Publicação
Impacto do tabagismo na obstrução nasal : análise baseada no score NOSE
| Resumo: | Diariamente cerca de 12.000 litros de fluxo de ar, hidratado e filtrado, atravessam as fossas nasais. Por este motivo, o revestimento desta área anatómica para protecção das vias áreas de possíveis agressões provenientes de gases, aerossóis e outros agentes revela-se de extrema importância. Além da função de protecção, o nariz tem também um papel crucial para a ressonância da voz, na produção de óxido nítrico (NO) que participa na regulação da via área inferior, funcionando ainda como estrutura quimiossensitiva responsável pelo olfacto. Apesar dos esforços exercidos por diversas instituições, o ar continua a ser contaminado por diversas substâncias tais como, poluentes, partículas e bactérias que ficam alojadas na via aérea do Homem e de outras espécies. Assim, é crucial que o epitélio que reveste a superfície da via aérea se possa replicar e regenerar para manter uma clearance mucociliar adequada. O nariz filtra cerca de 95% das partículas com um diâmetro superior a 15 μm provenientes do ar inspirado. A clearance mucociliar tem por função a limpeza das vias áreas, através da interacção da mucosa nasal com os movimentos ciliares, sendo estes tão importantes como o muco. Todos estes mecanismos podem ser afectados em fumadores. O tabagismo é um dos comportamentos autodestrutivos mais facilmente reconhecíveis, contrariamente a outros comportamentos nocivos este é reconhecido com facilidade pelo médico bem como facilmente admitido pelo doente5. Apesar da ampla divulgação nos diversos meios de comunicação sobre os malefícios do tabagismo, pouco se sabe da associação entre exposição ao tabaco e desenvolvimento de doenças correlacionadas como a rinossinusite crónica. Por oposição, é bem conhecido o seu contributo como factor de risco para o desenvolvimento das neoplasias pavimentosas da cabeça e pescoço. O fumo inalado de forma passiva ou activa tem sido associado a incómodo e irritação crónica dos olhos, do nariz e da orofaringe. O Departamento de Saúde dos U.S.A. publicou vários relatórios oficiais sobre tabagismo, referindo evidências da exposição ao fumo do tabaco em que este poderia actuar como um factor de “agravamento e prolongamento” das rinossinusites. Existem estudos publicados desde 1964 que destacam os efeitos negativos do tabaco na via área. Nesse mesmo ano, foi publicado um relatório pelo “Surgeon General’s Advisory Commitee” relativo à associação da exposição do fumo de tabaco e o risco de agravamento e prolongamento da sinusite. Mais recentemente, entre 1988 e 1994 foi realizado um estudo no “Third National Health and Nutrition Examination Survey” que conclui que existe uma maior prevalência de sinusite crónica e recorrente em fumadores quando comparado com ex-fumadores. Todavia, apesar das ligações fisiopatológicas plausíveis, existem poucas evidências clínicas que permitam inferir a possibilidade de relação entre hábitos tabágicos e o desenvolvimento da rinossinusite crónica ou rinite crónica. Foram desenvolvidos vários projectos de investigação clínica (onde?) para esclarecer a relação patofisiológica entre a exposição ao fumo do tabaco e a rinossinusite. Desenho do estudo Estudo transversal com aplicação de questionário. Metodologia Foram recrutados 208 utentes da USF - Cruzeiro e aplicou-se o questionário NOSE-p juntamente com questionário relativo aos dados demográficos, dados relativos aos antecedentes pessoais associados a risco de rinite e descrição dos hábitos tabágicos. O outcome principal foi o score obtido no NOSE-p. A análise estatística baseou-se na construção de um modelo de ajustamento zero-inflated com regressão binomial negativa ajustamento para as seguintes as variáveis de confundimento, grupo etário, género, hábitos tabágicos, profissões prévias, medicação e comorbilidades diagnosticadas. Resultados Foi observado um efeito significativo do tabagismo atual no score NOSE-p (β=1.20, IC 95% 1.11-1.29, p <.001). Os ex-fumadores não apresentaram scores significativamente superiores quando comparados com os não fumadores (β=1.06, IC 95% .98-1.05, valor-p .115). Foi ainda verificado um efeito significativo das seguintes variáveis: diagnóstico prévio de rinite alérgica (β=1.49 , IC 95% 1.39-1.59, valor-p <.001), diagnóstico prévio de asma (β=1.42, IC 95% 1.29-1.54, valor-p<.001), profissão de risco (β=1.43, IC 95% 1.29-1.58, valor-p<.001) e medicação habitual de risco (β=1.25, IC 95% 1.17-1.33, valor-p<.001). Conclusão O tabagismo tem um impacto significativo nas queixas de obstrução nasal estando associado a um aumento de cerca de 20% das mesmas. Este efeito é observado em fumadores actuais, sendo que os ex-fumadores não apresentam mais queixas nasais que os não-fumadores. Este trabalho reforça a evidência da necessidade de controlo do tabagismo no tratamento dos doentes com obstrução nasal, com ou sem outros factores de risco associados. |
|---|---|
| Autores principais: | Gomes, Bruno Miguel Matos |
| Assunto: | Hábito de fumar Obstrução nasal Otolaringologia |
| Ano: | 2015 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso restrito |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Diariamente cerca de 12.000 litros de fluxo de ar, hidratado e filtrado, atravessam as fossas nasais. Por este motivo, o revestimento desta área anatómica para protecção das vias áreas de possíveis agressões provenientes de gases, aerossóis e outros agentes revela-se de extrema importância. Além da função de protecção, o nariz tem também um papel crucial para a ressonância da voz, na produção de óxido nítrico (NO) que participa na regulação da via área inferior, funcionando ainda como estrutura quimiossensitiva responsável pelo olfacto. Apesar dos esforços exercidos por diversas instituições, o ar continua a ser contaminado por diversas substâncias tais como, poluentes, partículas e bactérias que ficam alojadas na via aérea do Homem e de outras espécies. Assim, é crucial que o epitélio que reveste a superfície da via aérea se possa replicar e regenerar para manter uma clearance mucociliar adequada. O nariz filtra cerca de 95% das partículas com um diâmetro superior a 15 μm provenientes do ar inspirado. A clearance mucociliar tem por função a limpeza das vias áreas, através da interacção da mucosa nasal com os movimentos ciliares, sendo estes tão importantes como o muco. Todos estes mecanismos podem ser afectados em fumadores. O tabagismo é um dos comportamentos autodestrutivos mais facilmente reconhecíveis, contrariamente a outros comportamentos nocivos este é reconhecido com facilidade pelo médico bem como facilmente admitido pelo doente5. Apesar da ampla divulgação nos diversos meios de comunicação sobre os malefícios do tabagismo, pouco se sabe da associação entre exposição ao tabaco e desenvolvimento de doenças correlacionadas como a rinossinusite crónica. Por oposição, é bem conhecido o seu contributo como factor de risco para o desenvolvimento das neoplasias pavimentosas da cabeça e pescoço. O fumo inalado de forma passiva ou activa tem sido associado a incómodo e irritação crónica dos olhos, do nariz e da orofaringe. O Departamento de Saúde dos U.S.A. publicou vários relatórios oficiais sobre tabagismo, referindo evidências da exposição ao fumo do tabaco em que este poderia actuar como um factor de “agravamento e prolongamento” das rinossinusites. Existem estudos publicados desde 1964 que destacam os efeitos negativos do tabaco na via área. Nesse mesmo ano, foi publicado um relatório pelo “Surgeon General’s Advisory Commitee” relativo à associação da exposição do fumo de tabaco e o risco de agravamento e prolongamento da sinusite. Mais recentemente, entre 1988 e 1994 foi realizado um estudo no “Third National Health and Nutrition Examination Survey” que conclui que existe uma maior prevalência de sinusite crónica e recorrente em fumadores quando comparado com ex-fumadores. Todavia, apesar das ligações fisiopatológicas plausíveis, existem poucas evidências clínicas que permitam inferir a possibilidade de relação entre hábitos tabágicos e o desenvolvimento da rinossinusite crónica ou rinite crónica. Foram desenvolvidos vários projectos de investigação clínica (onde?) para esclarecer a relação patofisiológica entre a exposição ao fumo do tabaco e a rinossinusite. Desenho do estudo Estudo transversal com aplicação de questionário. Metodologia Foram recrutados 208 utentes da USF - Cruzeiro e aplicou-se o questionário NOSE-p juntamente com questionário relativo aos dados demográficos, dados relativos aos antecedentes pessoais associados a risco de rinite e descrição dos hábitos tabágicos. O outcome principal foi o score obtido no NOSE-p. A análise estatística baseou-se na construção de um modelo de ajustamento zero-inflated com regressão binomial negativa ajustamento para as seguintes as variáveis de confundimento, grupo etário, género, hábitos tabágicos, profissões prévias, medicação e comorbilidades diagnosticadas. Resultados Foi observado um efeito significativo do tabagismo atual no score NOSE-p (β=1.20, IC 95% 1.11-1.29, p <.001). Os ex-fumadores não apresentaram scores significativamente superiores quando comparados com os não fumadores (β=1.06, IC 95% .98-1.05, valor-p .115). Foi ainda verificado um efeito significativo das seguintes variáveis: diagnóstico prévio de rinite alérgica (β=1.49 , IC 95% 1.39-1.59, valor-p <.001), diagnóstico prévio de asma (β=1.42, IC 95% 1.29-1.54, valor-p<.001), profissão de risco (β=1.43, IC 95% 1.29-1.58, valor-p<.001) e medicação habitual de risco (β=1.25, IC 95% 1.17-1.33, valor-p<.001). Conclusão O tabagismo tem um impacto significativo nas queixas de obstrução nasal estando associado a um aumento de cerca de 20% das mesmas. Este efeito é observado em fumadores actuais, sendo que os ex-fumadores não apresentam mais queixas nasais que os não-fumadores. Este trabalho reforça a evidência da necessidade de controlo do tabagismo no tratamento dos doentes com obstrução nasal, com ou sem outros factores de risco associados. |
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