Publicação
Eletrocussão de aves em apoios da rede elétrica e métodos de correção
| Resumo: | O aumento da demanda por energia elétrica tem originado uma rede de linhas elétricas cada vez maior, sendo hoje a sua presença na paisagem quase omnipresente. As linhas elétricas podem ter impacto sobre a biodiversidade e o território, nomeadamente alterações na estrutura do habitat e interações diretas com a fauna. Os apoios de linhas elétricas podem ser usados pelas aves como estrutura de poiso, ponto estratégico de caça, dormitório ou mesmo local de nidificação. Esta interação apoio-ave pode conduzir à sua eletrocussão, quando a ave estabelece contacto entre dois elementos condutores, a potenciais diferentes, permitindo a circulação de uma corrente significativa através do seu corpo. São mais afetadas aves de maior envergadura que poisam regularmente em apoios, tais como cegonhas, aves de rapina e corvídeos. A eletrocussão em linhas elétricas é mesmo uma das principais ameaças à conservação de um grande número de espécies de aves no mundo. Espécies com populações reduzidas, tais como a Águia-imperial-ibérica e a Águia de Bonelli são particularmente afetadas pela eletrocussão, acabando por ser um dos fatores importantes na redução do seu efetivo populacional. Para além do impacto nas aves, esta problemática resulta também em graves problemas financeiros pelos cortes energéticos que origina. Dado o seu impacto, várias medidas têm sido implementadas com o objetivo de prevenir ou minimizar a eletrocussão. Uma das medidas mais utilizadas é o isolamento dos condutores junto ao apoio através da aplicação de coberturas de proteção. Este estudo foi realizado no âmbito do Projeto LIFE Imperial e pretende contribuir para o conhecimento sobre a interação das aves com as linhas elétricas. Pretende-se investigar quais os fatores ecológicos e antrópicos que influenciam a probabilidade de eletrocussão nas ZPE de Castro Verde e ZPE do Vale do Guadiana. Numa segunda fase pretende-se aprofundar esta análise a um nível específico, caracterizando os aspetos ecológicos e antrópicos dos apoios onde morreram indivíduos de Águia-imperial-ibérica, Águia de Bonelli e Águia-de-asa-redonda, de forma a tentar perceber de que forma influenciam a sua probabilidade de eletrocussão. Finalmente, este estudo teve ainda como objetivo avaliar a eficácia das principais medidas de correção de apoios em utilização em Portugal, nomeadamente as coberturas de proteção de condutores “Enfitamento”, “Manga” e “Pinças Pretas”. Na primeira parte do trabalho visitaram-se apoios e linhas elétricas sem correções anti-eletrocussão e de tipologias consideradas perigosas nas ZPE de Castro Verde e ZPE do Vale do Guadiana. Foram visitados 284 apoios, tendo-se encontrado 55 casos de eletrocussão em 37 apoios, de 12 espécies diferentes. Os modelos lineares generalizados (GLM) realizados sugerem que a probabilidade de eletrocussão de avifauna na área de estudo aumenta em apoios com maior cobertura de matos envolvente e com a maior distância a estradas alcatroadas. Na segunda parte do trabalho foram compilados dados de apoios onde ocorreu eletrocussão de Águia-de-asa-redonda (76 casos em 66 apoios), Águia de Bonelli (17 casos em 16 apoios) e Águia-imperial-ibérica (12 casos em 12 apoios). Os modelos GLM criados para cada espécie sugerem que indivíduos de Águia-imperial-ibérica têm maior probabilidade de eletrocussão em apoios em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais. Os indivíduos de Águia-de-asa-redonda têm menor probabilidade de eletrocussão em apoios em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais. Para a Águia de Bonelli não se obtiveram resultados estatisticamente significativos, apesar de ter sido neste tipo de habitat onde morreram mais indivíduos. Estes resultados estão provavelmente associados aos hábitos alimentares das espécies, isto é, dependentes da disponibilidade alimentar das áreas. De fato, as áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais apresentam pouca cobertura arbórea e maiores coberturas de matos, associados à presença de coelho e perdiz. A distribuição de Águia-imperial-ibérica é altamente dependente da distribuição de coelho, a sua presa preferencial, existindo assim maior probabilidade de eletrocussão nestas áreas onde esta presa é mais abundante. Apesar de o coelho ser também uma presa importante para a Águia de Bonelli, a sua alimentação é mais diversificada, com uma grande componente de aves, sobretudo perdiz e columbiformes. Estas zonas abertas com grande abundância de presas são usadas pelos juvenis e imaturos de Águia-imperial-ibérica e Águia de Bonelli como áreas de assentamento, sendo estas classes de idade as mais afetadas pela eletrocussão. A Águia-de-asa-redonda é a espécie mais generalista, dando uso a variados tipos de habitat, apresentando uma dieta bastante versátil. Assim a probabilidade de eletrocussão destes indivíduos é menor em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais relativamente às outras espécies. Na terceira parte do trabalho foi selecionado um mínimo de 10 km de linhas elétricas de três diferentes métodos de cobertura de proteção de condutores (“Enfitamento”, “Manga”, “Pinças Pretas”) e da situação controlo – sem correção. Estes troços foram visitados ao longo de 6 meses com uma periocidade mensal em busca de casos de eletrocussão. Verificaram-se diferenças significativas ao nível da mortalidade obtida entre apoios corrigidos e apoios não corrigidos com uma taxa de mortalidade de 0.037 aves/apoio/mês para os apoios não corrigidos e 0,007 aves/apoio/mês para os apoios corrigidos. Assim, a aplicação destas medidas de correção reduz significativamente a mortalidade obtida, comparativamente a apoios não intervencionados. Há no entanto, diferenças entre os métodos de cobertura de proteção de condutores. O “Enfitamento” teve um desempenho significativamente pior que os outros, com uma taxa de mortalidade de 0.025 aves/apoio/mês. Entre a metodologia “Manga”, com 0 aves/apoio/mês e “Pinças Pretas” com 0.002 aves/apoio/mês não se identificaram diferenças significativas ao nível da sua eficácia. Os piores resultados para o “Enfitamento” podem estar relacionados com o facto de os condutores estarem isolados com fita isoladora adesiva, sendo que as aves têm mais facilidade em danificar o material com o seu bico, diminuindo a sua eficácia. Apesar da baixa mortalidade para o método de “Pinças Pretas”, 22,5% destes apoios corrigidos apresentava anomalias, o que pode diminuir a sua eficácia. Para a tipologia “Manga” não só não se verificou nenhum caso de mortalidade, como a redução na mortalidade após a sua instalação foi dramática. No entanto, a sua recente colocação não permite ainda tirar conclusões definitivas seu tempo de vida e eficácia a longo prazo. O elevado número de casos de eletrocussão detetado neste trabalho, quer em número absoluto, quer em número de espécies afetadas, vem confirmar o impacto que esta problemática tem na avifauna. O impacto é sobretudo notório nas rapinas, o grupo mais afetado, sendo particularmente preocupante em espécies ameaçadas de grandes dimensões que são mais suscetíveis à eletrocussão. Diferentes espécies e mesmo classes de idade apresentam diferentes requisitos ambientais, o que se traduz numa distribuição de mortalidade desigual em diferentes habitats. A correção de apoios parece ter um impacto positivo na diminuição da mortalidade das aves, pelo que esta deve ser adaptada à ecologia e comportamento da espécie para se otimizar os resultados. |
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| Autores principais: | Sousa, Jaime Daniel Barbosa Botelho de |
| Assunto: | Eletrocussão de aves Conservação de aves Linhas elétricas Correções anti-eletrocussão Modelos preditivos Teses de mestrado - 2017 |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O aumento da demanda por energia elétrica tem originado uma rede de linhas elétricas cada vez maior, sendo hoje a sua presença na paisagem quase omnipresente. As linhas elétricas podem ter impacto sobre a biodiversidade e o território, nomeadamente alterações na estrutura do habitat e interações diretas com a fauna. Os apoios de linhas elétricas podem ser usados pelas aves como estrutura de poiso, ponto estratégico de caça, dormitório ou mesmo local de nidificação. Esta interação apoio-ave pode conduzir à sua eletrocussão, quando a ave estabelece contacto entre dois elementos condutores, a potenciais diferentes, permitindo a circulação de uma corrente significativa através do seu corpo. São mais afetadas aves de maior envergadura que poisam regularmente em apoios, tais como cegonhas, aves de rapina e corvídeos. A eletrocussão em linhas elétricas é mesmo uma das principais ameaças à conservação de um grande número de espécies de aves no mundo. Espécies com populações reduzidas, tais como a Águia-imperial-ibérica e a Águia de Bonelli são particularmente afetadas pela eletrocussão, acabando por ser um dos fatores importantes na redução do seu efetivo populacional. Para além do impacto nas aves, esta problemática resulta também em graves problemas financeiros pelos cortes energéticos que origina. Dado o seu impacto, várias medidas têm sido implementadas com o objetivo de prevenir ou minimizar a eletrocussão. Uma das medidas mais utilizadas é o isolamento dos condutores junto ao apoio através da aplicação de coberturas de proteção. Este estudo foi realizado no âmbito do Projeto LIFE Imperial e pretende contribuir para o conhecimento sobre a interação das aves com as linhas elétricas. Pretende-se investigar quais os fatores ecológicos e antrópicos que influenciam a probabilidade de eletrocussão nas ZPE de Castro Verde e ZPE do Vale do Guadiana. Numa segunda fase pretende-se aprofundar esta análise a um nível específico, caracterizando os aspetos ecológicos e antrópicos dos apoios onde morreram indivíduos de Águia-imperial-ibérica, Águia de Bonelli e Águia-de-asa-redonda, de forma a tentar perceber de que forma influenciam a sua probabilidade de eletrocussão. Finalmente, este estudo teve ainda como objetivo avaliar a eficácia das principais medidas de correção de apoios em utilização em Portugal, nomeadamente as coberturas de proteção de condutores “Enfitamento”, “Manga” e “Pinças Pretas”. Na primeira parte do trabalho visitaram-se apoios e linhas elétricas sem correções anti-eletrocussão e de tipologias consideradas perigosas nas ZPE de Castro Verde e ZPE do Vale do Guadiana. Foram visitados 284 apoios, tendo-se encontrado 55 casos de eletrocussão em 37 apoios, de 12 espécies diferentes. Os modelos lineares generalizados (GLM) realizados sugerem que a probabilidade de eletrocussão de avifauna na área de estudo aumenta em apoios com maior cobertura de matos envolvente e com a maior distância a estradas alcatroadas. Na segunda parte do trabalho foram compilados dados de apoios onde ocorreu eletrocussão de Águia-de-asa-redonda (76 casos em 66 apoios), Águia de Bonelli (17 casos em 16 apoios) e Águia-imperial-ibérica (12 casos em 12 apoios). Os modelos GLM criados para cada espécie sugerem que indivíduos de Águia-imperial-ibérica têm maior probabilidade de eletrocussão em apoios em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais. Os indivíduos de Águia-de-asa-redonda têm menor probabilidade de eletrocussão em apoios em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais. Para a Águia de Bonelli não se obtiveram resultados estatisticamente significativos, apesar de ter sido neste tipo de habitat onde morreram mais indivíduos. Estes resultados estão provavelmente associados aos hábitos alimentares das espécies, isto é, dependentes da disponibilidade alimentar das áreas. De fato, as áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais apresentam pouca cobertura arbórea e maiores coberturas de matos, associados à presença de coelho e perdiz. A distribuição de Águia-imperial-ibérica é altamente dependente da distribuição de coelho, a sua presa preferencial, existindo assim maior probabilidade de eletrocussão nestas áreas onde esta presa é mais abundante. Apesar de o coelho ser também uma presa importante para a Águia de Bonelli, a sua alimentação é mais diversificada, com uma grande componente de aves, sobretudo perdiz e columbiformes. Estas zonas abertas com grande abundância de presas são usadas pelos juvenis e imaturos de Águia-imperial-ibérica e Águia de Bonelli como áreas de assentamento, sendo estas classes de idade as mais afetadas pela eletrocussão. A Águia-de-asa-redonda é a espécie mais generalista, dando uso a variados tipos de habitat, apresentando uma dieta bastante versátil. Assim a probabilidade de eletrocussão destes indivíduos é menor em áreas de agricultura com espaços naturais e semi-naturais relativamente às outras espécies. Na terceira parte do trabalho foi selecionado um mínimo de 10 km de linhas elétricas de três diferentes métodos de cobertura de proteção de condutores (“Enfitamento”, “Manga”, “Pinças Pretas”) e da situação controlo – sem correção. Estes troços foram visitados ao longo de 6 meses com uma periocidade mensal em busca de casos de eletrocussão. Verificaram-se diferenças significativas ao nível da mortalidade obtida entre apoios corrigidos e apoios não corrigidos com uma taxa de mortalidade de 0.037 aves/apoio/mês para os apoios não corrigidos e 0,007 aves/apoio/mês para os apoios corrigidos. Assim, a aplicação destas medidas de correção reduz significativamente a mortalidade obtida, comparativamente a apoios não intervencionados. Há no entanto, diferenças entre os métodos de cobertura de proteção de condutores. O “Enfitamento” teve um desempenho significativamente pior que os outros, com uma taxa de mortalidade de 0.025 aves/apoio/mês. Entre a metodologia “Manga”, com 0 aves/apoio/mês e “Pinças Pretas” com 0.002 aves/apoio/mês não se identificaram diferenças significativas ao nível da sua eficácia. Os piores resultados para o “Enfitamento” podem estar relacionados com o facto de os condutores estarem isolados com fita isoladora adesiva, sendo que as aves têm mais facilidade em danificar o material com o seu bico, diminuindo a sua eficácia. Apesar da baixa mortalidade para o método de “Pinças Pretas”, 22,5% destes apoios corrigidos apresentava anomalias, o que pode diminuir a sua eficácia. Para a tipologia “Manga” não só não se verificou nenhum caso de mortalidade, como a redução na mortalidade após a sua instalação foi dramática. No entanto, a sua recente colocação não permite ainda tirar conclusões definitivas seu tempo de vida e eficácia a longo prazo. O elevado número de casos de eletrocussão detetado neste trabalho, quer em número absoluto, quer em número de espécies afetadas, vem confirmar o impacto que esta problemática tem na avifauna. O impacto é sobretudo notório nas rapinas, o grupo mais afetado, sendo particularmente preocupante em espécies ameaçadas de grandes dimensões que são mais suscetíveis à eletrocussão. Diferentes espécies e mesmo classes de idade apresentam diferentes requisitos ambientais, o que se traduz numa distribuição de mortalidade desigual em diferentes habitats. A correção de apoios parece ter um impacto positivo na diminuição da mortalidade das aves, pelo que esta deve ser adaptada à ecologia e comportamento da espécie para se otimizar os resultados. |
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