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José Régio e a Ironia enquanto Vocação

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Resumo:A presente dissertação tem como objetivo estudar o conceito de ironia, tal como é entendido por José Régio (1901-1969) e trabalhado ao longo da sua obra, bem como mostrar a sua importância no projeto literário do autor. Na primeira parte, “A Conceção Regiana de Ironia,” procuro caracterizar em detalhe aquilo a que José Régio se refere por ironia, partindo de um conjunto de textos do autor que se debruçam, de modo mais ou menos direto, sobre este tema. Neste momento, a ironia regiana começa por ser descrita como uma característica inata de personalidade, que predispõe certas pessoas a não se comprometerem com quaisquer ideias ou ideais, por nunca poderem chegar a um conhecimento total das coisas. Para além desta natureza cética, a ironia regiana reflete, aqui, alguns temas românticos, nomeadamente, o desejo de verdade, unidade e perfeição por parte do indivíduo, que coexiste com a consciência da sua condição limitada e imperfeita. Este dualismo fundamental no sujeito regiano é descrito como uma forma de desdobramento do ego, um conflito entre um eu que age e um eu que critica a ação por lhe reconhecer invariavelmente falhas, fruto do conhecimento limitado da realidade. Serão analisados poemas do autor nos quais o sujeito poético adota esta última perspetiva crítica. Na segunda parte, “A Vocação de Ironista,” procuro expôr o modo como Régio tematiza o lado fenomenológico da ironia: numa primeira fase, o processo irónico assume a forma de um desdobramento alienante do sujeito, através do qual ele se liberta das suas condicionantes bio-psico-socio-culturais e observa a sua vida de um ponto alegadamente exterior e neutro, momento em que é revelado o caráter factício do valor anteriormente atribuído a essa vida. Este movimento é associado a um conhecimento mais apurado da realidade, e este conhecimento, por sua vez, é permeado por conotações místicas. Uma das conclusões que retiro neste ponto é que a ironia regiana pode ser entendida como um dom divino, estando intimamente associada ao conflito religioso regiano, nomeadamente à luta mística de emancipação do Espírito em relação à Carne. Na expressão desta luta surge, em vários textos regianos, uma figura recorrente, a que o autor dá o nome de «Perseguidor-Revelador,» cuja caracterização e função na temática da ironia procuraremos também descrever. Na terceira parte, “Deus, Diabo e Ironia,” veremos como as considerações anteriores poderão conduzir-nos a um novo ponto de vista para a interpretação do papel do Diabo na literatura regiana, tomando como ponto central o conceito de Desprezo, o que, por sua vez, irá influenciar a compreensão da personagem recorrente Jaime Franco (o “Diabo em pessoa”) e as suas interações com os heróis Pedro Serra e Lelito nos romances Jogo da Cabra Cega e A Velha Casa, respetivamente.
Autores principais:Pereira, António Flávio Marques
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A presente dissertação tem como objetivo estudar o conceito de ironia, tal como é entendido por José Régio (1901-1969) e trabalhado ao longo da sua obra, bem como mostrar a sua importância no projeto literário do autor. Na primeira parte, “A Conceção Regiana de Ironia,” procuro caracterizar em detalhe aquilo a que José Régio se refere por ironia, partindo de um conjunto de textos do autor que se debruçam, de modo mais ou menos direto, sobre este tema. Neste momento, a ironia regiana começa por ser descrita como uma característica inata de personalidade, que predispõe certas pessoas a não se comprometerem com quaisquer ideias ou ideais, por nunca poderem chegar a um conhecimento total das coisas. Para além desta natureza cética, a ironia regiana reflete, aqui, alguns temas românticos, nomeadamente, o desejo de verdade, unidade e perfeição por parte do indivíduo, que coexiste com a consciência da sua condição limitada e imperfeita. Este dualismo fundamental no sujeito regiano é descrito como uma forma de desdobramento do ego, um conflito entre um eu que age e um eu que critica a ação por lhe reconhecer invariavelmente falhas, fruto do conhecimento limitado da realidade. Serão analisados poemas do autor nos quais o sujeito poético adota esta última perspetiva crítica. Na segunda parte, “A Vocação de Ironista,” procuro expôr o modo como Régio tematiza o lado fenomenológico da ironia: numa primeira fase, o processo irónico assume a forma de um desdobramento alienante do sujeito, através do qual ele se liberta das suas condicionantes bio-psico-socio-culturais e observa a sua vida de um ponto alegadamente exterior e neutro, momento em que é revelado o caráter factício do valor anteriormente atribuído a essa vida. Este movimento é associado a um conhecimento mais apurado da realidade, e este conhecimento, por sua vez, é permeado por conotações místicas. Uma das conclusões que retiro neste ponto é que a ironia regiana pode ser entendida como um dom divino, estando intimamente associada ao conflito religioso regiano, nomeadamente à luta mística de emancipação do Espírito em relação à Carne. Na expressão desta luta surge, em vários textos regianos, uma figura recorrente, a que o autor dá o nome de «Perseguidor-Revelador,» cuja caracterização e função na temática da ironia procuraremos também descrever. Na terceira parte, “Deus, Diabo e Ironia,” veremos como as considerações anteriores poderão conduzir-nos a um novo ponto de vista para a interpretação do papel do Diabo na literatura regiana, tomando como ponto central o conceito de Desprezo, o que, por sua vez, irá influenciar a compreensão da personagem recorrente Jaime Franco (o “Diabo em pessoa”) e as suas interações com os heróis Pedro Serra e Lelito nos romances Jogo da Cabra Cega e A Velha Casa, respetivamente.