| Resumo: | Em Portugal, como em muitos outros países europeus, existe uma divisão entre a creche, destinada a crianças até aos três anos (onde ainda se coloca uma forte ênfase no cuidado, numa perspetiva mais assistencialista), e o jardim de infância, para crianças entre os três anos e a entrada na escola (onde a componente educativa é mais valorizada). A creche, sob a responsabilidade da Segurança Social, orienta-se por um modelo de qualidade assente numa lógica comercial de prestação de serviços, distante das necessidades de avaliação contínua das práticas pedagógicas e dos seus efeitos sobre as crianças. Diversos autores têm-se posicionado a favor de perspetivas de avaliação mais autênticas e genuínas no contexto da educação de infância, sendo a abordagem da qualidade ancorada na educação experiencial uma das que cumpre estes requisitos, valorizando a experiência interna da criança e a sua relação com o contexto. Partindo deste enquadramento, desenvolveu-se um estudo qualitativo com o objetivo de testar, aperfeiçoar e divulgar o CRECHEndo, uma ferramenta de avaliação das práticas educativas em creche. Pressupõe-se que a utilização de uma ferramenta de acompanhamento e avaliação deste tipo poderá promover a reflexão e a melhoria das práticas educativas de educadores de infância a trabalhar em contexto de creche. O estudo desenvolvido divide-se em duas fases. Na primeira fase, decorreu o acompanhamento, durante um ano letivo, de oito casos ao longo do processo de utilização do CRECHEndo por um educador de infância de creche no seu contexto de trabalho. Na segunda fase do estudo, mais quatro educadores aplicaram o CRECHEndo, desta vez, de forma autónoma. A recolha documental, a observação participante, a entrevista e o questionário foram as principais técnicas de recolha de dados utilizadas. Os resultados mostram que, de um modo geral, os educadores de infância têm dificuldades na implementação de estratégias articuladas de observação, registo, reflexão e planificação. Persistem estratégias de avaliação pouco consistentes e pouco autênticas e sobressaem ainda conceções muito conservadoras sobre a criança e sobre o trabalho em creche. Algumas caraterísticas pessoais, interpessoais e institucionais podem facilitar ou dificultar a utilização do CRECHEndo que, quando utilizado de forma reflexiva e integrada, pode contribuir para a melhoria das práticas educativas, ao suscitar novas formas de olhar e pensar sobre o contexto e sobre a criança, e ao ajudar na sistematização e organização dos processos de observação, reflexão, planificação e ação. |