| Resumo: | A melhoria da perceção de sons de uma segunda língua (L2) na sequência de treino percetivo é um efeito bem documentado na literatura (Bohn, 2018; Sakai & Moorman, 2017). São conhecidas as dificuldades sentidas por aprendentes chineses na perceção e produção de sons oclusivos do Português Europeu (PE) (Oliveira & Rato, 2019; Shu, Rato, & Flores, 2015). No entanto, o impacto do treino percetivo na identificação destes sons por falantes nativos de Mandarim ainda não foi testado. Além disso, tem sido demonstrado que, de entre as diversas especificações do treino, a utilização de realizações variáveis dos sons-alvo (high variability phonetic training – HVPT) é eficaz na produção de conhecimento fonológico robusto (Bradlow, Pisoni, Akahane-Yamada, & Tohkura, 1997; Lively, Pisoni, Yamada, Tohkura, & Yamada, 1994). Alega-se frequentemente que a eficácia do HVPT se deve ao facto de a variação nas características irrelevantes dos sons-alvo estimular o aprendente a concentrar a atenção nas propriedades acústicas com função fonológica (Logan, Lively, & Pisoni, 1991). A ser válido, este argumento implica que mecanismos de atenção seletiva sejam particularmente ativados no processamento dos estímulos neste tipo de treino. Contudo, a relação entre a capacidade de atenção seletiva auditiva e o desempenho em treino HVPT não está atestada (Kim & Hazan, 2010). Assim, foram definidos como objetivos do presente estudo: 1) avaliar o efeito de treino HVPT na perceção das oclusivas bilabiais do PE (/p, b/) por aprendentes chineses; 2) analisar a relação entre o desempenho no treino percetivo e a capacidade de atenção seletiva auditiva. Trinta e quatro participantes chineses, aprendentes de PE-L2 com um nível intermédio de proficiência, foram recrutados. Os elementos do grupo experimental (n=17) realizaram uma sessão de treino HVPT, tendo a sua perceção das oclusivas bilabiais do PE sido testada antes e depois da intervenção, por meio de uma tarefa de identificação. Foi, ainda, administrada, uma tarefa de escuta dicótica para avaliação da capacidade de atenção seletiva auditiva dos participantes. Os resultados revelam que o grupo experimental melhorou significativamente a percentagem de acerto na identificação das oclusivas bilabiais do PE e manifestou capacidade de generalizar a aprendizagem a contextos vocálicos e vozes não treinados, ainda que a generalização só se tenha verificado para a oclusiva sonora, /b/. Fundamentalmente, os dados indicam que os participantes com uma capacidade de atenção seletiva auditiva mais eficiente obtiveram ganhos maiores no treino. Conclui-se que a atenção seletiva auditiva desempenha um papel importante na execução do treino HVPT de sons da L2. |