| Resumo: | A democracia está sob ameaça, ou assim é dito constantemente. Quer se pense que elites políticas corruptas tomaram conta do mundo ou que a democracia representativa é uma farsa para encobrir o poder dos ricos; que a democracia envolve mais do que só igualdade política ou que qualquer tipo de governo é inerentemente opressivo; que está na altura de taxar os ricos ou que taxação é roubo; o que a democracia é e aquilo para que serve continuam a ser assuntos contestados. E assim o devem, como será argumentado aqui, pois é isso em parte que os define. Esta dissertação dirige-se tanto àqueles para quem é preciso mais democracia como àqueles para quem não. O que é tentado aqui é um exercício em teoria ideal. Não se discutem especificidades de design institucional, nem os sistemas políticos do mundo real e os seus resultados. Na verdade, é precisamente porque a política não pode ser reduzida a observações empíricas do que “funciona melhor”, que a democracia tem qualquer valor. No Capítulo I, debruçamo-nos sobre a teoria e filosofia da história de Karl Marx, sob o seu método de materialismo dialético, para avaliar as suas proposições. Demonstramos a sua ligação à dialética da razão de Hegel, para ilustrar algumas das suas contradições, e interrogar quais, se é que alguns, dos seus elementos ainda são úteis. No Capítulo II avaliamos as credenciais de individualistas metodológicos de vários tipos, na sua forma de concetualizar a sociedade, como propõem que esta pode ser entendida, e no que isso implica em termos das suas prescrições para uma melhor. Vemos de que forma alguns teóricos, apesar de contribuições inestimáveis para o pensamento político, abusaram dos seus compromissos metodológicos até a um ponto após o qual se torna difícil resgatá-los, colocando em questão, ao contrário do que eram as suas intenções, o indivíduo como um fim em si mesmo. Finalmente, no Capítulo III, atacamos a nossa pergunta de investigação, tentando reconciliar as perspetivas de materialistas históricos e individualistas metodológicos através da lente da inteligência coletiva e da razão democrática. Ao contrário de outros autores, concluímos que a democracia é valiosa não porque os seus mecanismos aproximem alguma verdade que já existe para ser descoberta, mas porque é um método para a construção da realidade social que reconcilia liberdade e igualdade. |