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Egas Moniz : representação, saber e poder
| Summary: | A singularidade de um cientista de um país semi-periférico como Portugal, ter conseguido, em 1949, a maior distinção científica do Século XX – o Prémio Nobel – tem suscitado a questão de saber que diferenças no seu trajecto, no alcance dos resultados das suas investigações científicas, e nas condições em que viveu, explicam um tão elevado grau de reconhecimento de que foi objecto, em contraste com outros cientistas portugueses, ao longo do século passado. Sem embargo da profusa e interessante bibliografia disponível, designadamente resultante da investigação encetada pelo Grupo de História e Sociologia da Ciência do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20, no âmbito do qual desenvolvemos o presente trabalho, foram identificados, nesse acervo bibliográfico, três tipos de fragilidades relativamente aos quais importava aprofundar a investigação, de modo a produzir um conhecimento mais satisfatório. Em primeiro lugar, as circunstâncias em que Egas Moniz foi nomeado para o Prémio Nobel, referidas vaga e incompletamente na literatura disponível; em segundo lugar, o evitamento generalizado das polémicas que acompanharam as descobertas científicas de Egas Moniz, o seu papel estimulante para o entendimento dos problemas que elas se propunham resolver; em terceiro lugar, a mitificação da figura, por via de um enviesamento biográfico que omitia ou referia mitigadamente aspectos centrais das suas práticas sociais, culturais e políticas. A investigação levada a cabo nos arquivos da fundação Nobel revelou um conjunto de documentos inéditos que veio acrescentar informação indispensável para a compreensão do processo de avaliação e recompensa científica que dominou o século XX. Foi, de facto, o Prémio Nobel que promoveu e consolidou internacionalmente a figura de Egas Moniz. É um aspecto central para a história e sociologia da ciência, quer na óptica da representação de Egas Moniz, quer na perspectiva do estudo dos dispositivos de avaliação e recompensa científica do século XX. Por isso, as sucessivas nomeações de Egas Moniz para o prémio Nobel, as razões invocadas da parte dos seus pares para o nomearem, em contraposição às apreciações e comentários dos avaliadores do Comité Nobel, fornecem uma boa base para a compreensão das práticas e dos valores associados à cultura dos cientistas. À luz da nova documentação revelada fica patente um conjunto de limitações derivado de adaptações discutíveis do legado de Alfred Nobel e de normas de organização institucional que impedem o escrutínio tempestivo dos actos do comité Nobel. Como se pode depreender a partir da análise do dossier de Egas Moniz, a espécie de moratória de 50 anos que impede a divulgação dos fundamentos para aceitação ou recusa de cientistas nomeados, a margem de arbitrariedade, decisões injustificadas e métodos duvidosos, afectam as deliberações do Comité Nobel. Assim, ao longo do nosso trabalho, pretendemos Primeiro, desmontar parte do intricado processo de nobelização; Segundo, contestar a ideia difusa de que o alcance e o investimento de Egas Moniz na sua carreira política foram despiciendos e, Terceiro, propor a recomposição do perfil biográfico de Moniz, agregando-lhe os aspectos que lhe conferem maior densidade social, cultural e histórica, sublinhando os principais pontos de contacto entre o indivíduo e a sua época, que o mesmo é dizer, entre o ser individual e as instituições; Moniz nas suas figurações, nos termos caros a Norbert Elias, ou, ainda, de acordo com Wright Mills, nos pontos de intersecção entre estrutura social e biografia. Egas Moniz surge, pois, no texto que aqui submetemos, como um conjunto de representações – construídas, pensadas e dadas a ler – que registámos sob as denominações categoriais de fragmentação identitária (persistência de biografias lacunares) e de poder biográfico (condicionamento deliberado das versões biográficas). A nossa proposta consiste na valorização de uma série culturalmente relevante de elementos biográficos (ou biografemas) e da sua integração na narrativa acerca de Egas Moniz com vista ao que chamamos uma historiografia inclusiva. |
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| Main Authors: | Correia, Manuel da Encarnação Simões |
| Subject: | Moniz, Egas, 1874-1955 -- vida e obra |
| Year: | 2011 |
| Country: | Portugal |
| Document type: | doctoral thesis |
| Access type: | open access |
| Associated institution: | Universidade de Coimbra |
| Language: | Portuguese |
| Origin: | Estudo Geral - Universidade de Coimbra |
| Summary: | A singularidade de um cientista de um país semi-periférico como Portugal, ter conseguido, em 1949, a maior distinção científica do Século XX – o Prémio Nobel – tem suscitado a questão de saber que diferenças no seu trajecto, no alcance dos resultados das suas investigações científicas, e nas condições em que viveu, explicam um tão elevado grau de reconhecimento de que foi objecto, em contraste com outros cientistas portugueses, ao longo do século passado. Sem embargo da profusa e interessante bibliografia disponível, designadamente resultante da investigação encetada pelo Grupo de História e Sociologia da Ciência do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20, no âmbito do qual desenvolvemos o presente trabalho, foram identificados, nesse acervo bibliográfico, três tipos de fragilidades relativamente aos quais importava aprofundar a investigação, de modo a produzir um conhecimento mais satisfatório. Em primeiro lugar, as circunstâncias em que Egas Moniz foi nomeado para o Prémio Nobel, referidas vaga e incompletamente na literatura disponível; em segundo lugar, o evitamento generalizado das polémicas que acompanharam as descobertas científicas de Egas Moniz, o seu papel estimulante para o entendimento dos problemas que elas se propunham resolver; em terceiro lugar, a mitificação da figura, por via de um enviesamento biográfico que omitia ou referia mitigadamente aspectos centrais das suas práticas sociais, culturais e políticas. A investigação levada a cabo nos arquivos da fundação Nobel revelou um conjunto de documentos inéditos que veio acrescentar informação indispensável para a compreensão do processo de avaliação e recompensa científica que dominou o século XX. Foi, de facto, o Prémio Nobel que promoveu e consolidou internacionalmente a figura de Egas Moniz. É um aspecto central para a história e sociologia da ciência, quer na óptica da representação de Egas Moniz, quer na perspectiva do estudo dos dispositivos de avaliação e recompensa científica do século XX. Por isso, as sucessivas nomeações de Egas Moniz para o prémio Nobel, as razões invocadas da parte dos seus pares para o nomearem, em contraposição às apreciações e comentários dos avaliadores do Comité Nobel, fornecem uma boa base para a compreensão das práticas e dos valores associados à cultura dos cientistas. À luz da nova documentação revelada fica patente um conjunto de limitações derivado de adaptações discutíveis do legado de Alfred Nobel e de normas de organização institucional que impedem o escrutínio tempestivo dos actos do comité Nobel. Como se pode depreender a partir da análise do dossier de Egas Moniz, a espécie de moratória de 50 anos que impede a divulgação dos fundamentos para aceitação ou recusa de cientistas nomeados, a margem de arbitrariedade, decisões injustificadas e métodos duvidosos, afectam as deliberações do Comité Nobel. Assim, ao longo do nosso trabalho, pretendemos Primeiro, desmontar parte do intricado processo de nobelização; Segundo, contestar a ideia difusa de que o alcance e o investimento de Egas Moniz na sua carreira política foram despiciendos e, Terceiro, propor a recomposição do perfil biográfico de Moniz, agregando-lhe os aspectos que lhe conferem maior densidade social, cultural e histórica, sublinhando os principais pontos de contacto entre o indivíduo e a sua época, que o mesmo é dizer, entre o ser individual e as instituições; Moniz nas suas figurações, nos termos caros a Norbert Elias, ou, ainda, de acordo com Wright Mills, nos pontos de intersecção entre estrutura social e biografia. Egas Moniz surge, pois, no texto que aqui submetemos, como um conjunto de representações – construídas, pensadas e dadas a ler – que registámos sob as denominações categoriais de fragmentação identitária (persistência de biografias lacunares) e de poder biográfico (condicionamento deliberado das versões biográficas). A nossa proposta consiste na valorização de uma série culturalmente relevante de elementos biográficos (ou biografemas) e da sua integração na narrativa acerca de Egas Moniz com vista ao que chamamos uma historiografia inclusiva. |
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