| Resumo: | As substâncias per- e polifluoroalquilados (PFAS), constituem um grupo de poluentes orgânicos persistentes, amplamente distribuídos no ambiente e reconhecidos pelo seu potencial de bioacumulação e toxicidade em organismos vivos. A sua elevada estabilidade química, que os torna resistentes a processos de degradação, contribui para a sua persistência nos organismos e para a perturbação de processos fisiológicos. O presente estudo teve como principal objetivo avaliar o impacto dos PFAS, nomeadamente o ácido perfluorooctanoico (PFOA) e o sulfonato de perfluorooctano (PFOS), na microbiota intestinal humana e investigar o potencial efeito atenuador da inulina, um prebiótico amplamente estudado pela sua capacidade de promover o crescimento de bactérias benéficas e melhorar a saúde intestinal. Para tal, foram realizados diversos ensaios experimentais: i) análise da interação direta entre a inulina (de 5 a 50 mg L-1) e PFOA e PFOS (25 mg L-1), por incubação 1h a 37oC a diferentes pH (3, 5 e 7); ii) simulação in vitro da digestão gastrointestinal superior humana segundo o protocolo padronizado INFOGEST (2.0) para avaliar a estabilidade de PFOA (50 mg L-1); iii) fermentações fecais in vitro utilizando amostras de 5 dadores humanos, submetidas a diferentes condições (controlo negativo sem substrato, glucose, inulina, glucose + PFOA e inulina + PFOA). Após a fermentação procedeu-se à caracterização da comunidade microbiana por metagenómica 16S rRNA, à monitorização de parâmetros físico-químicos (pH e densidade ótica), e à quantificação dos ácidos gordos de cadeia curta (AGCC) por HPLC. Os resultados evidenciaram interações físico-químicas entre PFAS e inulina, as quais aumentaram proporcionalmente à concentração de inulina e foram mais pronunciadas em condições de pH ácido, removendo até 99% de PFOS do meio, sugerindo a presença de uma componente eletrostática na sua ligação. O PFOA mostrou-se extremamente resistente à degradação ao longo das diferentes fases do sistema digestivo simulado, mantendo concentrações praticamente inalteradas. Nas fermentações fecais, a presença de PFOA induziu uma disbiose na microbiota, com uma diminuição de géneros benéficos como Bifidobacterium e Ligilactobacillus, e um aumento de géneros potencialmente oportunistas como Escherichia-Shigella, Segatella e Megamonas. A suplementação com inulina demonstrou um efeito modulador e protetor, promovendo o crescimento de microrganismos benéficos, como Bifidobacterium e Streptococcus, recuperando parcialmente o equilíbrio microbiano, e aumentando a produção total de AGCC de 6,9 g L-1 para 9,7 g L-1, marcadores de uma microbiota funcional e ativa. |