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A sintaxe da negação em construções declarativas e imperativas no cabo-verdiano numa perspetiva comparada

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Detalhes bibliográficos
Resumo:Esta dissertação centra-se no estudo da sintaxe da negação em frases declarativas e imperativas no Cabo-verdiano – variedade de Santiago (CV) – numa perspetiva comparada. Norteia-se por dois grandes objetivos: o primeiro é descrever e discutir alguns aspetos sintáticos do comportamento da negação em construções declarativas no CV, em continuação ao trabalho de Pina (2006), e o segundo objetivo é descrever a sintaxe da negação no imperativo nessa língua numa perspetiva comparada com as estruturas declarativas correspondentes, bem como estabelecer possível confronto com alguns aspetos da negação declarativa e imperativa, essencialmente, em Português Europeu (PE), e com algumas línguas românicas e propor configurações estruturais que captem as propriedades que diferenciam ou aproximam as frases negativas declarativas e imperativas em CV e em PE. Foram desenvolvidos, portanto, dois tópicos centrais na tese: construções declarativas negativas e estruturas imperativas negativas em CV. Descreveu-se, primeiramente, o comportamento da negação nas estruturas declarativas e, por outro lado, mostrámos, na medida do possível, como é que esses dois tipos de construções negativas (declarativa e imperativa) estão correlacionados. A sua escolha, bem como a comparação que se pode estabelecer entre eles, têm o propósito de caraterizar e explicitar alguns aspetos aproximáveis e/ou divergentes que a negação de estruturas frásicas declarativas no indicativo em CV possui em confronto com as estruturas do imperativo correspondentes nesta língua e em PE. Os dados analisados levam-nos a concluir que a negação de uma frase declarativa, em CV, se realiza tipicamente pela presença da categoria funcional NegP entre as categorias funcionais TP e AspP, quando precede a forma verbal predicativamente plena. Pode ocupar, no entanto, a posição pós-verbal, quando se realiza com o auxiliar sta ‘estar’, na forma imperfetiva staba ‘estava’ e com as formas verbais do presente e ‘é’ e sta ‘está’, respetivamente, das cópulas ser ‘ser’ e sta ‘estar’, indiciando que estes verbos se movem para T0. Mas, por outro lado, o verbo pleno não se move. Ou seja, não sai do vP para se incorporar com a negação e nenhum bloco [Neg+V (predicativo)] se move para T. O CV exibe construções imperativas e possui imperativo verdadeiro (ou independente) como outras línguas, nomeadamente, o Italiano, o Espanhol (cf. Zanuttini 1991, 1994, 1997, Rivero 1994, Rivero & Terzi 1995, Han 2001, Zeijlstra 2006, entre outros) e o Português (cf. Matos 2003a, 2021). Este ocorre essencialmente com uma pessoa do discurso correspondente à 2ª pessoa do singular que se realiza, especificamente, com uma forma verbal nua, sem Sujeito e não permite a negação. Assim, a restrição relativa à impossibilidade de ocorrência da negação no imperativo verdadeiro nesta língua poderá ser explicada pelas seguintes razões: não havendo traços-φ de Pessoa e Número em T nas marcas de flexão do verbo, que ocorre com forma verbal nua, e não se realizando o Sujeito – diferentemente do que sucede com o imperativo supletivo –, que legitima, no discurso, a correspondência de uma possível pessoa gramatical com o verbo, e não ocorrendo o movimento do verbo, isso faz com que este seja interpretado com T deficitário, pelo que a negação não é permitida nessa forma verbal imperativa. Por outro lado, no entanto, a inexistência de movimento do verbo também ocorre no imperativo verdadeiro – na forma afirmativa – e, nesses contextos, as frases são bem formadas. Em PE, como notado em Matos (2021), a negação também é proibida nessas formas verbais do imperativo, ainda que possa ocorrer no imperativo supletivo que, nesta língua, ocorre tipicamente no conjuntivo, como também é ilustrado por autores como Matos (2003a) e Barbosa et al. (2020). Em CV, nas imperativas negativas supletivas, todas as pessoas gramaticais (incluindo a 2ª pessoa do singular, que permite estrategicamente a negação supletiva com a inserção na frase de um sujeito pronominal átono) podem ser negadas e Ka ‘não’ é o marcador que estabelece o domínio negativo nessa forma verbal. A sua presença é obrigatória, mesmo quando coocorre com o marcador negativo de reforço, Na ‘não’, que funciona como a negação de um discurso anterior, e veicula uma informação nova em estruturas imperativas com valores adicionais para ordem e para conselho. Ao contrário das frases declarativas negativas, em que o Sujeito precede sempre a negação, nas imperativas negativas, como no imperativo supletivo em CV, a negação é deslocada tipicamente para a cabeça da frase seguida do pronome pessoal sujeito átono, diversamente do que se verifica no PE. Por outro lado, nas frases afirmativas, o CV usa, à semelhança do PE, o padrão básico de colocação dos pronomes clíticos complementos, i.e., estes pronomes ocorrem enclíticos ao verbo. A diferença em relação ao PE é que, em CV, essa posição sintática do clítico complemento não se altera em nenhum contexto, ainda que ocorram proclisadores.
Autores principais:Pina, Emanuel Correia de
Assunto:Língua crioula cabo-verdiana - Sintaxe Língua portuguesa - Sintaxe Língua crioula cabo-verdiana - Negação (Linguística) Língua portuguesa - Negação (Linguística) Língua crioula cabo-verdiana - Imperativo (Linguística) Língua portuguesa - Imperativo (Linguística) Teses de doutoramento - 2023
Ano:2023
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Esta dissertação centra-se no estudo da sintaxe da negação em frases declarativas e imperativas no Cabo-verdiano – variedade de Santiago (CV) – numa perspetiva comparada. Norteia-se por dois grandes objetivos: o primeiro é descrever e discutir alguns aspetos sintáticos do comportamento da negação em construções declarativas no CV, em continuação ao trabalho de Pina (2006), e o segundo objetivo é descrever a sintaxe da negação no imperativo nessa língua numa perspetiva comparada com as estruturas declarativas correspondentes, bem como estabelecer possível confronto com alguns aspetos da negação declarativa e imperativa, essencialmente, em Português Europeu (PE), e com algumas línguas românicas e propor configurações estruturais que captem as propriedades que diferenciam ou aproximam as frases negativas declarativas e imperativas em CV e em PE. Foram desenvolvidos, portanto, dois tópicos centrais na tese: construções declarativas negativas e estruturas imperativas negativas em CV. Descreveu-se, primeiramente, o comportamento da negação nas estruturas declarativas e, por outro lado, mostrámos, na medida do possível, como é que esses dois tipos de construções negativas (declarativa e imperativa) estão correlacionados. A sua escolha, bem como a comparação que se pode estabelecer entre eles, têm o propósito de caraterizar e explicitar alguns aspetos aproximáveis e/ou divergentes que a negação de estruturas frásicas declarativas no indicativo em CV possui em confronto com as estruturas do imperativo correspondentes nesta língua e em PE. Os dados analisados levam-nos a concluir que a negação de uma frase declarativa, em CV, se realiza tipicamente pela presença da categoria funcional NegP entre as categorias funcionais TP e AspP, quando precede a forma verbal predicativamente plena. Pode ocupar, no entanto, a posição pós-verbal, quando se realiza com o auxiliar sta ‘estar’, na forma imperfetiva staba ‘estava’ e com as formas verbais do presente e ‘é’ e sta ‘está’, respetivamente, das cópulas ser ‘ser’ e sta ‘estar’, indiciando que estes verbos se movem para T0. Mas, por outro lado, o verbo pleno não se move. Ou seja, não sai do vP para se incorporar com a negação e nenhum bloco [Neg+V (predicativo)] se move para T. O CV exibe construções imperativas e possui imperativo verdadeiro (ou independente) como outras línguas, nomeadamente, o Italiano, o Espanhol (cf. Zanuttini 1991, 1994, 1997, Rivero 1994, Rivero & Terzi 1995, Han 2001, Zeijlstra 2006, entre outros) e o Português (cf. Matos 2003a, 2021). Este ocorre essencialmente com uma pessoa do discurso correspondente à 2ª pessoa do singular que se realiza, especificamente, com uma forma verbal nua, sem Sujeito e não permite a negação. Assim, a restrição relativa à impossibilidade de ocorrência da negação no imperativo verdadeiro nesta língua poderá ser explicada pelas seguintes razões: não havendo traços-φ de Pessoa e Número em T nas marcas de flexão do verbo, que ocorre com forma verbal nua, e não se realizando o Sujeito – diferentemente do que sucede com o imperativo supletivo –, que legitima, no discurso, a correspondência de uma possível pessoa gramatical com o verbo, e não ocorrendo o movimento do verbo, isso faz com que este seja interpretado com T deficitário, pelo que a negação não é permitida nessa forma verbal imperativa. Por outro lado, no entanto, a inexistência de movimento do verbo também ocorre no imperativo verdadeiro – na forma afirmativa – e, nesses contextos, as frases são bem formadas. Em PE, como notado em Matos (2021), a negação também é proibida nessas formas verbais do imperativo, ainda que possa ocorrer no imperativo supletivo que, nesta língua, ocorre tipicamente no conjuntivo, como também é ilustrado por autores como Matos (2003a) e Barbosa et al. (2020). Em CV, nas imperativas negativas supletivas, todas as pessoas gramaticais (incluindo a 2ª pessoa do singular, que permite estrategicamente a negação supletiva com a inserção na frase de um sujeito pronominal átono) podem ser negadas e Ka ‘não’ é o marcador que estabelece o domínio negativo nessa forma verbal. A sua presença é obrigatória, mesmo quando coocorre com o marcador negativo de reforço, Na ‘não’, que funciona como a negação de um discurso anterior, e veicula uma informação nova em estruturas imperativas com valores adicionais para ordem e para conselho. Ao contrário das frases declarativas negativas, em que o Sujeito precede sempre a negação, nas imperativas negativas, como no imperativo supletivo em CV, a negação é deslocada tipicamente para a cabeça da frase seguida do pronome pessoal sujeito átono, diversamente do que se verifica no PE. Por outro lado, nas frases afirmativas, o CV usa, à semelhança do PE, o padrão básico de colocação dos pronomes clíticos complementos, i.e., estes pronomes ocorrem enclíticos ao verbo. A diferença em relação ao PE é que, em CV, essa posição sintática do clítico complemento não se altera em nenhum contexto, ainda que ocorram proclisadores.