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Aquisição do modo em orações completivas do português europeu: o papel dos traços de epistemicidade e veridicidade

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Resumo:A presente dissertação tem como objetivo investigar a aquisição da distribuição dos modos verbais principais, indicativo e conjuntivo, em orações completivas, por falantes monolingues de Português Europeu (PE). Embora existam poucos estudos sobre a aquisição do modo em língua materna (L1), trabalhos anteriores têm mostrado que a aquisição do modo, em particular o conjuntivo, é tardia, sendo que aos 10 anos ainda não está estabilizada em todos os contextos (e.g. Blake 1983). Tal ocorre muito depois de estarem adquiridas as competências morfológicas, sintáticas e, ainda, as capacidades cognitivas (associadas com a ToM) relevantes (cf. Wimmer e Perner, 1983). Assim, partindo da consideração de que o modo é uma categoria gramatical que, em PE, comporta significado, é intuito deste trabalho averiguar, especificamente, quais os valores semânticos que guiam as crianças na seleção de um e outro modo. No que respeita à literatura sobre a distribuição do modo na gramática adulta, têm sido avançadas diferentes propostas de teor semântico acerca do modo em algumas línguas. Algumas destas propostas parecem adequar-se à descrição dos dados de certas línguas, pelo que se considera plausível assumir que constituem uma possibilidade da Gramática Universal. Neste sentido, são consideradas três hipóteses principais para a aquisição do modo (dado que estas hipóteses descrevem a distribuição do modo em algumas línguas, assume-se que poderão conduzir as crianças num dado momento da aquisição): (i) a oposição indicativo/conjuntivo está associada aos valores realis/irrealis; (ii) o indicativo é selecionado em contextos verídicos e o conjuntivo em contextos não verídicos; (iii) o indicativo é selecionado quando é expressa uma atitude epistémica verídica relativamente à proposição relevante e o conjuntivo é selecionado nos restantes contextos (quando é expressa uma atitude epistémica não verídica ou uma atitude não epistémica). A hipótese (i) traduz a visão das gramáticas tradicionais (e.g. Cunha e Cintra, 1984), que se mostra desadequada na descrição dos dados do PE e de grande parte das línguas românicas, pelo que tem vindo a ser abandonada na literatura. No entanto, alguns autores apontam que a distinção realis/irrealis é fulcral na caracterização do sistema do modo em línguas como o Russo e o Persa (cf. Noonan 1985; Rothstein e Thieroff, 2010). A hipótese (ii) baseia-se nas propostas de Farkas (1992) e Ginnakidou (1995) e, segundo as autoras, descreve o contraste de modo em Romeno e em Grego Moderno. A hipótese (iii) reflete a análise de Marques (1995, 1996, 2010) e parece dar conta da distribuição do 8 modo em PE e na maioria das línguas românicas. Seguindo este autor, assume-se que intervêm no sistema gramatical do modo dois traços semânticos principais: a epistemicidade e a veridicidade. Do ponto de vista descritivo, estes traços podem, no entanto, estar hierarquizados de duas formas distintas: ou com a epistemicidade na posição mais alta (Hip. 3.1), ou com a veridicidade a preceder a epistemicidade (Hip. 3.2). Assim, a terceira hipótese subdivide-se em duas hipóteses que permitem não só averiguar o percurso da aquisição do modo, como também especificar o sistema do modo na gramática adulta. Segundo a hipótese 3.1, prevê-se que as crianças comecem por lidar com o valor de epistemicidade nas distinções de modo, e, segundo a hipótese 3.2., as crianças começarão por distribuir o modo segundo a oposição verídico/não verídico, lidando apenas posteriormente com a epistemicidade. Para avaliar estas hipóteses, elaborou-se um teste de produção provocada de orações completivas, no qual os sujeitos tinham de ajudar um fantoche a compreender algumas histórias, acompanhadas por imagens. A tarefa consistia, especificamente, no completamento de uma frase dada pelo fantoche acerca de uma parte da história. O teste foi aplicado a 80 crianças e a um grupo de controlo de 20 adultos. As 80 crianças correspondem a quatro grupos: Grupo I (4 anos); Grupo II (5 anos); Grupo III (6 e 7 anos) e Grupo IV (8 e 9 anos). Para a oração matriz dos itens de teste, foram escolhidos predicadores de diferentes classes semânticas que permitem distinguir as hipóteses entre si: implicativos (A) – deixar e achar bem, não implicativos (B) – querer e mandar, epistémicos fracos (C) – duvidar e não acreditar, epistémicos de dupla seleção de modo (D) – acreditar (tanto em contextos nos quais se espera o indicativo como em contextos nos quais o conjuntivo é o modo esperado), epistémicos fortes (E) – descobrir e prometer, e ficcionais (F) – sonhar e fingir. As hipóteses colocadas levam a diferentes predições quanto ao modo que é selecionado em cada um destes contextos. Os resultados confirmaram que os adultos seguem, de forma geral, o padrão de distribuição do modo previsto pela hipótese (iii), utilizando o conjuntivo em contextos não epistémicos (sejam estes verídicos (A) ou não verídicos (B)) e em contextos epistémicos não verídicos (C), e selecionando o indicativo em contextos epistémicos verídicos (E e F). Também as crianças mostraram ser sensíveis aos valores semânticos relevantes para o sistema do modo em PE, não estando a ser guiadas, exclusivamente, pelos valores de realis/irrealis ou de (não)veridicidade. No entanto, nos primeiros grupos testados, as 9 crianças preferem o uso do conjuntivo em contextos não epistémicos (A e B) e o uso do indicativo em contextos epistémicos (C, D, E e F), mostrando maior sensibilidade ao valor de epistemicidade. Com o desenvolvimento, tornam-se gradualmente mais sensíveis ao valor de veridicidade (quando combinado com a epistemicidade), passando a empregar o conjuntivo também em contextos epistémicos não verídicos, com verbos epistémicos fracos (C). Conclui-se, desta forma, que a epistemicidade precede a veridicidade na aquisição. Assim, ainda que do ponto de vista da gramática adulta as hierarquizações descritas pelas hipóteses 3.1 e 3.2 sejam equivalentes, os dados recolhidos apontam para a hierarquia correspondente à hipótese 3.1. O estudo aqui conduzido evidenciou a complexidade da categoria gramatical do modo, confirmando que esta tem uma aquisição tardia, uma vez que, mesmo no último grupo testado, a sua distribuição não está completamente estabilizada em todos os contextos. Constatou-se, no entanto, que o conjuntivo não é inerentemente problemático, dado que se verificaram usos expressivos nas primeiras idades testadas. Tal dificuldade parece emergir dos valores semânticos associados a determinados contextos, da forma como estão hierarquizados na gramática adulta e, em particular, da soma dos traços [+ epistémico] e [– verídico].
Autores principais:Jesus, Alice Margarida Veiga Simões de
Assunto:Língua portuguesa - Aquisição Língua portuguesa - Modos (Linguística) Língua portuguesa - Subordinação (Linguística) Língua portuguesa - Semântica Teses de mestrado - 2015
Ano:2015
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
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No que respeita à literatura sobre a distribuição do modo na gramática adulta, têm sido avançadas diferentes propostas de teor semântico acerca do modo em algumas línguas. Algumas destas propostas parecem adequar-se à descrição dos dados de certas línguas, pelo que se considera plausível assumir que constituem uma possibilidade da Gramática Universal. Neste sentido, são consideradas três hipóteses principais para a aquisição do modo (dado que estas hipóteses descrevem a distribuição do modo em algumas línguas, assume-se que poderão conduzir as crianças num dado momento da aquisição): (i) a oposição indicativo/conjuntivo está associada aos valores realis/irrealis; (ii) o indicativo é selecionado em contextos verídicos e o conjuntivo em contextos não verídicos; (iii) o indicativo é selecionado quando é expressa uma atitude epistémica verídica relativamente à proposição relevante e o conjuntivo é selecionado nos restantes contextos (quando é expressa uma atitude epistémica não verídica ou uma atitude não epistémica). A hipótese (i) traduz a visão das gramáticas tradicionais (e.g. Cunha e Cintra, 1984), que se mostra desadequada na descrição dos dados do PE e de grande parte das línguas românicas, pelo que tem vindo a ser abandonada na literatura. No entanto, alguns autores apontam que a distinção realis/irrealis é fulcral na caracterização do sistema do modo em línguas como o Russo e o Persa (cf. Noonan 1985; Rothstein e Thieroff, 2010). A hipótese (ii) baseia-se nas propostas de Farkas (1992) e Ginnakidou (1995) e, segundo as autoras, descreve o contraste de modo em Romeno e em Grego Moderno. A hipótese (iii) reflete a análise de Marques (1995, 1996, 2010) e parece dar conta da distribuição do 8 modo em PE e na maioria das línguas românicas. Seguindo este autor, assume-se que intervêm no sistema gramatical do modo dois traços semânticos principais: a epistemicidade e a veridicidade. Do ponto de vista descritivo, estes traços podem, no entanto, estar hierarquizados de duas formas distintas: ou com a epistemicidade na posição mais alta (Hip. 3.1), ou com a veridicidade a preceder a epistemicidade (Hip. 3.2). Assim, a terceira hipótese subdivide-se em duas hipóteses que permitem não só averiguar o percurso da aquisição do modo, como também especificar o sistema do modo na gramática adulta. Segundo a hipótese 3.1, prevê-se que as crianças comecem por lidar com o valor de epistemicidade nas distinções de modo, e, segundo a hipótese 3.2., as crianças começarão por distribuir o modo segundo a oposição verídico/não verídico, lidando apenas posteriormente com a epistemicidade. Para avaliar estas hipóteses, elaborou-se um teste de produção provocada de orações completivas, no qual os sujeitos tinham de ajudar um fantoche a compreender algumas histórias, acompanhadas por imagens. A tarefa consistia, especificamente, no completamento de uma frase dada pelo fantoche acerca de uma parte da história. O teste foi aplicado a 80 crianças e a um grupo de controlo de 20 adultos. As 80 crianças correspondem a quatro grupos: Grupo I (4 anos); Grupo II (5 anos); Grupo III (6 e 7 anos) e Grupo IV (8 e 9 anos). 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O estudo aqui conduzido evidenciou a complexidade da categoria gramatical do modo, confirmando que esta tem uma aquisição tardia, uma vez que, mesmo no último grupo testado, a sua distribuição não está completamente estabilizada em todos os contextos. Constatou-se, no entanto, que o conjuntivo não é inerentemente problemático, dado que se verificaram usos expressivos nas primeiras idades testadas. Tal dificuldade parece emergir dos valores semânticos associados a determinados contextos, da forma como estão hierarquizados na gramática adulta e, em particular, da soma dos traços [+ epistémico] e [– verídico].
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No que respeita à literatura sobre a distribuição do modo na gramática adulta, têm sido avançadas diferentes propostas de teor semântico acerca do modo em algumas línguas. Algumas destas propostas parecem adequar-se à descrição dos dados de certas línguas, pelo que se considera plausível assumir que constituem uma possibilidade da Gramática Universal. Neste sentido, são consideradas três hipóteses principais para a aquisição do modo (dado que estas hipóteses descrevem a distribuição do modo em algumas línguas, assume-se que poderão conduzir as crianças num dado momento da aquisição): (i) a oposição indicativo/conjuntivo está associada aos valores realis/irrealis; (ii) o indicativo é selecionado em contextos verídicos e o conjuntivo em contextos não verídicos; (iii) o indicativo é selecionado quando é expressa uma atitude epistémica verídica relativamente à proposição relevante e o conjuntivo é selecionado nos restantes contextos (quando é expressa uma atitude epistémica não verídica ou uma atitude não epistémica). A hipótese (i) traduz a visão das gramáticas tradicionais (e.g. Cunha e Cintra, 1984), que se mostra desadequada na descrição dos dados do PE e de grande parte das línguas românicas, pelo que tem vindo a ser abandonada na literatura. No entanto, alguns autores apontam que a distinção realis/irrealis é fulcral na caracterização do sistema do modo em línguas como o Russo e o Persa (cf. Noonan 1985; Rothstein e Thieroff, 2010). A hipótese (ii) baseia-se nas propostas de Farkas (1992) e Ginnakidou (1995) e, segundo as autoras, descreve o contraste de modo em Romeno e em Grego Moderno. A hipótese (iii) reflete a análise de Marques (1995, 1996, 2010) e parece dar conta da distribuição do 8 modo em PE e na maioria das línguas românicas. Seguindo este autor, assume-se que intervêm no sistema gramatical do modo dois traços semânticos principais: a epistemicidade e a veridicidade. Do ponto de vista descritivo, estes traços podem, no entanto, estar hierarquizados de duas formas distintas: ou com a epistemicidade na posição mais alta (Hip. 3.1), ou com a veridicidade a preceder a epistemicidade (Hip. 3.2). Assim, a terceira hipótese subdivide-se em duas hipóteses que permitem não só averiguar o percurso da aquisição do modo, como também especificar o sistema do modo na gramática adulta. Segundo a hipótese 3.1, prevê-se que as crianças comecem por lidar com o valor de epistemicidade nas distinções de modo, e, segundo a hipótese 3.2., as crianças começarão por distribuir o modo segundo a oposição verídico/não verídico, lidando apenas posteriormente com a epistemicidade. Para avaliar estas hipóteses, elaborou-se um teste de produção provocada de orações completivas, no qual os sujeitos tinham de ajudar um fantoche a compreender algumas histórias, acompanhadas por imagens. A tarefa consistia, especificamente, no completamento de uma frase dada pelo fantoche acerca de uma parte da história. O teste foi aplicado a 80 crianças e a um grupo de controlo de 20 adultos. As 80 crianças correspondem a quatro grupos: Grupo I (4 anos); Grupo II (5 anos); Grupo III (6 e 7 anos) e Grupo IV (8 e 9 anos). Para a oração matriz dos itens de teste, foram escolhidos predicadores de diferentes classes semânticas que permitem distinguir as hipóteses entre si: implicativos (A) – deixar e achar bem, não implicativos (B) – querer e mandar, epistémicos fracos (C) – duvidar e não acreditar, epistémicos de dupla seleção de modo (D) – acreditar (tanto em contextos nos quais se espera o indicativo como em contextos nos quais o conjuntivo é o modo esperado), epistémicos fortes (E) – descobrir e prometer, e ficcionais (F) – sonhar e fingir. As hipóteses colocadas levam a diferentes predições quanto ao modo que é selecionado em cada um destes contextos. Os resultados confirmaram que os adultos seguem, de forma geral, o padrão de distribuição do modo previsto pela hipótese (iii), utilizando o conjuntivo em contextos não epistémicos (sejam estes verídicos (A) ou não verídicos (B)) e em contextos epistémicos não verídicos (C), e selecionando o indicativo em contextos epistémicos verídicos (E e F). Também as crianças mostraram ser sensíveis aos valores semânticos relevantes para o sistema do modo em PE, não estando a ser guiadas, exclusivamente, pelos valores de realis/irrealis ou de (não)veridicidade. No entanto, nos primeiros grupos testados, as 9 crianças preferem o uso do conjuntivo em contextos não epistémicos (A e B) e o uso do indicativo em contextos epistémicos (C, D, E e F), mostrando maior sensibilidade ao valor de epistemicidade. Com o desenvolvimento, tornam-se gradualmente mais sensíveis ao valor de veridicidade (quando combinado com a epistemicidade), passando a empregar o conjuntivo também em contextos epistémicos não verídicos, com verbos epistémicos fracos (C). Conclui-se, desta forma, que a epistemicidade precede a veridicidade na aquisição. Assim, ainda que do ponto de vista da gramática adulta as hierarquizações descritas pelas hipóteses 3.1 e 3.2 sejam equivalentes, os dados recolhidos apontam para a hierarquia correspondente à hipótese 3.1. 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