Publicação
Qual o papel trófico da Lagartixa-da-Madeira, Teira Dugesii Selvagensis, na Selvagem Grande?
| Resumo: | As ilhas oceânicas são locais de nidificação utilizados pela maioria das espécies de aves marinhas. A dinâmica destes ecossistemas insulares é fortemente influenciada por esse grupo de aves devido ao transporte de nutrientes de origem marinha. Nestes ecossistemas, a existência de répteis terrestres é muito comum. A elevada competição intraespecífica dos répteis insulares, que resulta das grandes densidades que estas espécies podem atingir em ilhas sem predadores, é um fator que pode levar à diversificação da dieta. Assim, a dieta dos répteis insulares tende a ser mais herbívora que a das espécies do mesmo género nos continentes. A lagartixa-da-Madeira, Teira dugesii selvagensis, é uma espécie parcialmente herbívora, mas que também preda crias recém-nascidas de cagarra, tendo um impacto de 5% no sucesso reprodutor desta ave marinha na Selvagem Grande. O presente estudo tem como objetivo caracterizar e comparar a estrutura populacional e o papel da lagartixa-da-Madeira na teia trófica de várias áreas da Selvagem Grande, seleccionadas de acordo com o tipo de relevo, a dimensão das colónias de aves marinhas e ainda a cobertura por vegetação, nas duas épocas distintas da nidificação das cagarras (incubação dos ovos e período de alimentação das crias). A abundância das lagartixas nas diferentes áreas e nas duas épocas foi estimada com o método de captura-marcação-recaptura. Recolheu-se ainda dejetos das lagartixas para identificar os respectivos conteúdos. Foram recolhidas amostras de várias espécies constituintes da cadeia trófica da ilha para análise isotópica. No tratamento dos resultados isotópicos, utilizou-se os packages SIAR e SIBER. As maiores abundâncias de lagartixas e as maiores coberturas vegetais foram detetadas em áreas com um menor efetivo de aves marinhas. No entanto, a proporção de imaturos de lagartixa foi superior nas falésias da zona Sul e Sudoeste da ilha, coincidindo com as maiores colónias de aves marinhas. Ocorreu um incremento da herbivoria com o tamanho dos indivíduos, sendo este facto suportado pela elevada percentagem de conteúdos vegetais (cerca de 65%) encontrada nos dejetos. A base das cadeias tróficas foi muito variável entre áreas e é provavelmente influenciada pela topografia da ilha e pelos inputs das aves marinhas. A comparação das assinaturas isotópicas entre as osgas e as lagartixas da ilha permitiu caracterizar os nichos ocupados por cada espécie, sendo as diferenças justificadas pelas dietas. As aves marinhas ou os nutrientes por elas trazidos têm mais importância para a alimentação de T.d. selvagensis nas áreas onde as colónias são maiores. As áreas com mais aves marinhas são aquelas onde as lagartixas apresentam uma menor diferença nos nichos isotópicos entre épocas, e as maiores diferenças de nicho isotópico ocorrem na área com menos recursos. Os resultados isotópicos corroboram os resultados dos dejetos, indicando o consumo de aves marinhas na época correspondente ao período de alimentação das crias. Os resultados obtidos no presente estudo comprovam que a pressão exercida pelas lagartixas nas aves marinhas é váriavel ao longo da ilha. Ao contrário do que era esperado, os locais com mais vegetação, apesar de promoverem maiores abundâncias, são as áreas nas quais o impacto nas aves marinhas é reduzido, e como tal dever-se-á monitorizar as populações de lagartixas para avaliar as suas tendências populacionais com o crescimento da vegetação que continua a decorrer após a erradicação do coelho-bravo e do rato-doméstico. |
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| Autores principais: | Aguilar, Francisco Fonseca de |
| Assunto: | Répteis insulares Lagartixa-da-Madeira Aves marinhas Selvagem Grande Teia trófica Isótopos estáveis Teses de mestrado - 2016 |
| Ano: | 2016 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | As ilhas oceânicas são locais de nidificação utilizados pela maioria das espécies de aves marinhas. A dinâmica destes ecossistemas insulares é fortemente influenciada por esse grupo de aves devido ao transporte de nutrientes de origem marinha. Nestes ecossistemas, a existência de répteis terrestres é muito comum. A elevada competição intraespecífica dos répteis insulares, que resulta das grandes densidades que estas espécies podem atingir em ilhas sem predadores, é um fator que pode levar à diversificação da dieta. Assim, a dieta dos répteis insulares tende a ser mais herbívora que a das espécies do mesmo género nos continentes. A lagartixa-da-Madeira, Teira dugesii selvagensis, é uma espécie parcialmente herbívora, mas que também preda crias recém-nascidas de cagarra, tendo um impacto de 5% no sucesso reprodutor desta ave marinha na Selvagem Grande. O presente estudo tem como objetivo caracterizar e comparar a estrutura populacional e o papel da lagartixa-da-Madeira na teia trófica de várias áreas da Selvagem Grande, seleccionadas de acordo com o tipo de relevo, a dimensão das colónias de aves marinhas e ainda a cobertura por vegetação, nas duas épocas distintas da nidificação das cagarras (incubação dos ovos e período de alimentação das crias). A abundância das lagartixas nas diferentes áreas e nas duas épocas foi estimada com o método de captura-marcação-recaptura. Recolheu-se ainda dejetos das lagartixas para identificar os respectivos conteúdos. Foram recolhidas amostras de várias espécies constituintes da cadeia trófica da ilha para análise isotópica. No tratamento dos resultados isotópicos, utilizou-se os packages SIAR e SIBER. As maiores abundâncias de lagartixas e as maiores coberturas vegetais foram detetadas em áreas com um menor efetivo de aves marinhas. No entanto, a proporção de imaturos de lagartixa foi superior nas falésias da zona Sul e Sudoeste da ilha, coincidindo com as maiores colónias de aves marinhas. Ocorreu um incremento da herbivoria com o tamanho dos indivíduos, sendo este facto suportado pela elevada percentagem de conteúdos vegetais (cerca de 65%) encontrada nos dejetos. A base das cadeias tróficas foi muito variável entre áreas e é provavelmente influenciada pela topografia da ilha e pelos inputs das aves marinhas. A comparação das assinaturas isotópicas entre as osgas e as lagartixas da ilha permitiu caracterizar os nichos ocupados por cada espécie, sendo as diferenças justificadas pelas dietas. As aves marinhas ou os nutrientes por elas trazidos têm mais importância para a alimentação de T.d. selvagensis nas áreas onde as colónias são maiores. As áreas com mais aves marinhas são aquelas onde as lagartixas apresentam uma menor diferença nos nichos isotópicos entre épocas, e as maiores diferenças de nicho isotópico ocorrem na área com menos recursos. Os resultados isotópicos corroboram os resultados dos dejetos, indicando o consumo de aves marinhas na época correspondente ao período de alimentação das crias. Os resultados obtidos no presente estudo comprovam que a pressão exercida pelas lagartixas nas aves marinhas é váriavel ao longo da ilha. Ao contrário do que era esperado, os locais com mais vegetação, apesar de promoverem maiores abundâncias, são as áreas nas quais o impacto nas aves marinhas é reduzido, e como tal dever-se-á monitorizar as populações de lagartixas para avaliar as suas tendências populacionais com o crescimento da vegetação que continua a decorrer após a erradicação do coelho-bravo e do rato-doméstico. |
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