Publicação
Cannabis-based skin products: where are we at?
| Resumo: | A dermatologia e os cuidados com a pele são um setor inovador e em constante pesquisa e desenvolvimento, visando satisfazer as necessidades cada vez mais exigentes dos consumidores na melhoria da aparência e das condições da pele. Recentemente inúmeras empresas têm apostado em ingredientes à base de plantas, reflexo da crescente preocupação com a sustentabilidade ambiental, procurando também ingredientes nunca antes utilizados no contexto da pele, como fator de inovação de modo a se destacarem num mercado que é bastante competitivo. Como resultado, os produtos à base da planta Cannabis sativa ganharam protagonismo na fileira da inovação, apresentando elevadas taxas de crescimento e de diversificação em produtos para a pele. No entanto, perdura alguma confusão relativamente aos benefícios destes produtos principalmente pela incerteza nas suas composições. As propriedades terapêuticas da planta de canábis são principalmente devido a dois fitocanabinóides produzidos na planta: o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinoide (THC). Estes dois canabinóides são produzidos e depositados nos tricomas glandulares da planta Cannabis sativa, e encontram-se principalmente nas flores, podendo também estar presentes nas folhas e, ocasionalmente, nos caules das plantas. No entanto, enquanto que o THC possui efeitos psicotrópicos e, por isso tem restrições regulamentares estreitas, o CBD não exerce efeitos a nível psíquico havendo uma maior liberdade de aplicações a nível do mercado, apesar de também estar sujeito a regulamentação própria. Desta forma, entre os produtos de canábis para os cuidados da pele, destaca-se o óleo de CBD (com alto potencial terapêutico e sem efeitos psicotrópicos indesejáveis) e o óleo de semente de cânhamo (que não contém praticamente canabinóides na sua composição). Assim, o cânhamo é uma variedade de canábis praticamente sem efeitos psicoativos e que pode ser usada para produzir óleos com altos níveis de CBD, mas com níveis muito baixos e praticamente insignificantes de THC (< a 0,2%). No entanto, tem havido alguma heterogeneidade na forma como é regulada a planta de canábis e os seus derivados a nível internacional. Relativamente à regulamentação do uso de canábis para fins medicinais, a planta de canábis é controlada internacionalmente conforme as 3 convenções internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o uso de substâncias psicotrópicas. Todavia, o baixo risco de dependência e de abuso do CBD, o facto deste fitocanabinóide ter benefícios potenciais em determinadas patologias e de não estar explicitamente listado nas convenções das Nações Unidas, tem levado à existência de um ambiente regulatório europeu ambíguo e dependente de cada país. Como consequência, existem inúmeros produtos de CBD com alegações para fins medicinais (descrevendo benefícios à saúde, mas muitas vezes sem evidências), como suplementos em cápsulas para várias doenças, cosméticos (por exemplo, óleos de cânhamo), etc., que estão a ser fabricados e distribuídos sem supervisão regulamentar e, por vezes, com conteúdo não verificado. Por outro lado, existem muitas evidências de que compostos presentes na canábis, como o óleo de CBD e o óleo de semente de cânhamo, têm resultados favoráveis no controlo e prevenção de certas doenças da pele. Isto deve-se à capacidade antioxidante, anti-inflamatória e reguladora de sebo do CBD e aos efeitos reparadores, hidratantes e antioxidantes do óleo de semente de cânhamo na pele. O sistema endocanabinóide (ECS) é expresso na pele, e engloba recetores canabinóides (CB1 e CB2), os seus ligantes lipídicos produzidos endogenamente no corpo humano (os endocanabinóides, como AEA e 2-AG) e as enzimas envolvidas na síntese e degradação de endocanabinóides. Se por um lado, a sinalização do ECS pode influenciar vários aspetos da biologia da pele, por outro lado, a sua desregulação pode contribuir para o desenvolvimento de várias patologias cutâneas. Portanto, o CBD ao atuar farmacologicamente na sinalização do sistema ECS, pode ser uma ferramenta potencial no tratamento de condições da pele. De facto, através de vários estudos de evidência, o CBD demonstrou ter um potencial eficaz no controlo da acne, seborreia, dermatite alérgica de contato, psoríase e fotoenvelhecimento. Quanto à regulamentação do uso de canábis para fins cosméticos, de acordo com as convenções da ONU, se as plantas forem cultivadas para fins cosméticos estas estão excluídas do controlo internacional. Além disso, a Convenção Única de 1961 define "canábis" como os "topos em flor ou frutificação da planta (excluindo sementes e folhas quando não acompanhados de topos) da qual a resina não foi extraída”. Portanto, e do ponto de vista da Legislação Cosmética da União Europeia, o uso de CBD derivado de extrato de canábis, tintura ou resina é proibido. No entanto, este pode ser usado se for proveniente de folhas (não acompanhada pelos topos de flor ou frutificação da planta) ou se for produzido sinteticamente em laboratório. Adicionalmente, e conforme legalizado no Artigo n.º 32 do Regulamento (UE) N.º 1307/2013 do Parlamento Europeu e do Conselho, “as áreas destinadas à produção de cânhamo só serão elegíveis se as variedades utilizadas tiverem um teor de THC não superior a 0,2%”. Como tal, desde que os níveis de THC não ultrapassem o limite estipulado, muitos óleos de CBD e óleos de semente de cânhamo podem ser legalmente vendidos no mercado cosmético. Não obstante, subsistem ainda alguns desafios regulamentares, dada a inexistência de um quadro normalizado para todos os estados membros da EU. Como resultado, existem algumas variações nos limites autorizados de THC e das partes extraídas das plantas, levando a que haja regras mais restritivas em determinados países do que noutros. Portanto, é fulcral a existência de um quadro regulamentar mais claro, coerente e atualizado em toda a Europa, permitindo um mercado mais estável e seguro para medicamentos e cosméticos à base de canábis, com padrões de teste mais abrangentes e supervisão rigorosa para garantir que os produtos à base da planta Cannabis sativa contêm exatamente o que é alegado. O óleo de semente de cânhamo tem demonstrado efeitos benéficos na pele, principalmente devido à sua elevada riqueza em ácidos gordos poliinsaturados e às suas quantidades significativas em vitaminas antioxidantes, nomeadamente de vitamina E. Na realidade, o óleo de semente de cânhamo em estudos experimentais demonstrou ter efeitos hidratantes e restauradores da barreira cutânea, com implicação direta na hidratação da pele seca e na diminuição da perda de água transepidérmica (TEWL), levando concominantente com os seus constituintes antioxidantes à eficácia anti-envelhecimento. No entanto, muitos estudos até aos dias de hoje são pré-clínicos (in vitro) e carecem ainda de estudos in vivo. Como tal, é fundamental existirem ensaios que apresentem provas evidentes e inequívocas relativamente à segurança e aos efeitos produzidos (terapêuticos e/ou cosméticos) pelos CBD e do óleo de semente de cânhamo de modo a clarificar a população e abrir novos caminhos no tratamento de diversas afeções cutâneas. |
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| Autores principais: | Vilas Boas, Inês da Silva |
| Assunto: | Cannabis sativa CBD Óleo de semente de cânhamo Regulamentação europeia Eficácia Mestrado integrado - 2020 |
| Ano: | 2020 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A dermatologia e os cuidados com a pele são um setor inovador e em constante pesquisa e desenvolvimento, visando satisfazer as necessidades cada vez mais exigentes dos consumidores na melhoria da aparência e das condições da pele. Recentemente inúmeras empresas têm apostado em ingredientes à base de plantas, reflexo da crescente preocupação com a sustentabilidade ambiental, procurando também ingredientes nunca antes utilizados no contexto da pele, como fator de inovação de modo a se destacarem num mercado que é bastante competitivo. Como resultado, os produtos à base da planta Cannabis sativa ganharam protagonismo na fileira da inovação, apresentando elevadas taxas de crescimento e de diversificação em produtos para a pele. No entanto, perdura alguma confusão relativamente aos benefícios destes produtos principalmente pela incerteza nas suas composições. As propriedades terapêuticas da planta de canábis são principalmente devido a dois fitocanabinóides produzidos na planta: o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinoide (THC). Estes dois canabinóides são produzidos e depositados nos tricomas glandulares da planta Cannabis sativa, e encontram-se principalmente nas flores, podendo também estar presentes nas folhas e, ocasionalmente, nos caules das plantas. No entanto, enquanto que o THC possui efeitos psicotrópicos e, por isso tem restrições regulamentares estreitas, o CBD não exerce efeitos a nível psíquico havendo uma maior liberdade de aplicações a nível do mercado, apesar de também estar sujeito a regulamentação própria. Desta forma, entre os produtos de canábis para os cuidados da pele, destaca-se o óleo de CBD (com alto potencial terapêutico e sem efeitos psicotrópicos indesejáveis) e o óleo de semente de cânhamo (que não contém praticamente canabinóides na sua composição). Assim, o cânhamo é uma variedade de canábis praticamente sem efeitos psicoativos e que pode ser usada para produzir óleos com altos níveis de CBD, mas com níveis muito baixos e praticamente insignificantes de THC (< a 0,2%). No entanto, tem havido alguma heterogeneidade na forma como é regulada a planta de canábis e os seus derivados a nível internacional. Relativamente à regulamentação do uso de canábis para fins medicinais, a planta de canábis é controlada internacionalmente conforme as 3 convenções internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o uso de substâncias psicotrópicas. Todavia, o baixo risco de dependência e de abuso do CBD, o facto deste fitocanabinóide ter benefícios potenciais em determinadas patologias e de não estar explicitamente listado nas convenções das Nações Unidas, tem levado à existência de um ambiente regulatório europeu ambíguo e dependente de cada país. Como consequência, existem inúmeros produtos de CBD com alegações para fins medicinais (descrevendo benefícios à saúde, mas muitas vezes sem evidências), como suplementos em cápsulas para várias doenças, cosméticos (por exemplo, óleos de cânhamo), etc., que estão a ser fabricados e distribuídos sem supervisão regulamentar e, por vezes, com conteúdo não verificado. Por outro lado, existem muitas evidências de que compostos presentes na canábis, como o óleo de CBD e o óleo de semente de cânhamo, têm resultados favoráveis no controlo e prevenção de certas doenças da pele. Isto deve-se à capacidade antioxidante, anti-inflamatória e reguladora de sebo do CBD e aos efeitos reparadores, hidratantes e antioxidantes do óleo de semente de cânhamo na pele. O sistema endocanabinóide (ECS) é expresso na pele, e engloba recetores canabinóides (CB1 e CB2), os seus ligantes lipídicos produzidos endogenamente no corpo humano (os endocanabinóides, como AEA e 2-AG) e as enzimas envolvidas na síntese e degradação de endocanabinóides. Se por um lado, a sinalização do ECS pode influenciar vários aspetos da biologia da pele, por outro lado, a sua desregulação pode contribuir para o desenvolvimento de várias patologias cutâneas. Portanto, o CBD ao atuar farmacologicamente na sinalização do sistema ECS, pode ser uma ferramenta potencial no tratamento de condições da pele. De facto, através de vários estudos de evidência, o CBD demonstrou ter um potencial eficaz no controlo da acne, seborreia, dermatite alérgica de contato, psoríase e fotoenvelhecimento. Quanto à regulamentação do uso de canábis para fins cosméticos, de acordo com as convenções da ONU, se as plantas forem cultivadas para fins cosméticos estas estão excluídas do controlo internacional. Além disso, a Convenção Única de 1961 define "canábis" como os "topos em flor ou frutificação da planta (excluindo sementes e folhas quando não acompanhados de topos) da qual a resina não foi extraída”. Portanto, e do ponto de vista da Legislação Cosmética da União Europeia, o uso de CBD derivado de extrato de canábis, tintura ou resina é proibido. No entanto, este pode ser usado se for proveniente de folhas (não acompanhada pelos topos de flor ou frutificação da planta) ou se for produzido sinteticamente em laboratório. Adicionalmente, e conforme legalizado no Artigo n.º 32 do Regulamento (UE) N.º 1307/2013 do Parlamento Europeu e do Conselho, “as áreas destinadas à produção de cânhamo só serão elegíveis se as variedades utilizadas tiverem um teor de THC não superior a 0,2%”. Como tal, desde que os níveis de THC não ultrapassem o limite estipulado, muitos óleos de CBD e óleos de semente de cânhamo podem ser legalmente vendidos no mercado cosmético. Não obstante, subsistem ainda alguns desafios regulamentares, dada a inexistência de um quadro normalizado para todos os estados membros da EU. Como resultado, existem algumas variações nos limites autorizados de THC e das partes extraídas das plantas, levando a que haja regras mais restritivas em determinados países do que noutros. Portanto, é fulcral a existência de um quadro regulamentar mais claro, coerente e atualizado em toda a Europa, permitindo um mercado mais estável e seguro para medicamentos e cosméticos à base de canábis, com padrões de teste mais abrangentes e supervisão rigorosa para garantir que os produtos à base da planta Cannabis sativa contêm exatamente o que é alegado. O óleo de semente de cânhamo tem demonstrado efeitos benéficos na pele, principalmente devido à sua elevada riqueza em ácidos gordos poliinsaturados e às suas quantidades significativas em vitaminas antioxidantes, nomeadamente de vitamina E. Na realidade, o óleo de semente de cânhamo em estudos experimentais demonstrou ter efeitos hidratantes e restauradores da barreira cutânea, com implicação direta na hidratação da pele seca e na diminuição da perda de água transepidérmica (TEWL), levando concominantente com os seus constituintes antioxidantes à eficácia anti-envelhecimento. No entanto, muitos estudos até aos dias de hoje são pré-clínicos (in vitro) e carecem ainda de estudos in vivo. Como tal, é fundamental existirem ensaios que apresentem provas evidentes e inequívocas relativamente à segurança e aos efeitos produzidos (terapêuticos e/ou cosméticos) pelos CBD e do óleo de semente de cânhamo de modo a clarificar a população e abrir novos caminhos no tratamento de diversas afeções cutâneas. |
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