Publicação
Análise da morbi-mortalidade no transplante cardíaco
| Resumo: | A insuficiência cardíaca tem aumentado como resultado do aumento da expectativa de vida da população, especialmente nos países industrializados. Esta entidade afeta cerca de 1% da população e 10% destes sofrem de insuficiência cardíaca terminal. A transplantação cardíaca é atualmente a única opção viável para o tratamento da insuficiência cardíaca terminal, apesar de grandes avanços na busca de novas opções terapêuticas, nomeadamente o apoio mecânico e farmacológico. É objectivo deste estudo analisar a morbilidade e mortalidade precoce e tardia na nossa população de transplantados neste último decénio para conhecer a incidência e a natureza das distintas complicações, bem como o valor preditivo das diferentes variáveis que as condicionam. A identificação destas permitirá prevenir e tratar as complicações dos transplantados e, desta maneira, alargar o seu tempo e qualidade de vida. A análise dos resultados mostrará a dimensão e as consequências da transplantação cardíaca no nosso meio. Também refletirá vários aspetos que não são comuns, tais como as particularidades da nossa população e a peculiar organização do nosso Centro de Transplantação. Esta questão adquire ainda mais importância quando consideramos as alterações no plano epidemiológico e terapêutico observadas nas últimas décadas, com ausência de estudos que caracterizem a realidade portuguesa. O desenho do estudo é simultaneamente retrospetivo e prospetivo, permitindo conhecer a incidência de distintas complicações e o valor preditivo das distintas variáveis que poderão as condicionar. Entre Novembro de 2003 e Dezembro de 2013, foram realizados 259 transplantes cardíacos ortotópicos em 258 doentes, no Centro de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. A idade destes variou entre os 3 e os 72 anos, tendo 55% entre 40 e 60 anos, e 31% superavam os 60 anos. 77,5% eram do sexo masculino. O perfil cardiovascular de risco pré-operatório mostrou 27,9% de doentes diabéticos, 37,6% com hipertensão arterial e 46.9% com dislipidémia. A cardiomiopatia base era de natureza isquémica em 37,2%, idiopática em 36,4% e valvular em 9,7%. A maioria (71%) estava no domicílio aguardando o transplante. 29% estavam internados na UCI, estando 88% sob suporte inotrópico e os restantes sob suporte circulatório mecânico. O tempo médio em lista de espera foi 43,7±5,4 dias, com uma mortalidade na lista de espera de 6,5%. O tempo de seguimento médio foi de 4,4±3,1 anos. A avaliação do dador e a colheita, assim como a metodologia de preservação e transporte do coração dador, foi definida e executada sempre por cirurgiões séniores do nosso Centro. A idade média do dador foi de 34,4 anos, com 10,5 % de dadores com mais de 50 anos e 75,6% do sexo masculino. O traumatismo crânioencefálico constituiu 57,8% da causas de morte e quase metade dos dadores eram de fora da Região Centro. O Centro faz o seguimento da totalidade dos transplantados e o registo dos dados clínicos destes são introduzidos numa base de dados ligada à base nacional dos registos da Sociedade Portuguesa de Transplantação. A transplantação cardíaca constituiu um enorme progresso no campo da patologia cardíaca, particularmente nas últimas décadas com a introdução de novos imunossupressores, mais seguros e eficazes. Continua a ser a única opção viável no tratamento da insuficiência cardíaca terminal, apesar dos grandes avanços realizados na pesquisa de novas opções terapêuticas. Contudo, existem uma série de obstáculos ou problemas que urge resolver, relacionados fundamentalmente com a oferta de dadores e os efeitos secundários dos imunossupressores. A solução passa não apenas pela descoberta de novos imunossupressores, mais eficazes e seletivos e com menos efeitos secundários, mas também por uma maior sensibilização da sociedade relativamente às questões relacionadas com a doação, e ainda por uma maior informação das equipas médicas envolvidas no processo de seleção e manutenção do dador. Portanto, em primeiro lugar, há que racionalizar o processo de doação, insistir na importância dos cuidados e da optimização do dador e, por fim, alargar os critérios de seleção. Com efeito, o aumento do número de candidatos a transplantação obriga à procura de mais dadores. Mas é necessário tomar precauções que nos permitam identificar e optimizar adequadamente o dador subóptimo, porquanto o risco de fracasso primário do enxerto aumenta com o uso de dadores marginais. De um modo consensual, o nosso Centro tem utilizado este tipo de dadores considerados marginais, com valvulopatia, doença coronária, história de reanimação cardio-respiratória prolongada, assistência inotrópica elevada ou idade superior aos limites recomendados, devendo notar-se, que a experiência se tem revelado positiva. Este facto permite-nos insistir no uso de dadores marginais e moderar algumas contraindicações clássicas. É importante entender que apenas a monitorização a longo prazo pode confirmar o sucesso destas novas diretrizes. O objetivo deste estudo é apresentar mudanças no transplante cardíaco, através da avaliação dos resultados nestes casos mais extremos. Por outro lado, o facto de ser uma investigação puramente clínica poderá introduzir alterações na abordagem quotidiana do transplantado cardíaco, se as conclusões assim o demonstrarem. A tese apresenta os resultados correspondentes dez anos de transplantação e analisa vários grupos de risco que merecerem uma especial atenção: recetores de mais de 65 anos, recetores em estado crítico no momento do transplante e diabéticos. Em relação aos dadores marginais, foram analisados e publicados os resultados da transplantação a curto e médio prazo com enxertos submetidos a cirurgia mitral, enxertos pertencentes a dadores de mais de 50 anos e analisou-se o risco do mismatch dador feminino:recetor masculino. |
|---|---|
| Autores principais: | Plaza, David Prieto de la |
| Assunto: | Transplantação cardíaca Mortalidade Morbilidade |
| Ano: | 2015 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Coimbra |
| Idioma: | português |
| Origem: | Estudo Geral - Universidade de Coimbra |
| Resumo: | A insuficiência cardíaca tem aumentado como resultado do aumento da expectativa de vida da população, especialmente nos países industrializados. Esta entidade afeta cerca de 1% da população e 10% destes sofrem de insuficiência cardíaca terminal. A transplantação cardíaca é atualmente a única opção viável para o tratamento da insuficiência cardíaca terminal, apesar de grandes avanços na busca de novas opções terapêuticas, nomeadamente o apoio mecânico e farmacológico. É objectivo deste estudo analisar a morbilidade e mortalidade precoce e tardia na nossa população de transplantados neste último decénio para conhecer a incidência e a natureza das distintas complicações, bem como o valor preditivo das diferentes variáveis que as condicionam. A identificação destas permitirá prevenir e tratar as complicações dos transplantados e, desta maneira, alargar o seu tempo e qualidade de vida. A análise dos resultados mostrará a dimensão e as consequências da transplantação cardíaca no nosso meio. Também refletirá vários aspetos que não são comuns, tais como as particularidades da nossa população e a peculiar organização do nosso Centro de Transplantação. Esta questão adquire ainda mais importância quando consideramos as alterações no plano epidemiológico e terapêutico observadas nas últimas décadas, com ausência de estudos que caracterizem a realidade portuguesa. O desenho do estudo é simultaneamente retrospetivo e prospetivo, permitindo conhecer a incidência de distintas complicações e o valor preditivo das distintas variáveis que poderão as condicionar. Entre Novembro de 2003 e Dezembro de 2013, foram realizados 259 transplantes cardíacos ortotópicos em 258 doentes, no Centro de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. A idade destes variou entre os 3 e os 72 anos, tendo 55% entre 40 e 60 anos, e 31% superavam os 60 anos. 77,5% eram do sexo masculino. O perfil cardiovascular de risco pré-operatório mostrou 27,9% de doentes diabéticos, 37,6% com hipertensão arterial e 46.9% com dislipidémia. A cardiomiopatia base era de natureza isquémica em 37,2%, idiopática em 36,4% e valvular em 9,7%. A maioria (71%) estava no domicílio aguardando o transplante. 29% estavam internados na UCI, estando 88% sob suporte inotrópico e os restantes sob suporte circulatório mecânico. O tempo médio em lista de espera foi 43,7±5,4 dias, com uma mortalidade na lista de espera de 6,5%. O tempo de seguimento médio foi de 4,4±3,1 anos. A avaliação do dador e a colheita, assim como a metodologia de preservação e transporte do coração dador, foi definida e executada sempre por cirurgiões séniores do nosso Centro. A idade média do dador foi de 34,4 anos, com 10,5 % de dadores com mais de 50 anos e 75,6% do sexo masculino. O traumatismo crânioencefálico constituiu 57,8% da causas de morte e quase metade dos dadores eram de fora da Região Centro. O Centro faz o seguimento da totalidade dos transplantados e o registo dos dados clínicos destes são introduzidos numa base de dados ligada à base nacional dos registos da Sociedade Portuguesa de Transplantação. A transplantação cardíaca constituiu um enorme progresso no campo da patologia cardíaca, particularmente nas últimas décadas com a introdução de novos imunossupressores, mais seguros e eficazes. Continua a ser a única opção viável no tratamento da insuficiência cardíaca terminal, apesar dos grandes avanços realizados na pesquisa de novas opções terapêuticas. Contudo, existem uma série de obstáculos ou problemas que urge resolver, relacionados fundamentalmente com a oferta de dadores e os efeitos secundários dos imunossupressores. A solução passa não apenas pela descoberta de novos imunossupressores, mais eficazes e seletivos e com menos efeitos secundários, mas também por uma maior sensibilização da sociedade relativamente às questões relacionadas com a doação, e ainda por uma maior informação das equipas médicas envolvidas no processo de seleção e manutenção do dador. Portanto, em primeiro lugar, há que racionalizar o processo de doação, insistir na importância dos cuidados e da optimização do dador e, por fim, alargar os critérios de seleção. Com efeito, o aumento do número de candidatos a transplantação obriga à procura de mais dadores. Mas é necessário tomar precauções que nos permitam identificar e optimizar adequadamente o dador subóptimo, porquanto o risco de fracasso primário do enxerto aumenta com o uso de dadores marginais. De um modo consensual, o nosso Centro tem utilizado este tipo de dadores considerados marginais, com valvulopatia, doença coronária, história de reanimação cardio-respiratória prolongada, assistência inotrópica elevada ou idade superior aos limites recomendados, devendo notar-se, que a experiência se tem revelado positiva. Este facto permite-nos insistir no uso de dadores marginais e moderar algumas contraindicações clássicas. É importante entender que apenas a monitorização a longo prazo pode confirmar o sucesso destas novas diretrizes. O objetivo deste estudo é apresentar mudanças no transplante cardíaco, através da avaliação dos resultados nestes casos mais extremos. Por outro lado, o facto de ser uma investigação puramente clínica poderá introduzir alterações na abordagem quotidiana do transplantado cardíaco, se as conclusões assim o demonstrarem. A tese apresenta os resultados correspondentes dez anos de transplantação e analisa vários grupos de risco que merecerem uma especial atenção: recetores de mais de 65 anos, recetores em estado crítico no momento do transplante e diabéticos. Em relação aos dadores marginais, foram analisados e publicados os resultados da transplantação a curto e médio prazo com enxertos submetidos a cirurgia mitral, enxertos pertencentes a dadores de mais de 50 anos e analisou-se o risco do mismatch dador feminino:recetor masculino. |
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