| Resumo: | O abandono escolar constitui-se uma problemática de difíceis contornos já que para ele concorrem factores pertencentes a diferentes dimensões da experiência humana, do intrapessoal ao interpessoal, do familiar ao organizacional. No estudo deste fenómeno, com grande impacto social, as abordagens sociológicas e predominantemente quantitativas têm prevalecido. No presente trabalho, para além de tomarmos como objecto de estudo o abandono escolar, quisemos igualmente contribuir para a compreensão da problemática da reinserção, no sentido de captar as potencialidades dos alunos em abandono, quando reintegrados em programas de formação, especificamente voltados para as suas necessidades. O trabalho empírico desenvolveu-se junto de dez alunos do concelho de Leiria, que abandonaram a escolaridade obrigatória, estando cinco deles já integrados no Programa Integrado de Educação e Formação. Pretendeu-se realizar uma abordagem à complexidade do fenómeno do abandono escolar, tomando como referência a perspectiva ecológica do desenvolvimento humano de Broffenbrenner (1987). Os resultados permitem-nos concluir que o abandono está fortemente associado ao insucesso escolar, mediado ou não pela indisciplina e/ou absentismo, antecipado ou não pela adopção de comportamentos de risco. Porém, numa abordagem mais específica aos casos dos diferentes alunos, podemos identificar outras situações em que factores pessoais e interpessoais se sobrepõem ao sucesso escolar. Todavia, a atribuição das causas de insucesso, e mais ainda das de abandono, por parte dos diferentes protagonistas do processo educativo, recai maioritariamente sobre o aluno, sob o rótulo de "desinteresse". A escola é pouco implicada nesta problemática; apenas os pais lhe atribuem algumas responsabilidades; os professores, só quando perspectivam uma acção remediativa, sugerem algumas medidas de diferenciação. O processo de ruptura desencadeia-se entre algumas divergências e desencontros de perspectivas, mas também na convergência de algumas ideias que, por vezes, só apressam o desenlace. A manutenção de uma (quase) inexistente comunicação escola-família é o principal obstáculo à mudança da situação. Como que a fechar um círculo, as memórias agradáveis que ficaram da escola e as diferenças que marcam a reinserção centram-se na dimensão do relacionamento interpessoal e na atenção individualizada às dificuldades na aprendizagem. |