Publicação
Resultados das escavações arqueológicas realizadas no claustro do antigo Convento de Jesus (Academia das Ciências de Lisboa) entre Junho e Dezembro de 2004
| Resumo: | As escavações de carácter preventivo dirigidas pelo signatário no claustro do antigo Convento de Jesus, actualmente Academia das Ciências de Lisboa, entre Junho e Dezembro de 2004, corresponderam apenas a cerca de 1/4 da área correspondente à deposição de um vasto ossuário, constituído por milhares de ossos humanos já desarticulados e, na maioria dos casos, incompletos. Este depósito, formando uma camada ossífera contínua, evidenciava, nalguns casos, uma disposição intencional dos seus elementos, em particular alguns ossos longos e crânios e integrava também materiais arqueológicos muito diversificados, desde fragmentos de faianças dos séculos XVII/XVIII e materiais de construção, a restos alimentares, moedas e carvões, entre outros. Alguns restos humanos evidenciavam profundas alterações devidas à exposição a fonte de calor intensa. Tais modificações são compatíveis com os incêndios generalizados que devastaram a cidade de Lisboa na sequência do mega-sismo de 1 de Novembro de 1755 sendo, por conseguinte, esta a primeira evidência publicada de vítimas da catástrofe,cujos restos, certamente de corpos irreconhecíveis, foram depois recolhidos e enterrados em espaço sacralizado, como era de uso na época, de mistura com outros despojos e entulhos. Com efeito, subjacentes a este depósito ossífero, identificaram-se numerosas deposições de cadáveres, por vezes sobrepostos, em decúbito dorsal, nalguns casos conservando os braços cruzados sobre o peito e onde aquelas alterações não eram visíveis. Nalguns casos, os cadáveres conservavam os braços cruzados sobre o peito, posição caracteristicamente franciscana, compatível com o facto de o Convento de Jesus ser sede provincial da Ordem Terceira de São Francisco. Além dos frades, também seriam sepultados nos carneiros, compartimentados por paredes de alvenaria rebocada os habitantes da área adjacente da cidade. Ao contrário do verificado no depósito ossífero superior, os materiais que acompanhavam estas inumações relacionam-se essencialmente com as indumentárias dos mortos, a par de algumas moedas, por vezes contidas na mão fechada do falecido, a par de verónicas, contas, crucifixos de rosários e inúmeros alfinetes, utilizados no amortalhamento dos corpos. Estudos de diversas especialidades encontram-se actualmente em curso, sob a coordenação do Prof. M. Telles Antunes, os quais permitirão desenvolver e aprofundar os resultados e conclusões já obtidos e agora previamente apresentados, no que à Arqueologia diz directamente respeito. |
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| Autores principais: | Cardoso, João Luís |
| Assunto: | Arqueologia Escavações arqueológicas Pré-história Academia das Ciências de Lisboa |
| Ano: | 2008 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | artigo |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade Aberta |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório Aberto da Universidade Aberta |
| Resumo: | As escavações de carácter preventivo dirigidas pelo signatário no claustro do antigo Convento de Jesus, actualmente Academia das Ciências de Lisboa, entre Junho e Dezembro de 2004, corresponderam apenas a cerca de 1/4 da área correspondente à deposição de um vasto ossuário, constituído por milhares de ossos humanos já desarticulados e, na maioria dos casos, incompletos. Este depósito, formando uma camada ossífera contínua, evidenciava, nalguns casos, uma disposição intencional dos seus elementos, em particular alguns ossos longos e crânios e integrava também materiais arqueológicos muito diversificados, desde fragmentos de faianças dos séculos XVII/XVIII e materiais de construção, a restos alimentares, moedas e carvões, entre outros. Alguns restos humanos evidenciavam profundas alterações devidas à exposição a fonte de calor intensa. Tais modificações são compatíveis com os incêndios generalizados que devastaram a cidade de Lisboa na sequência do mega-sismo de 1 de Novembro de 1755 sendo, por conseguinte, esta a primeira evidência publicada de vítimas da catástrofe,cujos restos, certamente de corpos irreconhecíveis, foram depois recolhidos e enterrados em espaço sacralizado, como era de uso na época, de mistura com outros despojos e entulhos. Com efeito, subjacentes a este depósito ossífero, identificaram-se numerosas deposições de cadáveres, por vezes sobrepostos, em decúbito dorsal, nalguns casos conservando os braços cruzados sobre o peito e onde aquelas alterações não eram visíveis. Nalguns casos, os cadáveres conservavam os braços cruzados sobre o peito, posição caracteristicamente franciscana, compatível com o facto de o Convento de Jesus ser sede provincial da Ordem Terceira de São Francisco. Além dos frades, também seriam sepultados nos carneiros, compartimentados por paredes de alvenaria rebocada os habitantes da área adjacente da cidade. Ao contrário do verificado no depósito ossífero superior, os materiais que acompanhavam estas inumações relacionam-se essencialmente com as indumentárias dos mortos, a par de algumas moedas, por vezes contidas na mão fechada do falecido, a par de verónicas, contas, crucifixos de rosários e inúmeros alfinetes, utilizados no amortalhamento dos corpos. Estudos de diversas especialidades encontram-se actualmente em curso, sob a coordenação do Prof. M. Telles Antunes, os quais permitirão desenvolver e aprofundar os resultados e conclusões já obtidos e agora previamente apresentados, no que à Arqueologia diz directamente respeito. |
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