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Anemia de células falciformes e hemoglobina fetal : avaliação da HbF e das cadeias G gama/A gama da HbF num grupo de crianças angolanas antes e após o tratamento com hidroxiureia
| Summary: | A anemia de células falciformes (ACF) é uma anemia hereditária autossómica recessiva caracterizada pela presença de hemoglobina S (HbS) em homozigotia, encontrando-se entre as doenças genéticas mais comuns. Os dados da Iniciativa de Anemia Falciforme em Angola, entre 2011 e 2018, indicam que das 323930 crianças submetidas à triagem neonatal da ACF, 7748 (2,39%) possuem a doença e 58043 (17,91%) são portadoras do traço falciforme. Estima-se que surjam anualmente mais de quinze mil novos casos da doença em Angola 1. O evento primário da patogénese da ACF é a polimerização da HbS que ocorre quando desoxigenada, resultando na distorção do glóbulo vermelho (GV) e na diminuição da sua flexibilidade. A sua fisiopatologia resulta direta ou indiretamente da obstrução vascular devida à presença de células falciformes, com consequente enfarte tecidular. A hipoxia tecidular causada pela vaso-oclusão na microcirculação e a consequente lesão multiorgânica, constitui a principal causa de morbilidade e mortalidade nesta doença. Apesar de ser uma doença monogénica, o seu fenótipo clínico é heterogéneo, variando de relativamente moderado a muito grave. Alguns doentes apenas apresentam sintomas moderados associados à anemia hemolítica crónica, enquanto que outros sofrem de crises dolorosas de repetição e lesões graves multiorgânicas. Este facto deve-se à influência modificadora tanto de fatores ambientais, como de fatores genéticos. Entre estes últimos salienta-se o nível de expressão da hemoglobina fetal (HbF), não só por diminuir a concentração da HbS no interior do GV, mas também pelo facto de inibir a sua polimerização. Na ACF a concentração da HbF varia entre 0,1% e 30%, com uma média de 8% 2. Os níveis de HbF aumentados conferem grandes benefícios clínicos e encontram-se associados a uma progressão da doença mais suave e com menos complicações clínicas. A hidroxiureia (HU) é um fármaco muito explorado em relação ao seu efeito indutor da síntese da cadeia de γ-globina e consequente aumento dos níveis de HbF, efeito este promissor para tratar a ACF. A resposta dos doentes à HU é altamente variável e, aproximadamente 30% dos doentes com ACF não respondem ao tratamento 3. Realizou-se um estudo exploratório com 36 crianças angolanas com ACF, 19 do género feminino e 17 do género masculino, cuja média de idade foi de 7 anos. O presente trabalho teve como objetivo avaliar os níveis de HbF antes e após 6 e 12 meses de tratamento com HU, utilizando como amostra sangue hemolisado. As cadeias Gγ e Aγ pré-tratamento foram também analisadas. Fez-se ainda uma avaliação da concordância entre os métodos cromatográficos de troca iónica e fase reversa para a quantificação de HbF, através da análise de Bland-Altman. A HbF pré-tratamento e após 6 e 12 meses de tratamento foi determinada 8 pelo método de cromatografia líquida de troca iónica (IEX-HPLC) e as cadeias de globina Gγ e Aγ pré-tratamento foram determinadas por cromatografia líquida de fase reversa (RPHPLC). Os dados foram tratados estatisticamente. A média da HbF nas 36 crianças com ACF avaliadas, no pré-tratamento foi de 6,3%, após 6 meses de tratamento foi de 14,7% e após 12 meses de tratamento foi de 12,9%. Em 2,8% dos doentes verificou-se um aumento mínimo dos níveis de HbF após 6 meses de tratamento com HU. Os níveis de HbF após 6 meses de tratamento duplicaram em 47,2% dos doentes, triplicaram em 27,8% dos doentes e 22,2% dos doentes apresentaram níveis de HbF aumentados em quatro vezes ou mais. Após 6 meses de tratamento, 50% dos doentes adquiriram um nível de HbF entre 10% e 20%, enquanto que apenas 19,4% dos doentes apresentaram esses níveis de HbF na fase de pré-tratamento, e 22,2% dos doentes obtiveram níveis de HbF ≥20%. Em nenhum dos 36 doentes se detetou níveis de HbF ≥20% no pré-tratamento. Após 12 meses de tratamento, a percentagem de doentes que mantiveram e/ou alcançaram níveis de HbF entre 10% e 20% foi de 52,8% e, dos que alcançaram níveis de HbF acima ou iguais a 20% foi de 11,1%. Os resultados evidenciaram que a HU foi eficaz na elevação dos níveis de HbF logo após 6 meses de tratamento. Após 12 meses de tratamento verificou-se uma estabilização ou ligeira diminuição nos níveis de HbF. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no aumento do nível de HbF, após tratamento com HU, entre os géneros feminino e masculino, nem entre os grupos etários de 3 a 7 e 8 a 11 anos. Na fase de pré-tratamento nas 36 crianças, obteve-se uma média da cadeia Gγ de 38,17% e da cadeia Aγ de 61,83%. A análise preliminar das cadeias de globina mostrou em 4 amostras a relação Gγ/Aγ >1, enquanto 32 amostras mostraram valor compatível com o padrão do adulto de relação <1. Relativamente à avaliação dos dois métodos cromatográficos IEX-HPLC e RP-HPLC para quantificação da HbF, a análise de Bland-Altman demonstrou que a média das diferenças entre os métodos é 0,3 unidades, o que significa que há concordância de resultados. Conclui-se, que a HU é um fármaco eficaz na elevação dos níveis de HbF, logo nos 6 primeiros meses de tratamento e, portanto, pode contribuir positivamente para o tratamento da ACF na população em estudo, uma vez que a HbF é um dos principais moduladores da gravidade da doença. A avaliação da concordância entre os métodos cromatográficos para a quantificação da HbF mostrou que ambos são adequados para o fim pretendido. |
|---|---|
| Main Authors: | Almeida, Priscilla Silva de |
| Subject: | Anemia Células falciformes Hemoglobina S Hemoglobina fetal Hidroxiureia Teses de mestrado - 2022 |
| Year: | 2022 |
| Country: | Portugal |
| Document type: | master thesis |
| Access type: | open access |
| Associated institution: | Universidade de Lisboa |
| Language: | Portuguese |
| Origin: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Summary: | A anemia de células falciformes (ACF) é uma anemia hereditária autossómica recessiva caracterizada pela presença de hemoglobina S (HbS) em homozigotia, encontrando-se entre as doenças genéticas mais comuns. Os dados da Iniciativa de Anemia Falciforme em Angola, entre 2011 e 2018, indicam que das 323930 crianças submetidas à triagem neonatal da ACF, 7748 (2,39%) possuem a doença e 58043 (17,91%) são portadoras do traço falciforme. Estima-se que surjam anualmente mais de quinze mil novos casos da doença em Angola 1. O evento primário da patogénese da ACF é a polimerização da HbS que ocorre quando desoxigenada, resultando na distorção do glóbulo vermelho (GV) e na diminuição da sua flexibilidade. A sua fisiopatologia resulta direta ou indiretamente da obstrução vascular devida à presença de células falciformes, com consequente enfarte tecidular. A hipoxia tecidular causada pela vaso-oclusão na microcirculação e a consequente lesão multiorgânica, constitui a principal causa de morbilidade e mortalidade nesta doença. Apesar de ser uma doença monogénica, o seu fenótipo clínico é heterogéneo, variando de relativamente moderado a muito grave. Alguns doentes apenas apresentam sintomas moderados associados à anemia hemolítica crónica, enquanto que outros sofrem de crises dolorosas de repetição e lesões graves multiorgânicas. Este facto deve-se à influência modificadora tanto de fatores ambientais, como de fatores genéticos. Entre estes últimos salienta-se o nível de expressão da hemoglobina fetal (HbF), não só por diminuir a concentração da HbS no interior do GV, mas também pelo facto de inibir a sua polimerização. Na ACF a concentração da HbF varia entre 0,1% e 30%, com uma média de 8% 2. Os níveis de HbF aumentados conferem grandes benefícios clínicos e encontram-se associados a uma progressão da doença mais suave e com menos complicações clínicas. A hidroxiureia (HU) é um fármaco muito explorado em relação ao seu efeito indutor da síntese da cadeia de γ-globina e consequente aumento dos níveis de HbF, efeito este promissor para tratar a ACF. A resposta dos doentes à HU é altamente variável e, aproximadamente 30% dos doentes com ACF não respondem ao tratamento 3. Realizou-se um estudo exploratório com 36 crianças angolanas com ACF, 19 do género feminino e 17 do género masculino, cuja média de idade foi de 7 anos. O presente trabalho teve como objetivo avaliar os níveis de HbF antes e após 6 e 12 meses de tratamento com HU, utilizando como amostra sangue hemolisado. As cadeias Gγ e Aγ pré-tratamento foram também analisadas. Fez-se ainda uma avaliação da concordância entre os métodos cromatográficos de troca iónica e fase reversa para a quantificação de HbF, através da análise de Bland-Altman. A HbF pré-tratamento e após 6 e 12 meses de tratamento foi determinada 8 pelo método de cromatografia líquida de troca iónica (IEX-HPLC) e as cadeias de globina Gγ e Aγ pré-tratamento foram determinadas por cromatografia líquida de fase reversa (RPHPLC). Os dados foram tratados estatisticamente. A média da HbF nas 36 crianças com ACF avaliadas, no pré-tratamento foi de 6,3%, após 6 meses de tratamento foi de 14,7% e após 12 meses de tratamento foi de 12,9%. Em 2,8% dos doentes verificou-se um aumento mínimo dos níveis de HbF após 6 meses de tratamento com HU. Os níveis de HbF após 6 meses de tratamento duplicaram em 47,2% dos doentes, triplicaram em 27,8% dos doentes e 22,2% dos doentes apresentaram níveis de HbF aumentados em quatro vezes ou mais. Após 6 meses de tratamento, 50% dos doentes adquiriram um nível de HbF entre 10% e 20%, enquanto que apenas 19,4% dos doentes apresentaram esses níveis de HbF na fase de pré-tratamento, e 22,2% dos doentes obtiveram níveis de HbF ≥20%. Em nenhum dos 36 doentes se detetou níveis de HbF ≥20% no pré-tratamento. Após 12 meses de tratamento, a percentagem de doentes que mantiveram e/ou alcançaram níveis de HbF entre 10% e 20% foi de 52,8% e, dos que alcançaram níveis de HbF acima ou iguais a 20% foi de 11,1%. Os resultados evidenciaram que a HU foi eficaz na elevação dos níveis de HbF logo após 6 meses de tratamento. Após 12 meses de tratamento verificou-se uma estabilização ou ligeira diminuição nos níveis de HbF. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no aumento do nível de HbF, após tratamento com HU, entre os géneros feminino e masculino, nem entre os grupos etários de 3 a 7 e 8 a 11 anos. Na fase de pré-tratamento nas 36 crianças, obteve-se uma média da cadeia Gγ de 38,17% e da cadeia Aγ de 61,83%. A análise preliminar das cadeias de globina mostrou em 4 amostras a relação Gγ/Aγ >1, enquanto 32 amostras mostraram valor compatível com o padrão do adulto de relação <1. Relativamente à avaliação dos dois métodos cromatográficos IEX-HPLC e RP-HPLC para quantificação da HbF, a análise de Bland-Altman demonstrou que a média das diferenças entre os métodos é 0,3 unidades, o que significa que há concordância de resultados. Conclui-se, que a HU é um fármaco eficaz na elevação dos níveis de HbF, logo nos 6 primeiros meses de tratamento e, portanto, pode contribuir positivamente para o tratamento da ACF na população em estudo, uma vez que a HbF é um dos principais moduladores da gravidade da doença. A avaliação da concordância entre os métodos cromatográficos para a quantificação da HbF mostrou que ambos são adequados para o fim pretendido. |
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