| Resumo: | A obesidade, caracterizada por um excesso de tecido adiposo devido ao desequilíbrio entre a ingesta alimentar e o gasto energético, é uma doença crónica, reconhecida como um problema mundial de Saúde Pública, associando-se ao desenvolvimento de várias doenças crónicas e a mortalidade precoce. Na sua patogénese intervêm componentes genéticos, ambientais e socioeconómicos. A Síndrome Metabólica (SM) consiste na associação de vários factores de risco metabólicos, possivelmente interligados pela insulinorresistência, tendo sofrido diversas alterações na definição ao longo dos anos. Pelo risco acrescido que confere ao desenvolvimento de Diabetes Mellitus tipo II (DMII) e de Doenças Cardiovasculares, torna-se fundamental uma terapêutica eficaz, no entanto, modificações no estilo de vida e farmacoterapia têm falhado na obtenção de resultados satisfatórios. A cirurgia bariátrica começou a desenvolver-se pelo reconhecimento de que modificações na anatomia gastrointestinal originavam perda de peso. Devido à pandemia da obesidade e ao desenvolvimento da abordagem laparoscópica, encontra-se actualmente entre as cirurgias gastrointestinais mais realizadas mundialmente, com efeitos benéficos na sobrevida, perda de peso e melhoria das comorbilidades associadas. A verificação deste último efeito levou ao surgimento de uma nova disciplina cirúrgica – a cirurgia metabólica, cujo objectivo é tratar primariamente a SM, particularmente a DMII, e não apenas a redução de peso. Inicialmente, a hipótese mais aceite para explicar os resultados metabólicos da cirurgia era a perda de peso, no entanto, com a constatação de que a melhoria do controlo glicémico ocorria antes de uma perda de peso significativa, propôs-se que seria a alteração do tracto gastrointestinal, através de mecanismos neuroendócrinos e metabólicos, como alterações hormonais, nos ácidos biliares, no microbioma gastrointestinal e na detecção de nutrientes, a justificar os resultados. Com esta revisão pretendo principalmente compreender como a fisiopatologia da obesidade e SM contribuíram como racional biológico para o desenvolvimento da cirurgia bariátrica e, mais recentemente, da cirurgia metabólica. |