| Resumo: | Esta dissertação sugere uma leitura detalhada dos filmes The Act of Killing e The Look of Silence, realizados por Joshua Oppenheimer, a partir de Nietzsche e Dostoiévski. As duas obras em análise têm como temática central os atos cometidos durante o Massacre de 1965 na Indonésia. O principal objetivo do realizador é quebrar com a impunidade e ausência de responsabilização por parte dos agressores, oferecendo – com esse intuito - às vítimas, a hipótese de começar um debate até então impossível por força da índole dogmática do sistema autoritário vigente. No primeiro filme, Oppenheimer propõe aos agressores que encenem detalhadamente os atos por si perpetrados, com total liberdade e direção criativa, relembrando que lhes cabe somente a eles escolher o que incluem e o que deixam de fora, documentando todo o processo. Já no segundo, o realizador coloca-nos na ótica das vítimas que, vendo impossibilitado o diálogo aberto sobre os acontecimentos, têm apenas o silêncio como ferramenta de sobrevivência e o ressentimento como lembrete vívido do passado que a propaganda esconde. A nossa reflexão começa com uma breve contextualização histórica e sociocultural antes de abordarmos as problemáticas que surgem ao representar no cinema um massacre, acontecimento proibido de ser imaginado. Estabelecemos, então, uma relação com a representação da Shoah e como a imaginação e o olhar perspetivo podem iniciar um processo de julgamento moral. Seguidamente socorremo-nos de Nietzsche e das suas teses sobre objetividade, perspetivismo e interpretação para ilustrar a abordagem de Oppenheimer a agressores e suas vítimas. É através desta análise que tentamos provar a pertinência das obras enquanto reveladoras da autoilusão e da mentira narrativa empreendida pelo Governo indonésio sobre o Massacre de 1965. Por último, escrutinamos as ideias filosóficas e mecanismos psicológicos que os protagonistas desenvolvem como reação ao acontecimento. Para esse efeito, empregamos novamente a filosofia nietzschiana, bem como personagens da obra de Dostoiévski. Estas revelam-se fundamentais na compreensão das interpretações necessárias para minimizar o remorso dos agressores e, por outro lado, para que as vítimas suportem o silêncio a que foram sujeitas durante os quarenta anos que distam o Massacre da ação. A Anwar Congo e Adi Zukaldry – os agressores - comparamos Raskólnikov, de Crime e Castigo (2001) e Ivan Karamázov, de Os Irmãos Karamázov (2002), respetivamente, enquanto que a Adi Rukun – a vítima em foco e personificação de todos os lesados – equiparamos o homem do subterrâneo, de Memórias do Subterrâneo (2017). |