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Mineralogia e geoquímica da massa do Zambujal, Neves-Corvo: diferente em quê e porquê?

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Resumo:O Zambujal é uma das sete massas mineralizadas do jazigo de Neves-Corvo. Este encontra-se hospedado numa das províncias metalogenéticas de referência mundial para sulfuretos maciços polimetálicos - a Faixa Piritosa Ibérica (FPI). Estudos anteriores colocaram em evidência que os minérios do Zambujal se caracterizam por vincadas singularidades no contexto do jazigo de Neves-Corvo. O presente trabalho incide sobre os diferentes tipos de minério maciço da massa do Zambujal, com vista à compreensão das características que a tornam significativamente distinta das restantes massas. Estas diferenças incluem a abundância relativa de um número significativo de metais, incluindo o In e Se, bem como a sua distribuição, determinação da fase mineral portadora e correlações intermetálicas. Importa assim caracterizá-las, compreendê-las e interpretá-las em ordem à história sin- e pós-metalogenética do sistema mineralizante. O estudo inclui o relogging de 23 sondagens e a caracterização mineralógica e textural, macro e microscópica de 58 amostras, com definição de um quadro paragenético para a massa do Zambujal. Deste conjunto de amostras foram selecionadas 10 superfícies polidas e 2 lâminas delgadas polidas para caracterização micro-analítica dos minerais associados às diferentes fases de mineralização sulfuretada, bem como do material carbonatado e/ou silicatado que constitui os exalitos representados pela unidade JC. Foi realizado igualmente um estudo geoquímico detalhado dos minérios da massa do Zambujal recorrendo à vasta base de dados de química de rocha total da Somincor-Lundin Mining, que permitiu uma avaliação da abundância, distribuição dos vários metais analisados, produção de mapas e perfis composicionais do Zambujal e a construção de matrizes de correlação intermetálica para os seus minérios. Por último, procedeu-se à determinação das fases minerais portadores de metais e integração dos resultados obtidos e interpretações preconizadas no modelo metalogenético que tem vindo a ser delineado para o jazigo de Neves-Corvo. O estudo de química mineral efetuado coloca em evidência que, dependo da tipologia de minério considerado e de acordo com as correlações intermetálicas observadas na massa do Zambujal, a esfalerite, a tetraedrite-tenantite, a estanite e a calcopirite são as principais fases portadoras de índio; a galena-claustalite e os selenetos de Bi-Pb são os principais portadores de selénio; a tetraedrite, a cosalite e os selenetos Bi-PB são os principais portadores de bismuto, e a tetraedrite, a tetraedrite-tenantite e a galeno-claustalite são os principais portadores de prata. De forma geral, é possível reconhecer que os metais de mais baixa temperatura, como o Zn, Pb, Ag e Cd estão essencialmente associados aos minérios do tipo MZ, MZP, MP e ME, ao passo que os metais de alta temperatura, como o Cu, Co, Bi, In e Se se associam essencialmente aos minérios MC e MCZ. Contrariamente ao que sucede à escala de todo o jazigo e de cada uma das restantes massas, no Zambujal, o In e o Se para além de apresentarem correlações positivas com o Cu também apresentam correlações com o Zn (especialmente no MCZ). Assim, o In e o Se (e de forma análoga, o Bi e Co) estão maioritariamente associados aos minérios cupríferos, facto que é consistente com o transporte e coprecipitação destes metais com fluidos ricos em Cu, de alta temperatura, ácidos, reduzidos e salinos (afiliação metalogenética). No entanto, o facto da esfalerite apresentar coeficiente de partição mais favorável para acomodar estes elementos favorece que, na massa do Zambujal, a forte influência dos processos de remobilização/redistribuição tectono-metamórfica, seja suficientemente vincada para justificar também uma correlação positiva secundária entre o In-Se com o Zn, circunstância que não tem expressão comparável nas restantes massas. Em termos gerais, a massa do Zambujal partilha a história metalogenética das restantes massas em Neves-Corvo, com um sistema hidrotermal convectivo sustentado e prolongado no tempo, responsável pela formação, através de processos dominantes de substituição na subsuperfície, sob temperaturas baixas a moderadas, de abundante mineralização plumbo-zincífera (minérios MZ, MZP, MP e ME). A evolução e maturação da atividade hidrotermal mineralizante no decurso de um prolongado período de tempo, conduz ao aumento da temperatura do sistema e à interação dos produtos precocemente formados com fluidos ricos em cobre, salinos, ácidos e redutores que foram responsáveis pela geração de uma mineralização cuprífera de mais alta temperatura (minérios MC e MCZ), que substituem parcialmente a mineralização zincífera previamente formada. Em termos macro- e microscópicos, este processo é evidenciado pela obliteração das características primárias mais precoces (e.g. pirite colomórfica e framboidal) e predomínio de texturas de substituição. No decurso da evolução geológica e geotectónica da região, o jazigo no seu todo e a massa do Zambujal em particular, foram sujeitos a processos tectono-metamórficos muito relevantes, que são visíveis à escala macro- e microscópica e que conduziram à formação de abundantes texturas secundárias, como brechas, bandados de segregação textural, boudinage e zonas de cominuição forte do minério. Estes processos perturbaram o zoneamento primário, que segue, em traços gerais, o zoneamento característico dos depósitos de sulfuretos maciços (Cu-Zn-Fe) e promoveram (a) a redistribuição e remobilização de metais como o As, o Sb, o Bi e o Se, que permitem sublinhar espacialmente várias zonas de falha e corredores estruturais; e (b) a formação de enriquecimentos locais de elementos económicos (Cu, Zn ou Pb) e/ou de elementos valorizantes (e.g. Ag) e/ou de elementos potencialmente valorizantes (e.g. Se, In). Estes fenómenos de enriquecimento são mais evidentes na zona centro-este da massa onde existe sobre espessamento do minério MCZ devido a empilhamento de sucessivos cavalgamentos, e em domínios mais deformados dos minérios de Zn e Zn-Pb e/ou em fraturas com remobilizações de esfalerite afetando as várias tipologias de minério. Assim, a forte deformação tectónica da massa do Zambujal, superior à das restantes massas de Neves-Corvo, justifica as dissemelhanças evidenciadas em termos de correlações intermetálicas, bem como os invulgarmente elevados efeitos de redistribuição/remobilização e enriquecimento metálico de elementos como o Se, In, Cu ou Pb. No entanto, alguns elementos penalizantes, como o Hg ou o As, acompanham igualmente este trajeto de enriquecimentos secundários por remobilização tectono-metamórfica, facto que obriga, do ponto de vista da operação mineira, a uma ponderação cuidada das estratégias de produção em cada momento e contexto de exploração da massa.
Autores principais:Viduedo, Linda Inês Esteves
Assunto:Neves-Corvo Zambujal Química Mineral Correlações intermetálicas Redistribuição e remobilização metalífera Enriquecimentos secundários Processos tectono-metamórficos Teses de mestrado - 2019
Ano:2019
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O Zambujal é uma das sete massas mineralizadas do jazigo de Neves-Corvo. Este encontra-se hospedado numa das províncias metalogenéticas de referência mundial para sulfuretos maciços polimetálicos - a Faixa Piritosa Ibérica (FPI). Estudos anteriores colocaram em evidência que os minérios do Zambujal se caracterizam por vincadas singularidades no contexto do jazigo de Neves-Corvo. O presente trabalho incide sobre os diferentes tipos de minério maciço da massa do Zambujal, com vista à compreensão das características que a tornam significativamente distinta das restantes massas. Estas diferenças incluem a abundância relativa de um número significativo de metais, incluindo o In e Se, bem como a sua distribuição, determinação da fase mineral portadora e correlações intermetálicas. Importa assim caracterizá-las, compreendê-las e interpretá-las em ordem à história sin- e pós-metalogenética do sistema mineralizante. O estudo inclui o relogging de 23 sondagens e a caracterização mineralógica e textural, macro e microscópica de 58 amostras, com definição de um quadro paragenético para a massa do Zambujal. Deste conjunto de amostras foram selecionadas 10 superfícies polidas e 2 lâminas delgadas polidas para caracterização micro-analítica dos minerais associados às diferentes fases de mineralização sulfuretada, bem como do material carbonatado e/ou silicatado que constitui os exalitos representados pela unidade JC. Foi realizado igualmente um estudo geoquímico detalhado dos minérios da massa do Zambujal recorrendo à vasta base de dados de química de rocha total da Somincor-Lundin Mining, que permitiu uma avaliação da abundância, distribuição dos vários metais analisados, produção de mapas e perfis composicionais do Zambujal e a construção de matrizes de correlação intermetálica para os seus minérios. Por último, procedeu-se à determinação das fases minerais portadores de metais e integração dos resultados obtidos e interpretações preconizadas no modelo metalogenético que tem vindo a ser delineado para o jazigo de Neves-Corvo. O estudo de química mineral efetuado coloca em evidência que, dependo da tipologia de minério considerado e de acordo com as correlações intermetálicas observadas na massa do Zambujal, a esfalerite, a tetraedrite-tenantite, a estanite e a calcopirite são as principais fases portadoras de índio; a galena-claustalite e os selenetos de Bi-Pb são os principais portadores de selénio; a tetraedrite, a cosalite e os selenetos Bi-PB são os principais portadores de bismuto, e a tetraedrite, a tetraedrite-tenantite e a galeno-claustalite são os principais portadores de prata. De forma geral, é possível reconhecer que os metais de mais baixa temperatura, como o Zn, Pb, Ag e Cd estão essencialmente associados aos minérios do tipo MZ, MZP, MP e ME, ao passo que os metais de alta temperatura, como o Cu, Co, Bi, In e Se se associam essencialmente aos minérios MC e MCZ. Contrariamente ao que sucede à escala de todo o jazigo e de cada uma das restantes massas, no Zambujal, o In e o Se para além de apresentarem correlações positivas com o Cu também apresentam correlações com o Zn (especialmente no MCZ). Assim, o In e o Se (e de forma análoga, o Bi e Co) estão maioritariamente associados aos minérios cupríferos, facto que é consistente com o transporte e coprecipitação destes metais com fluidos ricos em Cu, de alta temperatura, ácidos, reduzidos e salinos (afiliação metalogenética). No entanto, o facto da esfalerite apresentar coeficiente de partição mais favorável para acomodar estes elementos favorece que, na massa do Zambujal, a forte influência dos processos de remobilização/redistribuição tectono-metamórfica, seja suficientemente vincada para justificar também uma correlação positiva secundária entre o In-Se com o Zn, circunstância que não tem expressão comparável nas restantes massas. Em termos gerais, a massa do Zambujal partilha a história metalogenética das restantes massas em Neves-Corvo, com um sistema hidrotermal convectivo sustentado e prolongado no tempo, responsável pela formação, através de processos dominantes de substituição na subsuperfície, sob temperaturas baixas a moderadas, de abundante mineralização plumbo-zincífera (minérios MZ, MZP, MP e ME). A evolução e maturação da atividade hidrotermal mineralizante no decurso de um prolongado período de tempo, conduz ao aumento da temperatura do sistema e à interação dos produtos precocemente formados com fluidos ricos em cobre, salinos, ácidos e redutores que foram responsáveis pela geração de uma mineralização cuprífera de mais alta temperatura (minérios MC e MCZ), que substituem parcialmente a mineralização zincífera previamente formada. Em termos macro- e microscópicos, este processo é evidenciado pela obliteração das características primárias mais precoces (e.g. pirite colomórfica e framboidal) e predomínio de texturas de substituição. No decurso da evolução geológica e geotectónica da região, o jazigo no seu todo e a massa do Zambujal em particular, foram sujeitos a processos tectono-metamórficos muito relevantes, que são visíveis à escala macro- e microscópica e que conduziram à formação de abundantes texturas secundárias, como brechas, bandados de segregação textural, boudinage e zonas de cominuição forte do minério. Estes processos perturbaram o zoneamento primário, que segue, em traços gerais, o zoneamento característico dos depósitos de sulfuretos maciços (Cu-Zn-Fe) e promoveram (a) a redistribuição e remobilização de metais como o As, o Sb, o Bi e o Se, que permitem sublinhar espacialmente várias zonas de falha e corredores estruturais; e (b) a formação de enriquecimentos locais de elementos económicos (Cu, Zn ou Pb) e/ou de elementos valorizantes (e.g. Ag) e/ou de elementos potencialmente valorizantes (e.g. Se, In). Estes fenómenos de enriquecimento são mais evidentes na zona centro-este da massa onde existe sobre espessamento do minério MCZ devido a empilhamento de sucessivos cavalgamentos, e em domínios mais deformados dos minérios de Zn e Zn-Pb e/ou em fraturas com remobilizações de esfalerite afetando as várias tipologias de minério. Assim, a forte deformação tectónica da massa do Zambujal, superior à das restantes massas de Neves-Corvo, justifica as dissemelhanças evidenciadas em termos de correlações intermetálicas, bem como os invulgarmente elevados efeitos de redistribuição/remobilização e enriquecimento metálico de elementos como o Se, In, Cu ou Pb. No entanto, alguns elementos penalizantes, como o Hg ou o As, acompanham igualmente este trajeto de enriquecimentos secundários por remobilização tectono-metamórfica, facto que obriga, do ponto de vista da operação mineira, a uma ponderação cuidada das estratégias de produção em cada momento e contexto de exploração da massa.