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Capitalismo, alimentação e mudança social: um estudo sobre o consumo de alimentos ultraprocessados em famílias camponesas no Agreste de Pernambuco (Brasil)

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Detalhes bibliográficos
Resumo:Esta tese tem como objetivo analisar as formas como o consumo alimentar de famílias camponesas no Brasil estruturam-se hoje, no contexto da produção e organização capitalista globalizada e suas consequências para os modos de vida e a saúde da população camponesa. A alimentação é fundamental à vida e pode ser perspectivada como um fenômeno social total, pois incorpora e reflete as dinâmica sociais e políticas que caracterizam a sociedade e o Estado. Progressivamente os mercados disponibilizam para os/as consumidores/as alimentos ultraprocessados, ou seja, formulações industriais com o propósito não apenas de complementar a alimentação, mas sobretudo de substituir alimentos in natura. O estudo foi realizado com doze famílias da agricultura familiar camponesa no município de Cumaru, localizado no agreste setentrional, semiárido pernambucano, no Brasil. Realizou-se uma pesquisa de abordagem qualitativa. Os dados foram recolhidos através de observações empíricas diretas, registros fotográficos e entrevistas semiestruturadas. As análises foram construídas tendo como referência questões/eixos temáticos da pesquisa, a partir das falas transcritas. Os resultados da investigação apontam que em Cumaru, em linha com o que ocorre noutras cidades de pequeno porte, existem mudanças na alimentação, favorecidas principalmente pelo acesso à renda, programas sociais e aumento do salário mínimo. Há uma inserção de produtos ultraprocessados no cotidiano das famílias investigadas, sobretudos os que apresentam preços mais acessíveis, especialmente em famílias mais jovens, onde há uma maior presença de crianças e jovens. Os membros familiares mais velhos preferem os alimentos que mais os aproximam da natureza, em detrimento dos produtos modernizados, como os ultraprocessados. Conclui-se que a indústria de alimentos que penetra no setor rural como expressão de desenvolvimento contemporâneo e da modernidade é a mesma que destrói conhecimentos e se opõem à agricultura familiar camponesa. Apesar desse contexto, em certa medida existe quem resiste, cultivando e criando em pequenas extensões de terra na forma de produção agroecológica, algumas com o protagonismo das mulheres. A redução do consumo de produtos ultraprocessados exige políticas públicas que interfiram no sistema agroalimentar, desde a produção, industrialização, assim como na ação dos supermercados sobre o consumo de ultraprocessados. Portanto, o Estado tem papel fundamental para a mudança no sistema de produção e igualmente na mudança no sistema de consumo.
Autores principais:Silva, Maria Zênia Tavares da
Assunto:Capitalismo Desenvolvimento Segurança alimentar Semiárido Ultraprocessados Capitalism Development Food safety Semiarid Ultra-processed
Ano:2022
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Esta tese tem como objetivo analisar as formas como o consumo alimentar de famílias camponesas no Brasil estruturam-se hoje, no contexto da produção e organização capitalista globalizada e suas consequências para os modos de vida e a saúde da população camponesa. A alimentação é fundamental à vida e pode ser perspectivada como um fenômeno social total, pois incorpora e reflete as dinâmica sociais e políticas que caracterizam a sociedade e o Estado. Progressivamente os mercados disponibilizam para os/as consumidores/as alimentos ultraprocessados, ou seja, formulações industriais com o propósito não apenas de complementar a alimentação, mas sobretudo de substituir alimentos in natura. O estudo foi realizado com doze famílias da agricultura familiar camponesa no município de Cumaru, localizado no agreste setentrional, semiárido pernambucano, no Brasil. Realizou-se uma pesquisa de abordagem qualitativa. Os dados foram recolhidos através de observações empíricas diretas, registros fotográficos e entrevistas semiestruturadas. As análises foram construídas tendo como referência questões/eixos temáticos da pesquisa, a partir das falas transcritas. Os resultados da investigação apontam que em Cumaru, em linha com o que ocorre noutras cidades de pequeno porte, existem mudanças na alimentação, favorecidas principalmente pelo acesso à renda, programas sociais e aumento do salário mínimo. Há uma inserção de produtos ultraprocessados no cotidiano das famílias investigadas, sobretudos os que apresentam preços mais acessíveis, especialmente em famílias mais jovens, onde há uma maior presença de crianças e jovens. Os membros familiares mais velhos preferem os alimentos que mais os aproximam da natureza, em detrimento dos produtos modernizados, como os ultraprocessados. Conclui-se que a indústria de alimentos que penetra no setor rural como expressão de desenvolvimento contemporâneo e da modernidade é a mesma que destrói conhecimentos e se opõem à agricultura familiar camponesa. Apesar desse contexto, em certa medida existe quem resiste, cultivando e criando em pequenas extensões de terra na forma de produção agroecológica, algumas com o protagonismo das mulheres. A redução do consumo de produtos ultraprocessados exige políticas públicas que interfiram no sistema agroalimentar, desde a produção, industrialização, assim como na ação dos supermercados sobre o consumo de ultraprocessados. Portanto, o Estado tem papel fundamental para a mudança no sistema de produção e igualmente na mudança no sistema de consumo.