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Para uma caracterização semântica do futuro sintético romântico: descrição e análise dos valores do futuro do indicativo em português e em italiano

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Resumo:O objectivo deste trabalho é o de traçar uma classificação, hierarquicamente organizada, dos usos do futuro sintético em Português Europeu e em Italiano. Pretende-se assim contribuir para a problemática categorização gramatical desta forma verbal nas línguas românicas que a possuem. A análise proposta funda-se em assunções das teorias dinâmicas do significado e em trabalhos de teor funcionalista, especialmente na Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld e Mackenzie 2008). Como ressalta da literatura específica, para além da função de marcar a referência temporal futura, o futuro sintético românico cobre uma vasta gama de empregos modais de tipo volitivo, deôntico, subordinativo e, sobretudo, epistémico. A hipótese que apresento é a de que, nas duas línguas consideradas, todos os valores semânticos que podem ser expressos pelo futuro sintético resultam de um dos dois usos básicos (ou interpretações básicas) da forma, que constituem dois valores gramaticais alternativos: (i) um valor temporal, que, através de um enriquecimento pragmático, pode dar origem a interpretações derivadas deônticas e volitivas; também os chamados usos “gnómico” e “histórico” do futuro românico, que são por vezes apresentados como usos modais, derivam, na minha opinião, de uma interpretação básica temporal da forma, através de um deslocamento do momento da enunciação (na representação mental dos falantes); (ii) um valor epistémico, cuja propriedade característica é a de poder expressar referência temporal não-futura e cuja força modal é determinada por enriquecimento pragmático, se não explicitamente indicada por recursos lexicais ou prosódicos; do uso epistémico do futuro pode derivar uma interpretação concessiva. Finalmente, existe em Português um uso reportativo do futuro (caso único não só no que concerne ao panorama românico) que se argumenta derivar também de um significado gramatical epistémico, embora, aparentemente, esteja a ganhar uma autonomia cada vez maior em relação à correspondente interpretação de base. A classificação assim delineada implica uma proposta de revisão da categorização gramatical tradicional do futuro sintético românico (considerando que, pelo que ressalta da literatura, as outras línguas românicas não exibem outros usos da forma, além dos referidos). A hipótese que coloco é a de que, nos seus dois significados gramaticais (e respectivos usos derivados), a forma pertence a dois paradigmas distintos: o do indicativo, nos usos temporais, e o dos operadores de modalidade epistémica, nos usos epistémico-evidenciais.
Autores principais:Giomi, Riccardo
Assunto:Língua portuguesa Língua italiana Tempos (Linguística) Modalidade (Linguística) Semântica Pragmática Teses de mestrado - 2010
Ano:2010
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O objectivo deste trabalho é o de traçar uma classificação, hierarquicamente organizada, dos usos do futuro sintético em Português Europeu e em Italiano. Pretende-se assim contribuir para a problemática categorização gramatical desta forma verbal nas línguas românicas que a possuem. A análise proposta funda-se em assunções das teorias dinâmicas do significado e em trabalhos de teor funcionalista, especialmente na Gramática Discursivo-Funcional (Hengeveld e Mackenzie 2008). Como ressalta da literatura específica, para além da função de marcar a referência temporal futura, o futuro sintético românico cobre uma vasta gama de empregos modais de tipo volitivo, deôntico, subordinativo e, sobretudo, epistémico. A hipótese que apresento é a de que, nas duas línguas consideradas, todos os valores semânticos que podem ser expressos pelo futuro sintético resultam de um dos dois usos básicos (ou interpretações básicas) da forma, que constituem dois valores gramaticais alternativos: (i) um valor temporal, que, através de um enriquecimento pragmático, pode dar origem a interpretações derivadas deônticas e volitivas; também os chamados usos “gnómico” e “histórico” do futuro românico, que são por vezes apresentados como usos modais, derivam, na minha opinião, de uma interpretação básica temporal da forma, através de um deslocamento do momento da enunciação (na representação mental dos falantes); (ii) um valor epistémico, cuja propriedade característica é a de poder expressar referência temporal não-futura e cuja força modal é determinada por enriquecimento pragmático, se não explicitamente indicada por recursos lexicais ou prosódicos; do uso epistémico do futuro pode derivar uma interpretação concessiva. Finalmente, existe em Português um uso reportativo do futuro (caso único não só no que concerne ao panorama românico) que se argumenta derivar também de um significado gramatical epistémico, embora, aparentemente, esteja a ganhar uma autonomia cada vez maior em relação à correspondente interpretação de base. A classificação assim delineada implica uma proposta de revisão da categorização gramatical tradicional do futuro sintético românico (considerando que, pelo que ressalta da literatura, as outras línguas românicas não exibem outros usos da forma, além dos referidos). A hipótese que coloco é a de que, nos seus dois significados gramaticais (e respectivos usos derivados), a forma pertence a dois paradigmas distintos: o do indicativo, nos usos temporais, e o dos operadores de modalidade epistémica, nos usos epistémico-evidenciais.