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As construções de relativização no português de Moçambique

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Resumo:Na presente tese procura-se compreender como é que se operacionaliza a relativização em orações relativas restritivas no português escrito em Moçambique. O modelo teórico adotado é a teoria dos Princípios & Parâmetros (Chomsky 1982, 1995). O corpus em análise está estratificado em função da variável Escolaridade, o que permite traçar a evolução dos padrões de produção de orações relativas ao longo do processo de escolarização. Foram contemplados quatro níveis de escolaridade: Nível A (8.ª classe); Nível B (12.ª classe); Nível C (1.º ano da universidade) e Nível D (3.º ano da universidade). Cada nível produziu 120 textos. Os resultados globais revelam que os informantes produziram 89% de orações relativas convergentes com o português europeu (PE). De um total de 815 entradas de orações relativas, foram apenas atestadas 92 (11%) ocorrências de orações relativas que podem ser consideradas divergentes da variedade culta europeia. Estes resultados mostram que há uma forte tendência para a manutenção do cânone nas construções de relativização, na escrita. No que diz respeito à forma, as relativas de cujo são as que mais desfavorecem a convergência com a norma, seguidas das relativas de onde. Os dados disponíveis sobre as relativas restritivas resuntivas no PE mostram que estas construções ocorrem com o morfema que. No PM, o leque de morfemas que introduzem estas orações é alargado aos morfemas cujo e onde. Registaram-se orações relativas genitivas em que o morfema cujo ocorre com determinante definido e com o pronome possessivo. Estes fenómenos também são atestados no PE, pelo que não é possível afirmar que configurem um processo de mudança típico do PM. Trata-se antes de problemas que decorrem do facto de as relativas de cujo pertencerem a um registo formal da língua sendo exclusivamente aprendidas em contexto escolar, fortemente associadas à língua escrita. Os problemas detetados decorrem, assim, de processos gerais, que afetam diferentes variedades do português de modo semelhante. O morfema onde, no corpus, pode desempenhar as funções sintáticas de sujeito, complemento direto e genitivo, funções com as quais não está associado no PE. No corpus, a pró-forma cujo pode desempenhar as funções sintáticas de sujeito e de complemento direto. Propõe-se que os morfemas cujo e onde, em casos em que não são genitivo e locativo, sejam tratados como complementadores. Uma vez que, no PE, o morfema onde aparece exclusivamente associado a construções locativas, é plausível colocar a hipótese de a ocorrência do morfema onde como relativizador genitivo possa vir a ser uma característica do emergente PM. De uma forma geral, pode-se dizer que a escola, no contexto moçambicano, desempenha um papel preponderante na aquisição e conservação da variedade culta do português, sendo que quanto mais aumenta o nível de escolaridade, mais aumenta a possibilidade de produção de orações relativas. O processo de consolidação da aquisição de orações relativas só ocorre no ensino superior, através da escolarização.
Autores principais:Wache, Francisco Mateus António
Assunto:Relativas restritivas Processos de relativização Português de Moçambique Restrictive relative Relativization processes Mozambique Portuguese
Ano:2023
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Na presente tese procura-se compreender como é que se operacionaliza a relativização em orações relativas restritivas no português escrito em Moçambique. O modelo teórico adotado é a teoria dos Princípios & Parâmetros (Chomsky 1982, 1995). O corpus em análise está estratificado em função da variável Escolaridade, o que permite traçar a evolução dos padrões de produção de orações relativas ao longo do processo de escolarização. Foram contemplados quatro níveis de escolaridade: Nível A (8.ª classe); Nível B (12.ª classe); Nível C (1.º ano da universidade) e Nível D (3.º ano da universidade). Cada nível produziu 120 textos. Os resultados globais revelam que os informantes produziram 89% de orações relativas convergentes com o português europeu (PE). De um total de 815 entradas de orações relativas, foram apenas atestadas 92 (11%) ocorrências de orações relativas que podem ser consideradas divergentes da variedade culta europeia. Estes resultados mostram que há uma forte tendência para a manutenção do cânone nas construções de relativização, na escrita. No que diz respeito à forma, as relativas de cujo são as que mais desfavorecem a convergência com a norma, seguidas das relativas de onde. Os dados disponíveis sobre as relativas restritivas resuntivas no PE mostram que estas construções ocorrem com o morfema que. No PM, o leque de morfemas que introduzem estas orações é alargado aos morfemas cujo e onde. Registaram-se orações relativas genitivas em que o morfema cujo ocorre com determinante definido e com o pronome possessivo. Estes fenómenos também são atestados no PE, pelo que não é possível afirmar que configurem um processo de mudança típico do PM. Trata-se antes de problemas que decorrem do facto de as relativas de cujo pertencerem a um registo formal da língua sendo exclusivamente aprendidas em contexto escolar, fortemente associadas à língua escrita. Os problemas detetados decorrem, assim, de processos gerais, que afetam diferentes variedades do português de modo semelhante. O morfema onde, no corpus, pode desempenhar as funções sintáticas de sujeito, complemento direto e genitivo, funções com as quais não está associado no PE. No corpus, a pró-forma cujo pode desempenhar as funções sintáticas de sujeito e de complemento direto. Propõe-se que os morfemas cujo e onde, em casos em que não são genitivo e locativo, sejam tratados como complementadores. Uma vez que, no PE, o morfema onde aparece exclusivamente associado a construções locativas, é plausível colocar a hipótese de a ocorrência do morfema onde como relativizador genitivo possa vir a ser uma característica do emergente PM. De uma forma geral, pode-se dizer que a escola, no contexto moçambicano, desempenha um papel preponderante na aquisição e conservação da variedade culta do português, sendo que quanto mais aumenta o nível de escolaridade, mais aumenta a possibilidade de produção de orações relativas. O processo de consolidação da aquisição de orações relativas só ocorre no ensino superior, através da escolarização.