infocomunicacionais no âmbito de uma cultura colaborativa em rede foi estratégica, no sentido de poder explorar as suas melhores dinâmicas e condições sociotécnicas. Esse constructo foi fundamentado por um conjunto de 16 diretrizes propostas para o bom êxito das práticas de partilha. Esperase que esta investigação, diante da evidência de um ethos colaborativo, possa promover uma cultura participativa de boas práticas digitais, fomentando o cruzamento entre as discussões académicas, as políticas das plataformas analisadas e as instituições interessadas. |
|---|---|
| Autores principais: | Sales, Raissa Karen Leitinho |
| Assunto: | Infocomunicação Plataformas digitais Economia de partilha Cultura da participação Consumo colaborativo Confiança |
| Ano: | 2021 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Aveiro |
| Idioma: | português |
| Origem: | RIA - Repositório Institucional da Universidade de Aveiro |
| Resumo: | Esta investigação analisa a emergência de relações de confiança e participação digitalmente mediadas na partilha de bens e serviços, para propor boas práticas infocomunicacionais no âmbito de uma cultura colaborativa em rede. Considerou-se a confiança e os interesses partilhados entre utilizadores das plataformas digitais Volunteers Base, The Poosh e WWOOF Portugal, no intercâmbio de habilidades e conhecimentos na partilha de estilos de vida, neste caso, baseados em uma cultura sustentável. Investigou-se, portanto, as experiências de partilha entre quem se oferece para trabalhar como voluntário, sem remuneração monetária, num contexto em que deseja adquirir determinadas competências, conviver e expandir os seus contatos, e um anfitrião disposto a ensinar, acomodar e receber ajuda em seu espaço social para efetivar tal aprendizagem. A natureza qualitativa fundamentou os métodos e as técnicas de coleta e interpretação dos dados, apurados a partir da observação em três plataformas digitais, análise de conteúdo de 104 perfis de anfitriões, inquérito aplicado com 110 voluntários e colaboração de 11 experts. As plataformas digitais da economia de partilha, por sua vez, esforçam-se para mediar as relações entre utilizadores por meio de um sistema infocomunicacional, capaz não apenas de dispor uma listagem de utilizadores, mas, sobretudo, com informações, ferramentas e mecanismos que inspirem confiança entre os utilizadores. Imbricada à mediação realizada pelas plataformas digitais, no tocante às ferramentas e aos recursos disponíveis, está também a forma como estas experiências de partilha estão sendo promovidas e o grau de comprometimento destas organizações com os seus utilizadores. O facto de uma transação de troca, venda, aluguer ou doação acontecer entre pares (diretamente entre os atores da economia de partilha e mesmo sem a intermediação de uma empresa), modifica a lógica processual do consumo, mas não elimina os interesses organizacionais. Todavia, acredita-se na existência de organizações que realmente se esforçam para permitir uma melhor utilização de recursos (tecnológicos, sociais ou ambientais) e, consequentemente, práticas mais sustentáveis. De uma forma geral, as plataformas digitais investigadas gerem os seus conteúdos de forma a garantir o acesso aberto da informação aos utilizadores, ao mesmo tempo que procuram minimamente assegurar os dados e a privacidade. A segurança dos utilizadores é uma das principais questões levantadas sob a perspetiva da confiança na plataforma digital. Entretanto, para além dos artefatos da plataforma digital, é também a cultura da participação fomentada pelos aspetos sociais comuns aos voluntários e anfitriões que torna a confiança algo imprescindível na partilha de estilos de vida colaborativos. A construção da confiança neste âmbito tem como ponto de partida a expetativa de uma reciprocidade, compactuada por estranhos que buscam experienciar um modo de viver a partir de uma troca e partilha não mercantilizadas. Apesar deste tipo de partilha ainda parecer excêntrico para alguns, para outros esta possibilidade faz parte de um processo de aprendizagem e formação de vínculos ético-sociais. A reciprocidade entre estes utilizadores é assinalada a partir de vários indicadores interpessoais, cognitivos e subjetivos. A partir disto, percebe-se a formação implícita de um pacto social entre os atores envolvidos, pautado no ensino e na aprendizagem de competências ligadas à sustentabilidade e reforçado pelas experiências de partilha mediadas em rede. A confiança pode ser assim construída numa dimensão relacional e estrutural nas experiências de partilha de estilos de vida colaborativos, por meio de um senso mantido pela comunidade de voluntários e anfitriões e respaldado pelas plataformas digitais desenhadas para o efeito. Diante disto, a proposta de boas práticas infocomunicacionais no âmbito de uma cultura colaborativa em rede foi estratégica, no sentido de poder explorar as suas melhores dinâmicas e condições sociotécnicas. Esse constructo foi fundamentado por um conjunto de 16 diretrizes propostas para o bom êxito das práticas de partilha. Esperase que esta investigação, diante da evidência de um ethos colaborativo, possa promover uma cultura participativa de boas práticas digitais, fomentando o cruzamento entre as discussões académicas, as políticas das plataformas analisadas e as instituições interessadas. |
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