| Resumo: | A presente dissertação de Mestrado em Estudos Românicos – Cultura Portuguesa tem por finalidade esclarecer alguns aspectos menos explorados quanto à génese e identidade da Ordem da Imaculada Conceição, cuja fundação foi iniciada na cidade de Toledo, em Castela, por Santa Beatriz da Silva (c. 1437 – 1492) e por outras portuguesas. O primeiro cenóbio conceicionista estava formalmente integrado na Ordem de Cister, embora com jurisdição diocesana e segundo outras características peculiares, concedidas pela Santa Sé em 1489, na exacta forma como Santa Beatriz as pediu, em conjunto com a Rainha Dona Isabel, a Católica, patrocinadora da nova instituição monástica. Tais características implicavam uma notável autonomia do convento conceicionista, prefigurando uma nova Ordem monástica, que deveria emergir depois de se fundarem mosteiros semelhantes, tal como idealizara e fora intenção da Santa. A fundação toledana, numa análise segundo o contexto cultural e social em que surgiu, durante o período do Renascimento castelhano, pode ser interpretada à luz dos valores humanistas da Querela das Mulheres, sobretudo por apresentar conteúdos simbólicos valorizadores da dignidade feminina, através da associação das monjas à figura da Virgem Maria. A obra de Santa Beatriz persistiria depois da sua morte, embora sujeita a novos rumos, segundo a expressa vontade da Rainha e no âmbito da reforma monástica promovida por esta, à cabeça da qual colocou o futuro Cardeal Cisneros. Em pouco tempo, o Mosteiro passou a integrar a Ordem de Santa Clara, sob obediência aos frades menores. Em 1511, o Papa Júlio II concedeu-lhe uma Regra própria, admitindo existir já a Ordem da Imaculada Conceição, com vários mosteiros fundados. A nova Regra era de inspiração franciscana e resultava de diligências políticas secretas, nas quais as próprias monjas terão desempenhado um importante papel. O resultado final foi, porém, um texto regular que estas consideraram excessivamente rigoroso, não ficando agradadas, apesar de o ter aceite. Anos depois, o Cardeal quis eliminar a Ordem, o que estas mulheres não permitiram, chegando a desobedecer a uma ordem pontifícia. A Ordem da Imaculada Conceição prevaleceu até aos nossos dias. Após cinco séculos de culto ininterrupto, Santa Beatriz viria a ser canonizada em 1976 e proclamada fundadora única de uma Ordem algo já distanciada daquela que idealizou, mantendo, embora, alguns eixos fundamentais da sua identidade primitiva. |