Publicação
O sentido comunitário e as parcerias educativas num contexto de desumanização da escola
| Resumo: | A instituição universitária é frequentemente vista e criticada pelo seu fechamento à sociedade, estando ainda muito enraizada a ideia de universidade como lugar privilegiado de produção e disseminação de conhecimento, mas que este é muito “teórico”, distante e desfasado da realidade do mundo da “prática”. Apesar das significativas mudanças que têm ocorrido no seu próprio seio, persiste a ideia de que a universidade está mais aberta ao “exterior”, mas de modo unidirecional, num sentido mais descendente do que interdependente. Com efeito, o discurso que comummente aborda a relação entre a universidade e a sociedade, desde logo a terminologia que é usada pela própria instituição – “extensão universitária”, “prestação de serviços à comunidade”, “prestação de serviços ao exterior da universidade”, etc. – não tem ajudado a desconstruir aquela conceção. Na Universidade do Minho, como noutras, a designação atualmente consagrada é “interação com a sociedade”, o que procura traduzir um sentido diferente para aquela relação ou, se quisermos, para a construção de formas mais interativas de políticas e práticas de parceria. As comunicações a que assistimos dos responsáveis do Agrupamento de Escolas de Paredes e do Agrupamentos de Escolas de Souselos mostram claramente a importância que as parcerias assumem na vida das escolas e também o reconhecimento das mesmas enquanto dispositivos de desenvolvimento organizacional, comunitário e profissional. Elas permitem “olhar para dentro” e “projetar para fora”, mas também “olhar para fora” e “projetar para dentro”. Isto porque, além do seu papel na ação educativa, as parcerias são um dos mais pertinentes analisadores da própria vida das escolas, na sua globalidade, quer na perspetiva da produção externa de conhecimento sobre as mesmas, quer na perspetiva do seu autoconhecimento reflexivo, autónomo e participado. Ainda que seja produzido com a colaboração de agentes externos, este conhecimento, assim como as mudanças que ele impulsiona e alimenta, só pode ser gerado com os atores escolares com base em relações de amizade crítica e emancipatória. Os responsáveis do Agrupamento de Escolas de Paredes relacionaram o tema das parcerias com o seu projeto educativo e o contrato de autonomia. Enunciaram que a “missão da escola” é “educar e ajudar TODAS as crianças e jovens a desenvolver os seus percursos de vida”, e defenderam os “princípios de uma escola inclusiva, isto é, de uma escola entendida como comunidade educativa que desenvolve a sua ação numa relação estreita com os demais agentes sociais, também eles responsáveis pela educação”. E sublinharam ainda a importância da valorização dos recursos existentes na comunidade e a relevância da autoavaliação das parcerias e dos seus efeitos. De igual modo, os responsáveis do Agrupamento de Escolas de Souselo, abordando o tema das parcerias a partir da “Equipa de Apoio à Integração Escolar”, deram conta de vertentes fulcrais das parcerias interinstitucionais em domínios como a prevenção e o combate ao absentismo e ao abandono escolar; o diagnóstico e a resposta a situações de risco e de perigo; a intervenção junto das famílias e o seu envolvimento na vida da escola como parceiros cooperantes e como corresponsáveis no processo educativo. A reflexão que aqui apresento não consiste num mero comentário às duas referidas comunicações, embora elas tenham constituído um bom ponto de partida. Como membro do designado "mundo académico", o posicionamento que adoto é o de um agente externo crítico que, valorizando uma atitude de escuta, procura romper com a tendência de o “académico” ser visto – e de assumir – uma figura de examinador de uma espécie de "prova oral”. Portanto, os enunciados críticos que incluo nesta reflexão são, além de autocríticos, ferramentas que considero úteis para se pensar e agir no mundo educativo com sentidos diferentes dos que têm vindo a atrofiar e a desumanizar a vida das escolas. |
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| Autores principais: | Ferreira, Fernando Ilídio |
| Assunto: | parcerias educativas desumanização da escola teoria e prática extensão universitária interação com a sociedade amizade crítica |
| Ano: | 2016 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | capítulo de livro |
| Tipo de acesso: | acesso restrito |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | A instituição universitária é frequentemente vista e criticada pelo seu fechamento à sociedade, estando ainda muito enraizada a ideia de universidade como lugar privilegiado de produção e disseminação de conhecimento, mas que este é muito “teórico”, distante e desfasado da realidade do mundo da “prática”. Apesar das significativas mudanças que têm ocorrido no seu próprio seio, persiste a ideia de que a universidade está mais aberta ao “exterior”, mas de modo unidirecional, num sentido mais descendente do que interdependente. Com efeito, o discurso que comummente aborda a relação entre a universidade e a sociedade, desde logo a terminologia que é usada pela própria instituição – “extensão universitária”, “prestação de serviços à comunidade”, “prestação de serviços ao exterior da universidade”, etc. – não tem ajudado a desconstruir aquela conceção. Na Universidade do Minho, como noutras, a designação atualmente consagrada é “interação com a sociedade”, o que procura traduzir um sentido diferente para aquela relação ou, se quisermos, para a construção de formas mais interativas de políticas e práticas de parceria. As comunicações a que assistimos dos responsáveis do Agrupamento de Escolas de Paredes e do Agrupamentos de Escolas de Souselos mostram claramente a importância que as parcerias assumem na vida das escolas e também o reconhecimento das mesmas enquanto dispositivos de desenvolvimento organizacional, comunitário e profissional. Elas permitem “olhar para dentro” e “projetar para fora”, mas também “olhar para fora” e “projetar para dentro”. Isto porque, além do seu papel na ação educativa, as parcerias são um dos mais pertinentes analisadores da própria vida das escolas, na sua globalidade, quer na perspetiva da produção externa de conhecimento sobre as mesmas, quer na perspetiva do seu autoconhecimento reflexivo, autónomo e participado. Ainda que seja produzido com a colaboração de agentes externos, este conhecimento, assim como as mudanças que ele impulsiona e alimenta, só pode ser gerado com os atores escolares com base em relações de amizade crítica e emancipatória. Os responsáveis do Agrupamento de Escolas de Paredes relacionaram o tema das parcerias com o seu projeto educativo e o contrato de autonomia. Enunciaram que a “missão da escola” é “educar e ajudar TODAS as crianças e jovens a desenvolver os seus percursos de vida”, e defenderam os “princípios de uma escola inclusiva, isto é, de uma escola entendida como comunidade educativa que desenvolve a sua ação numa relação estreita com os demais agentes sociais, também eles responsáveis pela educação”. E sublinharam ainda a importância da valorização dos recursos existentes na comunidade e a relevância da autoavaliação das parcerias e dos seus efeitos. De igual modo, os responsáveis do Agrupamento de Escolas de Souselo, abordando o tema das parcerias a partir da “Equipa de Apoio à Integração Escolar”, deram conta de vertentes fulcrais das parcerias interinstitucionais em domínios como a prevenção e o combate ao absentismo e ao abandono escolar; o diagnóstico e a resposta a situações de risco e de perigo; a intervenção junto das famílias e o seu envolvimento na vida da escola como parceiros cooperantes e como corresponsáveis no processo educativo. A reflexão que aqui apresento não consiste num mero comentário às duas referidas comunicações, embora elas tenham constituído um bom ponto de partida. Como membro do designado "mundo académico", o posicionamento que adoto é o de um agente externo crítico que, valorizando uma atitude de escuta, procura romper com a tendência de o “académico” ser visto – e de assumir – uma figura de examinador de uma espécie de "prova oral”. Portanto, os enunciados críticos que incluo nesta reflexão são, além de autocríticos, ferramentas que considero úteis para se pensar e agir no mundo educativo com sentidos diferentes dos que têm vindo a atrofiar e a desumanizar a vida das escolas. |
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