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Justifica-se manter o rastreio de toxoplasmose na grávida em Portugal?

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Resumo:O rastreio pré-natal da infeção por Toxoplasma gondii não é consensual em todos os países por não ser claro o cumprimento de todos os critérios que justificam a sua implementação. O objetivo do trabalho é avaliar a relevância da estratégia portuguesa e discutir se existe evidência que a fundamente. Em Portugal, é realizado o rastreio trimestral. A prevalência de seropositividade em mulheres em idade reprodutiva, estimada em 2013, foi de 18% e a incidência de infeção nas seronegativas foi de 170/100.000. Em 2011 ocorreu toxoplasmose congénita (TC) em 12/100.000 nascimentos. O risco máximo de doença sintomática estimado é de cerca de 8% para infeções entre as 24 e as 27 semanas, num contexto com tratamento pré-natal, embora possa ser superior se forem consideradas as lesões de retinocoroidite tardias. O compromisso grave da visão parece ocorrer em menos de 9% dos casos de TC. Não existem estudos que estabeleçam de forma inequívoca a redução da transmissão vertical ou das manifestações clínicas pelo tratamento pré-natal. Apesar das suas limitações, alguns estudos observacionais sugerem que o início precoce, nas primeiras 4 semanas após a seroconversão, seja benéfico, o que sugere que o número de testes preconizado em Portugal seja insuficiente. O único estudo aleatorizado existente sugeriu que a pirimetamina-sulfadiazina seja superior à espiramicina na prevenção da transmissão vertical, sendo que em Portugal apenas a espiramicina é utilizada na gravidez. O tratamento neonatal pode melhorar o prognóstico das crianças sintomáticas, mas não é claro o seu papel no recém-nascido assintomático. Não parecem ter sido definitivamente excluídos potenciais efeitos adversos da terapêutica. Existem novos métodos diagnósticos candidatos a teste de rastreio com sensibilidade e especificidade de 100% e baixo custo. Os estudos de custo-benefício parecem atribuir alguma vantagem ao rastreio mensal em cenários epidemiológicos semelhantes ao português, mas a sua aplicabilidade depende da semelhança entre os custos de tratamento e diagnóstico assumidos e a realidade portuguesa e de uma adesão total ao calendário proposto. A educação das grávidas sobre os cuidados de higiene a adotar parece reduzir a incidência da infeção materna, no entanto o seu impacto depende dos hábitos já adotados pela população. Em suma, a TC é uma doença rara em Portugal, mas a baixa incidência pode dever-se às medidas de prevenção primária e não necessariamente ao tratamento pré-natal. A estratégia de rastreio e terapêutica implementada em Portugal não é a que poderá ter melhores resultados e não é fundamentada por evidência suficiente. Não existindo benefício claro da terapêutica de lactentes assintomáticos poderia ser considerada também a alternativa de rastrear e tratar todos os recém-nascidos sintomáticos. A opção pela manutenção do rastreio deve considerar a possibilidade de avaliação regular do impacto do programa que permita aferir a sua adequação ou eventual necessidade de adaptação ou suspensão do mesmo.
Autores principais:Farias, Lilian Costa
Assunto:Gravidez Rastreio Toxoplasmose congénita Portugal Pediatria
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso restrito
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O rastreio pré-natal da infeção por Toxoplasma gondii não é consensual em todos os países por não ser claro o cumprimento de todos os critérios que justificam a sua implementação. O objetivo do trabalho é avaliar a relevância da estratégia portuguesa e discutir se existe evidência que a fundamente. Em Portugal, é realizado o rastreio trimestral. A prevalência de seropositividade em mulheres em idade reprodutiva, estimada em 2013, foi de 18% e a incidência de infeção nas seronegativas foi de 170/100.000. Em 2011 ocorreu toxoplasmose congénita (TC) em 12/100.000 nascimentos. O risco máximo de doença sintomática estimado é de cerca de 8% para infeções entre as 24 e as 27 semanas, num contexto com tratamento pré-natal, embora possa ser superior se forem consideradas as lesões de retinocoroidite tardias. O compromisso grave da visão parece ocorrer em menos de 9% dos casos de TC. Não existem estudos que estabeleçam de forma inequívoca a redução da transmissão vertical ou das manifestações clínicas pelo tratamento pré-natal. Apesar das suas limitações, alguns estudos observacionais sugerem que o início precoce, nas primeiras 4 semanas após a seroconversão, seja benéfico, o que sugere que o número de testes preconizado em Portugal seja insuficiente. O único estudo aleatorizado existente sugeriu que a pirimetamina-sulfadiazina seja superior à espiramicina na prevenção da transmissão vertical, sendo que em Portugal apenas a espiramicina é utilizada na gravidez. O tratamento neonatal pode melhorar o prognóstico das crianças sintomáticas, mas não é claro o seu papel no recém-nascido assintomático. Não parecem ter sido definitivamente excluídos potenciais efeitos adversos da terapêutica. Existem novos métodos diagnósticos candidatos a teste de rastreio com sensibilidade e especificidade de 100% e baixo custo. Os estudos de custo-benefício parecem atribuir alguma vantagem ao rastreio mensal em cenários epidemiológicos semelhantes ao português, mas a sua aplicabilidade depende da semelhança entre os custos de tratamento e diagnóstico assumidos e a realidade portuguesa e de uma adesão total ao calendário proposto. A educação das grávidas sobre os cuidados de higiene a adotar parece reduzir a incidência da infeção materna, no entanto o seu impacto depende dos hábitos já adotados pela população. Em suma, a TC é uma doença rara em Portugal, mas a baixa incidência pode dever-se às medidas de prevenção primária e não necessariamente ao tratamento pré-natal. A estratégia de rastreio e terapêutica implementada em Portugal não é a que poderá ter melhores resultados e não é fundamentada por evidência suficiente. Não existindo benefício claro da terapêutica de lactentes assintomáticos poderia ser considerada também a alternativa de rastrear e tratar todos os recém-nascidos sintomáticos. A opção pela manutenção do rastreio deve considerar a possibilidade de avaliação regular do impacto do programa que permita aferir a sua adequação ou eventual necessidade de adaptação ou suspensão do mesmo.