| Resumo: | O propósito desta dissertação é apresentar um estudo comparativo e de reprodução sobre técnicas de Tradução Automática Neuronal Não-Supervisionada (Unsupervised Neural Machine Translation) para o par de línguas Português (PT) →Chinês (ZH) e Português (PT) → Coreano (KR) tirando partido de ferramentas e recursos online. A escolha destes pares de línguas prende-se com duas grandes razões. A primeira refere-se à importância no panorama global das línguas asiáticas, nomeadamente do chinês, e também pela infuência que a língua portuguesa desempenha no mundo especialmente no hemisfério sul. A segunda razão é puramente académica. Como há escassez de estudos na área de Processamento Natural de Linguagem (NLP) com línguas não-germânicas (devido à hegemonia da língua inglesa), procurou-se desenvolver um trabalho que estude a infuência das técnicas de tradução não supervisionada em par de línguas poucos estudadas, a fm de testar a sua robustez. Falada por um quarto da população mundial, a língua chinesa é o“Ás”no baralho de cartas da China. De acordo com o International Chinese Language Education Week, em 2020 estimava-se que 200 milhões pessoas não-nativas já tinham aprendido chinês e que no ano corrente se encontravam mais de 25 milhões a estudá-la. Com a infuência que a língua chinesa desempenha, torna-se imperativo desenvolver ferramentas que preencham as falhas de comunicação. Assim, nesta conjuntura global surge a tradução automática como ponte de comunicação entre várias culturas e a China. A Coreia do Sul, também conhecida como um dos quatro tigres asiáticos, concretizou um feito extraordinário ao levantar-se da pobreza extrema para ser um dos países mais desenvolvidos do mundo em duas gerações. Apesar de não possuir a hegemonia económica da China, a Coreia do Sul exerce bastante infuência devido ao seu soft power na área de entretenimento, designado por hallyu. Esta“onda”de cultura pop coreana atraí multidões para a aprendizagem da cultura. De forma a desvanecer a barreira comunicativa entre os amantes da cultura coreana e os nativos, a tradução automática é um forte aliado porque permite a interação entre pessoas instantaneamente sem a necessidade de aprender uma língua nova. Apesar de Portugal não ter ligações culturais com a Coreia, há uma forte ligação com a região administrativa especial de Macau (RAEM) onde o português é uma das línguas ofciais, sendo que a Tradução Automática entre ambas as línguas ofciais é uma das áreas estratégicas do governo local tendo sido estabelecido um laboratório de Tradução Automática no Instituto Politécnico de Macau que visa construir um sistema que possa ser usado na função pública de auxílio aos tradutores. Neste trabalho foram realizadas duas abordagens: (i) Tradução Automática Neuronal Não Supervisionada (Unsupervised Neural Machine Translation) e; (ii) abordagem pivô (pivot approach). Como o foco da dissertação é em técnicas nãosupervisionadas, nenhuma das arquiteturas fez uso de dados paralelos entre os pares de línguas em questão. Nomeadamente, na primeira abordagem usou-se dados monolingues. Na segunda introduziu-se uma terceira língua pivô que é utilizada para estabelecer a ponte entre a língua de partida e a de chegada. Esta abordagem à tradução automática surgiu com a necessidade de criar sistemas de tradução para pares de línguas onde existem poucos ou nenhuns dados paralelos. Como demonstrado por Koehn and Knowles [2017a], a tradução automática neuronal precisa de grandes quantidades de dados a fm de ter um desempenho melhor que a Tradução Automática Estatística (SMT). No entanto, em pares de línguas com poucos recursos linguísticos isso não é exequível. Para tal, a arquitetura de tradução automática não supervisionada somente requer dados monolingues. A implementação escolhida foi a de Artetxe et al. [2018d] que é constituída por uma arquitetura encoder-decoder. Como contém um double-encoder, para esta abordagem foram consideradas ambas direções: Português ↔ Chinês e Português ↔ Coreano. Para além da reprodução para línguas dissimilares com poucos recursos, também foi elaborado um estudo de replicação do artigo original usando os dados de um dos pares de línguas estudados pelos autores: Inglês ↔ Francês. Outra alternativa para a falta de corpora paralelos é a abordagem pivô. Nesta abordagem, o sistema faz uso de uma terceira língua, designada por pivô, que liga a língua de partida à de chegada. Esta opção é tida em conta quando há existência de dados paralelos em abundância entre as duas línguas. A motivação deste método é fazer jus ao desempenho que as redes neuronais têm quando são alimentadas com grandes volumes de dados. Com a existência de grandes quantidades de corpora paralelos entre todas as línguas em questão e a pivô, o desempenho das redes compensa a propagação de erro introduzida pela língua intermediária. No nosso caso, a língua pivô escolhida foi o inglês pela forte presença de dados paralelos entre o pivô e as restantes três línguas. O sistema começa por traduzir de português para inglês e depois traduz a pivô para coreano ou chinês. Ao contrário da primeira abordagem, só foi considerada uma direção de Português → Chinês e Português → Coreano. Para implementar esta abordagem foi considerada a framework OpenNMT desenvolvida por [Klein et al., 2017]. Os resultados foram avaliados usando a métrica BLEU [Papineni et al., 2002b]. Com esta métrica foi possível comparar o desempenho entre as duas arquiteturas e aferir qual é o método mais efcaz para pares de línguas dissimilares com poucos recursos. Na direção Português → Chinês e Português → Coreano a abordagem pivô foi superior tendo obtido um BLEU de 13,37 pontos para a direção Português → Chinês e um BLEU de 17,28 pontos na direção Português → Coreano. Já com a abordagem de tradução automática neural não supervisionada o valor mais alto obtido na direção Português → Coreano foi de um BLEU de 0,69, enquanto na direção de Português → Chinês foi de 0,32 BLEU (num total de 100). Os valores da tradução não supervisionada vão estão alinhados com os obtidos por [Guzmán et al., 2019], [Kim et al., 2020]. A explicação dada para estes valores baixos prende-se com a qualidade dos cross-lingual embeddings. O desempenho dos cross-lingual embeddings tende a degradar-se quando mapeia pares de línguas distantes e, sendo que modelo de tradução automática não supervisionado é inicializado com os cross-lingual embeddings, caso estes sejam de baixa qualidade, o modelo não converge para um ótimo local, resultando nos valores obtidos na dissertação. Dos dois métodos testados, verifica-se que a abordagem pivô é a que tem melhor performance. Tal como foi possível averiguar pela literatura corrente e também pelos resultados obtidos nesta dissertação, o método neuronal não-supervisionado proposto por Artetxe et al. [2018d] não é sufcientemente robusto para inicializar um sistema de tradução suportado por textos monolingues em línguas distantes. Porém é uma abordagem promissora porque permitiria colmatar uma das grandes lacunas na área de Tradução Automática que se cinge à falta de dados paralelos de boa qualidade. No entanto seria necessário dar mais atenção ao problema dos cross-lingual embeddings em mapear línguas distantes. Este trabalho fornece uma visão sobre o estudo de técnicas não supervisionadas para pares de línguas distantes e providencia uma solução para a construção de sistemas de tradução automática para os pares de língua português-chinês e português-coreano usando dados monolingues. |